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segunda-feira, 5 de março de 2007

Arpad Szenes - obras da Fundação Arpad Szenes-Vieira da Silva

Fundação expõe obras menos conhecidas de Arpad Szenes em Março
Uma selecção de 129 desenhos, pinturas e gravuras de Arpad Szenes vai ser exposta em Março, em Lisboa, revelando registos menos conhecidos do artista, tais como auto- retratos e pinturas da sua mulher, Vieira da Silva.
De acordo com a Fundação Arpad Szenes-Vieira da Silva, a realização da exposição, a inaugurar a 02 de Março nas suas instalações, pretende remir uma "dívida moral" para com o artista, "um projecto sempre adiado por várias razões".
Em 1994 a Fundação comemorou o décimo aniversário da abertura do museu ao público com a grande exposição "Vieira da Silva nas colecções internacionais", planeando para mais tarde uma homenagem semelhante a Arpad Szenes, nunca concretizada.
A entidade considerou ser oportuno destacar este ano a obra do artista, cujo espólio em seu poder é superior ao de Vieira da Silva, ascendendo a cerca de 2.000 peças de diferentes técnicas e suportes que cobrem toda a sua produção.
Esta mostra da obra do artista detida pela Fundação foi agrupada por séries e temas recorrentes na produção de Arpad Szenes, nomeadamente arquitectura, a família e outros retratos de pessoas próximas, estudos sobre o corpo, ilustrações e gravuras.
Os desenhos - sobretudo da infância e juventude, e muitos auto- retratos de que nunca se separou - vão ser uma componente especial da exposição, não tanto por serem obras maiores do artista, mas pelo seu valor documental e emocional.
Um dos seus modelos de eleição, Maria Helena Vieira da Silva, surge como um dos temas predominantes a partir de 1930, ano do casamento, acompanhada pelo artista ou por elementos como mesas ou cadeiras, numa fusão de afecto e de investigação plástica.
A exposição completa-se com um núcleo de pinturas, paisagens abstractas que testemunham a forma como Arpad Szenes executava a representação da luz, o movimento e a atmosfera.
Nascido em Budapeste em 1897, revelou desde muito cedo uma especial aptidão para o desenho, frequentando a Academia Livre de Budapeste, onde o ensino era avançado e liberal.
Influenciado pela música de Bartok e de Kodaly, bem como pela arte de vanguarda de Lajos Kassák, percorreu as capitais artísticas europeias e fixou-se em Paris em 1925.
Quatro anos mais tarde conheceu Vieira da Silva na Academia da Grande Chaumière, casaram-se, e nos anos seguintes a sua obra é marcada pelo contacto com os surrealistas.
Devido à guerra partem para o Brasil, onde permanecem até 1947, e, de regresso a Paris, Arpad pede a nacionalidade francesa.
Começando a afirmar-se como pintor, veio a receber diversas condecorações do Estado francês pela sua actividade. Viria a falecer em 1985.
Apesar da sua personalidade discreta, é considerado um dos melhores representantes da Escola de Paris dos anos 40, tendo-lhe sido dedicadas várias retrospectivas a partir dos anos 70.
"Arpad Szenes - obras da Fundação Arpad Szenes-Vieira da Silva" estará patente até 17 de Junho de 2007.
Agência LUSA
Ver
Sobre ao relacionamento de António Aniceto Monteiro, Leite Lopes, Arpad Szenes e Vieira da Silva, ver

