segunda-feira, 7 de maio de 2012
Lídia Monteiro: Mossâmedes (Angola), 31 de Outubro de 1910 - Bahía Blanca (Argentina), 7 de Maio de 2012
Faleceu, esta manhã, a viúva do Professor António Aniceto Monteiro, Lídia Monteiro, em Bahía Blanca, Argentina.
quinta-feira, 19 de abril de 2012
segunda-feira, 16 de janeiro de 2012
Prefácio à Portugaliae Mathematica
A primeira revista portuguesa consagrada exclusivamente às Ciências Matemáticas foi o Jornal de Sciencias Mathematicas e Astronomicas, fundado, em 1877, pelo ilustre matemático Francisco Gomes Teixeira, de que foram publicados 14 volumes e que foi continuado em 1905 pelos Annaes Scientificos da Academia Polytecnica do Porto, publicados ainda sob a direcção do mesmo geómetra. Nos princípios deste século deixa, portanto, de existir em Portugal uma revista de carácter puramente matemático, precisamente na altura em que as ciências matemáticas iam entrar numa fase de grande desenvolvimento que nos vinte anos seguintes (de 1920 a 1940) toma o aspecto de uma corrente vertiginosa. É certo que durante este período se fundaram em Portugal várias revistas em que se publicaram trabalhos de matemática, mas a dispersão dos trabalhos portugueses de matemática por periódicos não especializados, nacionais ou estrangeiros, tem graves inconvenientes. O desenvolvimento da Ciência tem mostrado a necessidade imperiosa de se proceder a uma organização racional das publicações científicas. Na maior parte dos países não tem havido o cuidado de se proceder a uma tal organização com graves prejuízos para a Ciência, de uma maneira geral, e para a cultura dos diversos países, em particular. Julgamos por isso que o aparecimento da revista Portugaliae Mathematica, consagrada exclusivamente às ciências matemáticas, contribuirá para o desenvolvimento dos estudos matemáticos em Portugal.
A Portugaliae Mathematica procurando arquivar nas suas páginas todos os trabalhos portugueses inéditos ou publicados nas revistas nacionais e estrangeiras contribuirá para dar uma idéia justa do movimento matemático em Portugal. A Portugaliae Mathematica procurará também contribuir para a cooperação internacional no campo das ciências matemáticas publicando trabalhos de matemáticos de outros países.
Ao Instituto para a Alta Cultura se deve a possibilidade de realização deste empreendimento, pelo auxílio financeiro e apoio moral concedidos desde o ano de 1936 em que se começou a impressão do primeiro fascículo desta revista.
O primeiro volume da Portugaliae Mathematica apareceu no período de 1937-1940. A partir do ano de 1941 será publicado um volume por ano com cerca de 300 páginas.
No período de organização da revista (1936-1940) houve que vencer inúmeras dificuldades. Quase desde a primeira hora encontrámos na cooperação dedicada de José da Silva Paulo um estímulo para a realização das primeiras tarefas. Mais tarde vêm em nosso auxílio Manuel Zaluar Nunes e Hugo Ribeiro, num momento em que as dificuldades e as tarefas se acumulavam. Uma distribuição racional do trabalho de organização deu nesse momento um impulso decisivo à revista. No momento em que termina a publicação do primeiro volume desta revista é justo recordar que esta tarefa se deve à dedicação destes três colaboradores que, em centenas de horas de trabalho souberam montar e realizar os complexos serviços necessários a um empreendimento desta natureza.
Ao Pessoal técnico da «Imprensa Portuguesa» e em especial ao da «Sociedade Industrial de Tipografia Limitada» há que agradecer os esforços realizados no sentido de melhorar o aspecto gráfico desta revista.
Possa o Instituto para a Alta Cultura considerar como manifestação do nosso reconhecimento, os esforços que têm sido e continuarão a ser feitos no sentido de transformar esta revista num verdadeiro órgão da cultura matemática portuguesa.
domingo, 15 de janeiro de 2012
Os objectivos da Junta de Investigação Matemática
por António Aniceto Monteiro
[Porto, 1944. Esta foi uma das Palestras da JIM lidas ao microfone da Rádio Club Lusitânia, corajosamente cedido pelo proprietário. Foram oradores: Ruy Luís Gomes, António Monteiro, Corino de Andrade, Branquinho de Oliveira, Fernando Pinto Loureiro, José Antunes Serra, António Júdice, Armando de Castro, Carlos Teixeira e Flávio Martins.]
O aparecimento da ciência moderna foi determinado pela revolução industrial do século XVIII e por isso o pensamento científico teve a sua origem na vida da Indústria e não na vida das Universidades.