sexta-feira, 13 de junho de 2008

Maria Helena Vieira da Silva nasceu há 100 anos

Fotografia retirada de: aqui
Carlos Scliar (1920-2001)
Sobre ao relacionamento de António Aniceto Monteiro, Leite Lopes, Arpad Szenes e Vieira da Silva, ver
Leite Lopes, grande amigo de António Aniceto Monteiro
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Relembro a figura de Antônio Aniceto Monteiro, matemático português que deu importante contribuição matemática no Brasil enquanto aqui esteve como professor na FNFi, até que pressões políticas oriundas do regime salazarista de Portugal tiveram força suficiente, nesta universidade, àquela época, para afastá-lo.
Lembro da Pensão Internacional de Santa Teresa no Rio de Janeiro, para onde fui em 1946, depois de casar-me assumir a cátedra na Faculdade Nacional de Filosofia. Ali estavam os Monteiro, o casal de pintores Maria Helena Vieira da Silva e Arpad Szenes, mundialmente famosos, o pintor Carlos Scliar, o saudoso crítico de arte Rubem Navarra e os nossos vizinhos e amigos, os ceramistas Anna e Adolpho Soares, num ambiente onde pairava talvez a sombra de Isadora Duncan, que lá - dizem - havia se hospedado e para onde iam, freqüentemente, à noite, Murilo Mendes, Manuel Bandeira, Heitor Grillo e Cecília Meirelles. Evoco o apoio que recebi na década de 1940 e 1950, dos conselheiros científicos da Embaixada da França, entre eles Madame Gabrielle Mineur, do Conselho Britânico. No Conselho Científico da Embaixada Americana no Rio de Janeiro, em 1969, devo a Mr. Hudson os esforços realizados para a minha partida para Pittsburgh.
Invoco na década de 1940, no Quartier Latin do Rio de Janeiro, o Catete, as discussões sobre cinema conduzidas por Vinicius de Moraes e Plínio Sussekind Rocha e as discussões com companheiros como Guerreiro Ramos, sobre Platão e Rainer Maria Rilke. Relembro encontros no gabinete de Simeão Leal, no Ministério da Educação; os encontros com colegas de outras especialidades na Faculdade Nacional de Filosofia - o que a velha instalação na cidade permitia -, como Roberto Alvim Correa, Manuel Bandeira, Josué de Castro Vieira Pinto, Hilgard Sternberg, Thiers Moreira, Maria Yedda Linhares, João Cristóvão Cardoso, Alceu Amoroso Lima, Vitor Nunes Leal, Oliveira Castro, Otto Maria Carpeaux - então chefe da Biblioteca da FNFi - e Júlio de Sá Carvalho. As discussões sobre filosofia com René Poirier, o grande epistemólogo da Sorbonne, A. Ratisbona e Iremar Pena. Aqui paro pois este relato.

terça-feira, 11 de dezembro de 2012

Minuta da entrega da edição da Portugaliae Mathematica à Sociedade Gazeta de Matemática, Limitada (21 de Outubro de 1946)

© Família de António Aniceto Monteiro
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A letra no cimo desta minuta é, provavelmente, de Avelino Cunhal, como se pode ver comparando-a com a letra da primeira página manuscrita do livro "Nenúfar no charco" (livro de 1934-1935):
Tudo leva a crer que a minuta foi feita pelo próprio Avelino Cunhal e que todos os trâmites legais também foram feitos por ele.
Avelino Cunhal
Agradecimentos: família de Avelino Cunhal
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Ver:
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Nesta data, a família Monteiro morava Rua Almirante Alexandrino, 964, na «Pensão Internacional», no Rio de Janeiro, onde também moravam Maria Helena Vieira da Silva e Arpad Szenes.
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«Havia ainda em Santa Teresa, nessa mesma época, um outro núcleo irradiador de manifestações culturais inovadoras, produzidas a partir do convívio de artistas e intelectuais brasileiros com emigrados europeus. Trata-se da Pensão Internacional, que ocupava alguns chalés anteriormente pertencentes ao requintado e já então desativado Hotel Internacional, localizado na Rua Almirante Alexandrino. Ali pontificavam, na década de 40, o pintor húngaro Arpad Szenes e a pintora portuguesa Maria Helena Vieira da Silva, que eram casados. Entre os moradores da Pensão Internacional estavam, por exemplo, o crítico de arte Rubem Navarra, o cientista Leite Lopes, o poeta português Antônio Boto, o arquiteto belga Jacques Van der Beuque e o pintor Carlos Scliar. O local, onde Szenes estabeleceu o seu ateliê e lecionou pintura, era frequentado também por outros intelectuais e artistas, como os poetas Murilo Mendes e Cecília Meireles, o pintor e escultor Athos Bulcão, o cenógrafo e diretor de teatro Eros Martim Gonçalves e os escritores franceses Michel Simon e Roger Caillois.»
[André Luiz Faria Couto: Pensão Mauá e Hotel Internacional]
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«A declaração da guerra, em Agosto de 1939, apanha o casal em viagem. Temendo o avanço das tropas alemãs e as consequências pela origem judia de Arpad, partem primeiro para Paris, depois para Lisboa, deixando o atelier do Boulevard Saint-Jacques entregue ao cuidado de Jeanne Bucher. Em Portugal, Vieira requer, para si e para Arpad, a nacionalidade portuguesa. Contraem matrimónio religioso na igreja de São Sebastião da Pedreira e durante quase um ano, vivem e trabalham no atelier do Alto de São Francisco aguardando uma resposta que virá negativa. Sem a protecção da nacionalidade e receando a progressão germânica, o casal decide exilar-se no Brasil.
Em Junho de 1940 Vieira e Arpad embarcam para o Rio de Janeiro. Instalam-se primeiro no Hotel Londres, em Copacabana, e depois numa pensão no Flamengo. Mais tarde Arpad e Vieira mudam-se para o Hotel Internacional, no Silvestre, em Santa Teresa, última morada do casal no Rio de Janeiro. Do seu círculo de amizades fazem parte Murilo Mendes, Cecília Meireles, Carlos Drummond de Andrade, Carlos Scliar, Maria Saudade Cortesão, Ruben Navarra, Athos Bulcão, Martim Gonçalves – dito Eros, entre outros.
O exílio no Brasil foi particularmente doloroso para Vieira e a sua obra reflecte as suas inquietações: a dor da guerra, o absurdo da condição humana, o desenraizamento e a saudade. A artista vê-se despojada de tudo. Um estado de crescente debilidade fá-la abandonar as pesquisas abstractas que só serão retomadas e actualizadas no regresso a Paris, em 1947.»