As Universidades eram, nessa época, centros de cultura humanista impenetráveis ao Renascimento Científico. A educação e a Investigação científica eram realizadas em organismos especialmente criados para esse fim. As instituições cuja actividade mais ilustraram a história da ciência francesa, por exemplo, do século XVI até aos fins do século XIX foram: o Colégio do Rei (fundado em 1530) que mais tarde seria o Colégio de França, o Jardim do Rei, a Escola de Pontes e Calçadas, a Escola de Minas, o Observatório de Paris, a Escola de Artilharia, a Academia das Ciências, a Academia de Arquitectura, a Academia de Cirurgia, a Escola Politécnica, a Escola Normal Superior, etc., etc.
Só depois da revolução industrial ter posto em evidência a importância da ciência é que ela penetrou nas Universidades, com uma lentidão que arrepia quando considerada a distância. Para ilustrar esta afirmação, basta notar que nos princípios do século XIX (mais precisamente em 1802) se exigiam para a entrada na Universidade de Harvard, na América do Norte, conhecimentos de Aritmética que não iam além da regra de três simples, e que na Alemanha o ensino das matemáticas elementares só passou das Universidades para os liceus entre 1810 e 1830. Mesmo em França, é preciso chegar aos fins do século XIX para que, com a Terceira República, as Universidades possam rivalizar com as chamadas Grandes Escolas.
No século XX a investigação científica aparece como um factor que desempenha um papel de primeiro plano na estruturação da vida das nações.
Nos países em que as Universidades não estiverem directamente ligadas e interessadas na resolução dos problemas fundamentais da vida económica da Nação, elas não podem desempenhar o papel de centros propulsores do progresso científico. Por isso as Universidades dos países mais avançados modificaram profundamente a sua feição, durante o século XX, com a criação de Seminários, Institutos, Centros de Estudo e Laboratórios destinados a transformá-las em grandes centros de investigação.
O facto da actividade científica ter crescido vertiginosamente nas últimas décadas, deu origem a numerosos problemas de organização difíceis de resolver. Um dos problemas mais discutidos e dos mais importantes é o das relações entre o ensino e a investigação. É um facto indiscutível que as Universidades não podem, só por si, atacar a resolução de todos os problemas que a vida põe, à Ciência, em cada época. Por isso, entre as duas grandes guerras deste século, se acentuou a tendência para organizar a investigação científica como um serviço público independente. A criação recente em Portugal, da Estação Agronómica Nacional, é um exemplo particular desta afirmação. Trata-se na realidade da transposição duma prática corrente na vida das grandes empresas industriais, em que um pessoal cientifico especialízado realiza, em laboratórios e institutos especiais, as pesquisas necessárias à vida dessas empresas. Mas se pensamos que a investigação científica deve ser organizada como um serviço público independente, e que só assim ela pode ser eficiente, no mundo de amanhã, isto não quer dizer que ela deva ser um privilégio desses serviços.
Ser investigador é um dever de todo o cidadão consciente das suas responsabilidades perante a sociedade, porque ser investigador é adoptar uma atitude crítica, perante a vida e o conhecimento, para chegar a novas conclusões.
Mas é claro que para investigar, em certos capítulos da ciência, é necessária uma preparação especial, um longo treino, uma escola. As Universidades têm, sob este aspecto, um papel importante a desempenhar, mas para isso é necessário que o ensino não vise exclusivamente a transmissão de conhecimentos, isto é, que ele não seja um ensino erudito e portanto estéril e infecundo.
Existem, na realidade, investigadores sem qualidades para o ensino; mas nenhum professor poderá iluminar as suas lições com cores vivas e profundas se não tiver vivido os problemas que trata, se não tiver investigado na disciplina que professa.
Torna-se necessário coordenar a actividade das Universidades e dos Institutos de Investigação com o objectivo de aumentar o rendimento da produção científica e facilitar a formação de quadros de investigadores.
Para realizar o apetrechamento intelectual do nosso país, em condições que permitem orientar com eficiência as actividades económicas para a libertação material do homem, é necessário organizar um plano adequado em que a clareza de visão se alie à viabilidade de execução.
Vamos indicar, em breves palavras, a importância da cultura matemática no apetrechamento intelectual do país.
A matemática – ou a ciência do cálculo – é um método geral de pensamento aplicável a todas as disciplinas e desempenha portanto um papel dominante na ciência moderna.
A grande obra científica do século XVII foi a organização da Mecânica numa ciência em que é possível prever os fenómenos por meio do cálculo matemático. Esta conquista, a que está ligado o grandioso nome de Newton, criou uma base científica segura para a ciência das máquinas a vapor; para citar um exemplo cuja importância é desnecessário realçar. A Química transformou-se, no século XVIII, numa ciência em que o cálculo é possível e esta grande conquista da ciência desse século, foi a base fundamental para o desenvolvimento da Indústria Química. No século XIX a Física Matemática criou as bases científicas necessárias para o desenvolvimento da grande indústria. O século XX será possivelmente o século da Biologia Matemática. Podemos, em qualquer caso, afirmar que assistimos a uma verdadeira matematização de todos os ramos da ciência.