segunda-feira, 12 de dezembro de 2016

JOSÉ LEITE LOPES: excerto de «idéias e paixões»

Leite Lopes e Monteiro numa fotografia dos anos 1945-1949
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(…)
Quando voltei de Princeton, em 1946, eu morava em uma pensão, chamada Pensão Internacional, em Santa Tereza, que eram as ruínas do Hotel Internacional, onde se havia hospedado a grande bailarina Isadora Duncan, pelo que me disseram. Eu me casei em julho de 46 e voltei para o Rio (ver RIO), para um quarto de apartamento em Copacabana. Havia um matemático português, Antônio Aniceto Monteiro, que morava nesta pensão, que achou que eu deveria ir para lá e eu fui com a minha mulher. O lugar era muito aprazível; um lugar alto e fazia uma diferença de dois três graus com relação ao resto da cidade, o que era muito importante no verão. Lá habitava o famoso casal Arpád Szenes e Maria Helena Vieira da Silva. A Vieira da Silva tornou-se depois uma das maiores pintoras na França. Eles vieram para cá refugiados da guerra. Havia também o pintor Carlos Scliar, que acabava de regressar da Europa, onde tinha participado da guerra como integrante da Força Expedicionária Brasileira. Havia um crítico de Arte chamado Rubem Navarra, que depois foi para a França e parece que enlouqueceu e morreu prematuramente. Uma aluna de Arpád, uma americana, fez um retrato a óleo de minha mulher Carmita, que é uma beleza e até hoje está na casa de meu filho mais velho, José Sérgio. Havia também um casal amigo, Adolpho e Ana Soares, que eram ceramistas, e que nos visitavam muito na Pensão Internacional. Aliás, nos fins de semana, iam à pensão poetas e escritores como Manuel Bandeira, Murilo Mendes e sua mulher, Maria da Saudade Cortesão, a famosa Cecília Meirelles e seu esposo Heitor Grillo, o poeta Ascenso Ferreira (ver POESIA). Iam todos visitar Maria Helena e Arpád Szenes. Eu morava num quarto em cima do deles e descia para ouvir música de quarteto, as músicas de Debussy, de Bach (ver BACH) e era uma delícia! Influenciado por essas coisas todas, pelo convívio com esses pintores e artistas, fui me interessando, cada vez mais, pelas Artes.
(…)
Uma beleza a pintura (ver BELEZA)! Eu travei contato com a pintura quando vim ao Rio de Janeiro e me hospedei na Pensão Internacional, com a minha mulher (ver AMOR). Eu tinha acabado de casar, e lá estava um casal famoso de pintores: Arpád Szenes, que era um pintor de nacionalidade húngara, mas radicado em Paris, e sua mulher Maria Helena Vieira da Silva, nascida em Portugal, mas também residente em Paris. Ambos eram muito famosos como grandes pintores, e tinham fugido de Paris com a ocupação alemã e estavam instalados na Pensão
Internacional em Santa Teresa, para onde me levou o matemático português Antonio Aniceto Monteiro, que também estava hospedado lá. Também estava lá Carlos Scliar, um grande pintor brasileiro, e então foi o meu primeiro contato com a pintura. Eu via lá o Arpád que dava aulas de pintura e tinha alunas americanas e Maria Helena, separada dele, evidentemente em outro atelier, para um não influenciar o outro.
(…)

sábado, 12 de maio de 2007

Fotobiografia / Fotobiografía

ANTÓNIO ANICETO MONTEIRO
Uma fotobiografia a várias vozes
Una fotobiografía a varias voces
(o autor do desenho da capa é ARPAD SZENES)
(Clube SPM)
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Ver:
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Índice
Agradecimentos
Índice
Notas introdutórias
Prefacio

1884-1936: Mossâmedes-Lisboa-Paris
Da Conferência de Berlim à guerra no sul de Angola
Os Pais
O falecimento de António Ribeiro Monteiro
Em Lisboa
Menino da Luz
“A revelação da sua extraordinária aptidão para o estudo e a investigação”
Casamento
“Revelou as suas tendências para a investigação, quando ainda aluno da Faculdade de Ciências”
Sus primeros trabajos

1936-1945: Lisboa-Porto
Um “curriculum vitae excepcional”
O Núcleo de Matemática, Física e Química
La labor de investigación de Monteiro en Lisboa
Prefácio à Portugaliae Mathematica
Actuação de António Aniceto Monteiro em Lisboa entre 1939 e 1942
Prefácio a Trabalhos do Seminário de Análise Geral
Nascimento da Sociedade Portuguesa de Matemática
Gazeta de Matemática
Conferências de Maurice Fréchet em Portugal
Excerto do Prefácio ao livro Funções Contínuas
“Um invulgaríssimo entusiasta da causa da investigação matemática”
António Aniceto Monteiro e o C.E.M. do Porto
António Aniceto Monteiro no Porto
Os objectivos da Junta de Investigação Matemática
Passeios no Tejo
Leis que visavam a repressão e a depuração dos funcionários civis e militares do Estado
Decreto-lei n.° 25:317
Decreto-lei n.° 27:003
“Não aceito limitações à minha inteligência!”
Carta a Guido Beck: “Fiz preparativos para sair do meu país para sempre”
“Eles foram de facto valores «sonegados» ao país”

1945-1949: Rio de Janeiro
A influência de António Aniceto Ribeiro Monteiro no desenvolvimento da Matemática no Brasil
Impressões sobre António Aniceto Monteiro
António Aniceto Ribeiro Monteiro no Brasil
La labor de investigación de Monteiro en Río de Janeiro
“Relembro a figura de Antônio Aniceto Monteiro...”
Carta a Guido Beck: “Isto é um inferno...”
La transferencia de Monteiro a Argentina

1949-1957: San Juan
Na Argentina
Carta a Guido Beck: “No dia 25 viajámos todos para San Juan”
Carta a Guido Beck: “Cidade destruída por um terramoto...”
Professor António Monteiro and contemporary mathematics in Argentina (San Juan)
“Monteiro fue uno de los más ilustres matemáticos que llegó a este continente”
La labor de investigación de Monteiro en San Juan
Problemas da cultura matemática portuguesa