A Matemática aparece assim como uma disciplina fundamental de cujo progresso depende, em grande parte, o desenvolvimento de muitas outras. Prestar a devida atenção a esta circunstancia não é um acto de justiça é antes um acto de prudência e elementar bom senso.
É difícil descrever, exactamente, o estado em que se encontra a cultura matemática portuguesa, mas o mais importante é, como se compreende facilmente, comparar o ritmo do seu desenvolvimento com o dos países mais avançados. Encarada a questão sob este aspecto crucial, podemos afirmar que o movimento matemático português se caracteriza por um atrazo crescente em relação ao movimento matemático internacional.
No interesse da cultura, que é o interesse do país, é preciso olhar de frente para esta situação e tirar as consequências necessárias. Para desenvolver e actualizar a cultura matemática portuguesa, em condições que garantam a continuidade e eficiência da obra a realizar, é necessário subordinar essa tarefa a um plano de conjunto traçado com largas perspectivas.
Os matemáticos portugueses conscientes das suas responsabilidades perante o país e perante a cultura, resolveram unir-se para a realização das missões que o dever lhes impõe.
Em 4 de Outubro de 1943, um grupo – de investigadores portugueses fundou a Junta de Investigação Matemática e definiu os seus principais objectivos nos seguintes termos:
1.º – Promover o desenvolvimento da investigação matemática;
2.º – Realizar os trabalhos de investigação necessários à economia da Nação e ao desenvolvimento das outras ciências;
3.° – Sistematizar e coordenar a inquirição dos matemáticos portugueses;
4,° – Vincular o movimento matemático português com o dos outros países e, em especial, com o dos países ibero-americanos;
5.° – Despertar na juventude estudiosa portuguesa o entusiasmo pela investigação matemática e a fé na sua capacidade criadora.
Os mesmos investigadores convidaram todas as pessoas interessadas a ingressarem neste agrupamento.
Estão hoje reunidos nesta Junta de Investigação Matemática a quase totalidade dos investigadores portugueses que têm dado provas de capacidade, grande dedicação e interesse efectivo pela desenvolvimento da cultura matemática portuguesa. Trata-se portanto duma organização que representa as forças vitais dessa cultura; o que revela a existência duma consciência profunda dos problemas da hora presente.
As ciências matemáticas tem um grande papel a desempenhar na construção dum Portugal feliz e progressivo, A Indústria, a Agricultura, a Metereologia, a Aviação, a Navegação, a Estatística, os Seguros, a Engenharia, as Finanças, são baseadas no cálculo matemático.
Criar as bases fundamentais para o aperfeiçoamento e actualização da nossa cultura matemática é uma tarefa gigantesca que só pode ser realizada por vontades disciplinadas que saibam subordinar o interesse individual ao interesse colectivo.
Quando os matemáticos portugueses, sem serem solicitados, sem serem forçados, mas animados do grande desejo de servir a Nação, fundaram a Junta de Investigação Matemática, disseram ao país; para cumprir os nossos deveres, estamos presentes.
segunda-feira, 31 de outubro de 2011
Lídia Monteiro: Mossâmedes, 31 de Outubro de 1910
Casamento com Lídia (António Monteiro e Lídia, noivos, no Campo Grande, Lisboa, 1928)
No Porto, com a família (1944)
50 anos (Bodas de Ouro, 1979)
segunda-feira, 10 de outubro de 2011
PRÉMIO ANICETO MONTEIRO 2010-2011, atribuído pelo Colégio Militar
Reprodução por meios fotográficos de Elza Amaral
© Família de António Aniceto Monteiro
-
PRÉMIO ANICETO MONTEIRO 2010-2011:
8º ANO
- Aluno nº 198, JOSÉ PEDRO RIBEIRO GOMES
9º ANO
- Aluno nº 135, ARTUR MIGUEL FREIRE NASCIMENTO
- Aluno nº 196, NUNO MIGUEL LOPES RAPOSO
12º ANO
- Aluno nº 306, ALYKHAN NAVAZ MADATALI SULTANALI
-
Ver:
PRÉMIO ANICETO MONTEIRO 2009-2010, atribuído pelo Colégio Militar
- Aluno nº 198, JOSÉ PEDRO RIBEIRO GOMES
9º ANO
- Aluno nº 135, ARTUR MIGUEL FREIRE NASCIMENTO
- Aluno nº 196, NUNO MIGUEL LOPES RAPOSO
12º ANO
- Aluno nº 306, ALYKHAN NAVAZ MADATALI SULTANALI
-
Ver:
PRÉMIO ANICETO MONTEIRO 2009-2010, atribuído pelo Colégio Militar
sábado, 30 de julho de 2011
quinta-feira, 26 de maio de 2011
Carta a Guido Beck (de 27 de Janeiro de 1944): “Fiz preparativos para sair do meu país para sempre”
Porto, 27 de Janeiro de 1944
Meu caro amigo:
Devo antes de mais agradecer-lhe pela actividade extraordinária que você realizou para me encontrar um lugar no Brasil. Nunca na minha vida me esquecerei de tudo o que fez por mim. Tenho uma história para lhe contar.