1957-1977: Bahía Blanca
Professor António Monteiro and contemporary mathematics in Argentina (Bahía Blanca)
Monteiro en Bahía Blanca
António Monteiro na Universidad Nacional del Sur
“Voltei a Paris depois de 34 anos de ausência...”, “Volto para a Argentina sem ir a Portugal”
“Como trabajador científico me he limitado a cumplir con mis deberes...”
La labor de investigación de Monteiro en Bahía Blanca
Monteiro’s research in Bahía Blanca
Ruy Luís Gomes em Bahía Blanca
Recordações de Instituto de Matemática, de António Monteiro e dos seus discípulos (em Bahía Blanca)
Recordando a don Ruy Luís Gomes
Relatórios do informador habitual...
A situação político-institucional da UNS em 1975
Expulsão de professores da UNS
Cartas de matemáticos argentinos em defesa de António Aniceto Monteiro
Poesias de António Monteiro (1959)

1977-1979: Lisboa
O regresso de António Monteiro a Portugal, de 1977 a 1979
O Aniceto

1979-2007: Bahía Blanca
Aniceto Monteiro, um homem
Recordando Aniceto Monteiro
La labor de investigación de Monteiro
The last days

Bibliografía de António Aniceto Monteiro
Formação de discípulos
Cronologia de António Aniceto Monteiro
Referências

quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

Procuração a Avelino Cunhal (16 de Outubro de 1943)

Avelino Cunhal (fotografia copiada do livro Nenúfar no Charco)
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Em Outubro de 1943, António Aniceto Monteiro preparava-se para sair imediatamente do país...
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 © Família de António Aniceto Monteiro
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O nome de Lídia Monteiro aparece com um erro; onde está "Lídia Moreira", deveria estar "Lídia Marina".
Uma das testemunhas é o médico João Ferreira Marques (ver Ferreira Marques e Bento de Jesus Caraça num passeio no Tejo).
A outra testemunha é Antonino José de Sousa, advogado.
O notário é José Peres de Noronha Galvão (*).
(*) Pai de Maria Luísa Melo de Noronha Galvão.
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Nesta data, a família Monteiro morava Rua Fábrica das Sedas, 5, rés-do-chão. Actualmente, parece que tal rua não existe, mas existe uma travessa com o mesmo nome que fica na zona das Amoreiras, nas traseiras da Fundação Arpad Szenes - Vieira da Silva; também pode suceder que chamaram "Rua" à "Travessa". Curiosamente, menos de dois anos mais tarde, a família Monteiro iria habitar a «Pensão Internacional», no Rio de Janeiro, onde também moravam Maria Helena e Arpad... (ver Maria Helena Vieira da Silva nasceu há 100 anos).

quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

terça-feira, 6 de março de 2007

Carlos Scliar (1920-2001)

1943 -A pintora Maria Helena Vieira da Silva, seu marido, o pintor Arpad Szenes, e Carlos Scliar. Fotografia retirada daqui

sábado, 1 de janeiro de 2011

A guerra no sul de Angola em 1915 (2)

(...)
A grande dificuldade em obter elementos necessários para uma conveniente linha de étapes através dos distritos de Mossamedes e Huila levou-me a nem sequer poder pensar em estabelecer uma outra linha baseada no caminho de ferro de Benguela e que com aquela cooperasse, pois mesmo só para a linha que estabeleci, tive que lançar mão das praças do batalhão de infantaria 14 que ainda estavam em estado de fazer serviço e tive que mandar ir de Loanda uma bateria de artilharia 3 e a companhia de infantaria 20, sendo as duas primeiras completamente desfeitas bem como a bateria de artilharia 2 que estava em Mossamedes e uma outra bateria de montanha que se encontrava na Chibia.
A organisação da linha de étapes foi estabelecida segundo a proposta do director do serviço de étapes levemente modificada e o seu funcionamento consta dos relatórios do mesmo director e do seu chefe do estado maior.
Tendo recebido comunicações, ainda que vagas, que assinalavam a presença de alemães no nosso posto abandonado do Cuangar, com tendência a internarem-se pelo vale do Cubango, resolvi reforçar as tropas da região de Cassinga e assim criei um destacamento com o fim de vigiar o referido vale, destacamento cujo comando dei ao major de Infantaria Reis e Silva, que recebeu as devidas instruções.
Durante esta minha primeira estada em Mossamedes, foram-se sucessivamente montando os diferentes serviços para o que fiz publicar o seguinte:

Instruções para o serviço telegráfico.
Instruções para o serviço postal.
Instruções para a contabilidade e fiscalisação.
Instruções para o serviço dos depósitos de fardamento e subsistencias.
Instruções para o serviço do rebanho de abastecimento e parque de rezes.
Instruções para o serviço das padarias.

Nesta altura teve lugar o primeiro contacto das forças do meu comando com o gentio revoltado, contacto efectuado pelas nossas tropas avançadas que se encontravam no Tchicusse, sob o comando do 1º tenente Cerqueira, e que a pedido instante do superior da missão de Tchipelongo foram em socorro da mesma, inflingindo uma severa lição ao gentio, e portando-se com uma valentia que bem mostrou quanto tinha a esperar dessas belas tropas (batalhão de marinha e 15ª companhia indígena de Moçambique) que mais tarde nos combates de Mongua tão brilhantemente se houveram. O que foi esta primeira entrada em operações, não prevista, muito bem o diz o relatório do lº tenente Cerqueira. Também por essa ocasião eu estava já ilucidado sobre a situação além Cunene, relativamente aos alemães, pois tinha recebido relatórios de reconhecimentos que confirmavam a sua ausência da: proximidades de Naulila e de toda a fronteira de ali para o Sul.
Para haver a menor perda de tempo na realisação de todas as medidas tendentes à aceleração da entrada em operações, combinei com o chefe do estado maio o seguinte:
Ficar ele em Mossamedes a ultimar a mobilisação das unidades ali estacionadas para providenciar sobre o desembarque das novas locomotivas e dos automóveis e para pôr as primeiras a trabalhar e os segundos em marcha para o Lubango, e ir eu para esta localidade, acompanhado pelo sub-chefe do estado maior e por um dos meus ajudantes, para aí activar tudo o que respeitava ás linhas de étapes, na direcção de Cassinga e do Cunene, e á preparação do avanço para o Humbe de parte das forças estacionadas no planalto, afim de ali se estabelecer a base das operações a efectuar alem Cunene.
Fiz avançar para os Gambos o batalhão de infantaria 17 e a bateria de metralhadoras, que estava na Chibia, e para o Tchiepépe o esquadrão de cavalaria 11, que estava na Humpata: forneci ao batalhão de marinha e á 15ª companhia indigena de Moçambique o que careciam para poderem avançar e constitui o destacamento destinado à reocupação do Humbe e tendo-me o chefe do estado maior telegrafado participando que duas novas locomotivas já trabalhavam e que se estava a ultimar a montagem da terceira, a maior, estando ao mesmo tempo em caminho de Lubango os 70 camions desembarcados no dia 19 de Junho em Mossamedes (os outros 10 já tinham dias antes chegado a Lubango) telegrafei-lhe por minha vez dizendo que marchasse a juntar-se-me nos Oambos, para iniciarmos o avanço para o Humbe. Tendo ele ali chegado a 3 de Julho, imediatamente partimos, em automóvel, para o Tchecusse, onde o destacamento destinado a recuperar o Humbe já estava concentrado. Este destacamento era comandado pelo coronel Veríssimo de Sousa, que tinha como chefe do estado maior, o capitão de artilharia, com o curso do estado maior, José Esteves de Mascarenhas. Um outro destacamento constituído apenas por parte dos esquadrões de cavalaria nº 9 e 11 e pelos auxiliares boers, comandado pelo major Vieira da Rocha, saiu na mesma ocasião dos Gambos igualmente com destino ao Humbe, mas devendo marchar pelo Otchinjau e Dongoêna para bater esta ultima região. Havendo toda a conveniência em estabelecer comunicações directas entre os Gambos e o Mulondo, encarreguei o capitão Roby, meu oficial ás ordens, de realisar o reconhecimento dos caminhos entre essas localidades, tendo esse oficial iniciado a marcha no dia 3 de Julho.



II
Execução das Operações

O destacamento destinado á reocupação do Humbe, conseguiu alcançar o seu objectivo no dia 7 de Julho, ás 14 horas, sem ter encontrado a menor resistência por parte do gentio, mas lutando com grandes dificuldades em agua, pois as cacimbas que se encontravam ao longo do Caculovar estavam quasi completamente secas. Momentos depois do destacamento do comando do coronel Veríssimo chegar ao Humbe, ahi chegou íambem o destacamento comandado pelo major Vieira da Rocha, o qual conseguiu raziar a região que percorreu sem nenhuma entrave.
A residência do Humbe, a fortaleza e as suas casas dos comerciantes, eram encontradas incendiadas, tendo o incêndio tido lugar por ocasião da retirada de Naulila. Acampadas as tropas no Humbe, no terreno com-prehendido entre a fortaleza, principiaram as apresenções de gentio, notando-se porem que este se fazia representar quási exclusivamente por velhos, mulheres e crianças (todos com aspecto esquelético). Os homens válidos tinham passado o Cunene, procurando refugio no Cuamato e no Cuanhama.
No dia 9 fui, com o chefe do estado maior e outros oficiais do meu quartel general, reconhecer o Cunene, junto do forte Roçadas, e verifiquei que este forte também fora incendiado, encontrando-se nele apenas alguns leitos de ferro em estado de se aproveitarem. Demorei-me no Humbe até ao dia 11 e as informações que ali colhi sobre os alemães, e os indígenas eram, quanto aos primeiros, que a sua presença junto á fronteira só se assinalava para os lados do Cuangar, e quanto aos segundos, que se mantinham na espectativa, nada dispostos a apresentarem-se e, pelo contrario, resolvidos a oporem-se á nossa marcha alem Cunene. Sendo necessário activar o mais possível a concentração no Humbe do grosso das forças do meu comando, e tendo eu reconhecido que a simples acção da minha presença muitas dificuldades fazia desaparecer, resolvi voltar ao Lubango para fazer completar os preparativos para a marcha das unidades que ainda se encontravam no planalto, mas, como ao mesmo tempo era necessário completar a organização da base de operações, no Humbe, fazer reconhecimentos no Cunene e consolidar as posições, contra qualquer tentativa de agressão ás tropas já ai estacionadas, por parte dos alemães ou do gentio, ou de ambos os inimigos, julguei conveniente, durante a minha curta ausência, encarregar da orientação directa desses trabalhos o meu chefe de estado maior, que por isso ali deixei, acornnhado de um dos meus ajudantes e de um adjunta do meu Quartel General.
Recebi no Lubango o telegrama participando que os alemães da Damaraland se tinham rendido ao general Botha e com verdade deve dizer-se que foi esta a noticia mais desagradável que em toda a campanha me chegou. Mas como o homem põe e Deus dispõe, necessário era adaptar-me à nova situação, encará-la tal como os factos a apresentavam e tomar imediatamente as medidas correlativas. Ficava só em campo o gentio, tinha-se portanto simplificado a minha tarefa, mas nem por isso ela tinha ficado, como à primeira vista poderá parecer, uma tarefa fácil.
O gentio revoltado era aguerrido e muito numeroso (Cuanhama, Cuamato, Evale, alguns Cuanbis, e foragidos do Humbe e Dongoêna), segundo dados colhidos em autoridades, como Eduardo Costa e João de Almeida, e as informações por mim obtidas, o seu efectivo total deveria orçar por uns oitenta a cem mil combatentes e era necessário ter em conta que tinham o moral muito levantado pela retirada das nossas forças após os acontecimentos de Naulila, e tinham sido em grande parte instruídos pelos alemães, dando-se ainda a circunstancia de à frente da coligação se encontrarem os Cuanhamas, que nunca tinham sofrido o nosso dominio e cujo estado de civilisação já era, segundo todas as fontes de informação, muito apreciável.
A missão que tinha neste momento a efectuar era portanto a ocupação do Cuanhama e a reocupação de todo o outro território de alem Cunene que tinha sido abandonado, e que representava uma área enorme a submeter simultânea e rapidamente, por isso que havia necessidade de ter as operações terminadas no inicio das chuvas (fins de Setembro) afim de não correr o risco de ficar com as estradas intransitáveis, e havia igualmente necessidade de encurtar o mais possível a permanência alem Cunene de grandes efectivos que a importância da coligação gentílica e a necessidade de simultaneidade de acção exigia, porque a deficiência dos meios rápidos de transporte não permitia alimentar esses efectivos a tão grande distancia do litoral (600 kilometros) senão o tempo indispensável para quebrar a resistência ao adversário, ficando depois das regiões batidas só as tropas indispensáveis para a sua occupação.
Como. a rendição dos alemães tornava desnecessária uma forte observação no Vale do Cubango, ficava-me disponível o destacamento de Cassinga; do comando do major Reis e Silva, e por isso concebi o seguinte projecto de operações que depois executei. Esse destacamento retrocederia para o Capelongo: desceria o Cunene até ao Mulondo e aí aguardaria ordem para oportunamente seguir até ao Caiu e ir reocupar o Évale; e com as restantes forças a concentrar no Humbe, eu constituiria mais três destacamentos: um bastante forte, para ocupar o Cuanhama; outro um pouco mais fraco, para reocupar o Cuamato, e outro ainda mais fraco para reocupar o Dongoêna, Naulila e vigiar as passagens do Cunene, dali até ás cataratas de Ruacana. Poderá parecer uma incoerência que, tendo eu no meu primeiro projecto de operações, apresentado em Lisboa a Sua Exª o Ministro das Colónias, em vista proceder com as forças do meu comando o mais concentradas possível, agora as divida por quatro destacamentos, porem tal incoerência não existe, porque na guerra é preciso adaptar sempre a nossa conduta ás circunstancias e estas muito tinham variado.
Esse primeiro projecto de operações era para opor a alemães e portanto, visava a que, por forma alguma nos viéssemos a chocar com eles sem termos uma garantida superioridade numérica: ao passo que o que eu ia de facto executar era contra indígenas, cujo valor guerreiro, apesar de considerável, se não deixa comparar com os alemães, e contra indígenas que pelos motivos atraz apontados, tinham de ser rapidamente batidos, e essa rapidez só com simultaneidade de acção se podia obter, simultaneidade que tinha ainda como consequência muito valiosa o evitar a acção em massa do indígena, pois cada qual trataria, sem duvida de defender o seu território logo que o visse atacado. Alem disso apesar da ausência da telegrafia sem fios, por mim tão insistentemente pedida e que preciosos serviços prestaria na ligação dos destacamentos, estes, dada a distancia a que operariam uns dos outros, poderiam dar-se a mão, em caso de necessidade.
Mas a amentar as dificuldades da minha tarefa ainda havia a circunstancia muito ambaraçosa de eu, tendo carros alentejanos e muares bastantes para dotar as unidades com os transportes indispensáveis para uma marcha em boas condições, ter de reduzir o mais possível o numero de carros e ter, de em vez das duas parelhas por carro que a natureza arenosa do terreno exigia, destinar-lhe apenas uma parelha, visto a impossibilidade de transportar agua e forragens para tanto gado, pois a região a atravessar não tinha água nem capim e os camions mal chegarem para o transporte de viveres e água para o pessoal. São evidentes as dificuldades que resultariam de aumento de pessoal e gado.
(...)
A Campanha do Sul de Angola, Página 103

Pereira de Eça, Campanha do Sul de Angola em 1915. Lisboa, Imprensa Nacional, 1921 (109 páginas). O fragmento aqui reproduzido é das páginas 74-83.

Nota:
«O pai de António Aniceto Monteiro chamava-se António Ribeiro Monteiro e era alferes de infantaria quando, em 4 de Julho de 1905, foi requisitado para desempenhar uma comisão de serviço dependente do Ministério da Marinha e Ultramar na construção do caminho de ferro de Mossâmedes. Dois dias depois, na Paróquia dos Anjos, casou com Maria Joana Lino Figueiredo da Silva, “tendo sido dispensados dos proclamas por provisão de Exmo. Prelado” [AAM-CM] datada da véspera. No dia seguinte ao casamento, António Ribeiro Monteiro embarcou para Angola. Dez anos depois, dia por dia, a 7 de Julho de 1915, na sua casa de Mossâmedes, na rua dos Pescadores, morreu de doença, contraída durante operações militares resultantes da guerra no sul de Angola. Era então tenente de infantaria e deixou Maria Joana viúva e órfãos os dois filhos, Maria Petronila e António Aniceto, de nove e oito anos, respectivamente.»