É necessário que esteja informado de uma forma precisa sobre os acontecimentos que se desenrolaram depois do mês de Agosto. Não tenho neste momento todos os documentos dos quais lhe queria enviar uma cópia. Encontro-me actualmente no Porto; vou pedi-los para Lisboa e enviá-los-ei numa próxima carta.
No início do mês de Outubro recebo uma carta da Embaixada do Brasil em Lisboa onde anunciavam que a Faculdade de Filosofia do Rio tinha encarregado a Embaixada de me transmitir um convite para a cadeira de Análise Superior. Fui à Embaixada onde me aconselharam a pedir elementos mais precisos sobre as condições do contrato, sobre as viagens etc. O secretário Ribeiro Couto redigiu um telegrama (diante de mim) onde ele colocava todas estas questões. No mesmo telegrama dizia que eu queria chegar ao Rio antes do fim do ano escolar para poder conhecer de uma forma conveniente a organização dos cursos e preparar e organizar a minha actividade para o ano seguinte.
Uma ou duas semanas depois recebi um ofício do Director da Faculdade Nacional de Filosofia onde estavam indicadas as condições do contrato. Pediam-me informações sobre o número de pessoas que tinha a minha família e qual era o meio de transporte que eu preferia para fazer a minha viagem. Respondi logo de seguida numa carta que remeti à Embaixada para que eles a fizessem seguir na mala diplomática (30 de Agosto). A Embaixada prometeu-me telegrafar o conteúdo dessa carta, no mesmo dia. Aceitei as condições que me propunham e escolhi o barco como meio de transporte. No dia 11 de Setembro fui mobilizado como cadete de artilharia. Avisei a Embaixada. Ribeiro Couto aconselhou-me a escrever ao Embaixador. Fi-lo. A Embaixada procurou obter uma autorização para a minha partida por intermédio do ministro dos Negócios Estrangeiros. O médico do meu regimento enviou-me ao Hospital Militar Central onde fui submetido a um exame médico. Como eu tinha uma úlcera no duodeno fui considerado como incapaz para o serviço militar no dia 2 ou 4 de Outubro. Cerca do fim de Outubro quando estava no Hospital recebi um telegrama da Embaixada assinado pelo primeiro secretário, Ribeiro Couto. Dizia que: a Faculdade de Filosofia do Rio considera a sua colaboração como indispensável, e deu a ordem para reservar as suas passagens no primeiro barco.
Logo que saí do Hospital a Embaixada deu-me a ordem para preparar a minha partida para o fim do mês de Outubro, o mais tardar para os primeiros dias de Novembro.
Fiz tudo o que foi possível para arranjar tudo nos prazos fixados. Vendi tudo o que tinha na minha casa. As autorizações militares, ou seja a regularização da minha situação militar obtive-a em 15 dias (em geral isso leva um mês e meio e por vezes três meses). Tive o meu passaporte no dia 22 de Outubro. Nesse dia, apresentei-me na Embaixada e informei-os de que estava pronto para partir com a minha família. Como deveria abandonar brevemente a minha casa e não havia um barco nesse altura, perguntei se podia viajar de avião. A viagem de avião seria mais barata, disseram-me que não havia nenhuma dificuldade. A única dificuldade que existia era que o dinheiro para as viagens ainda não tinha chegado. Eu ia à Embaixada de 3 em 3 dias. Diziam-me sempre volte dentro de 3 dias. Num certo momento disseram-me para pedir o meu visto ao Consulado do Brasil. O Consulado não sabia de nada. Foi preciso esperar vários dias para que a Embaixada se decidisse a informar o Consulado. O Cônsul concedeu-me todas as facilidades para obter o meu visto. Quando toda a documentação necessária estava pronta aconselharam-me a não pedir o visto imediatamente, era melhor esperar que chegasse o dinheiro para as viagens. Tinha-me inscrito como passageiro para um Clipper. Esperava de um momento para o outro a ordem de partir. Estava nessa altura, muito enervado. As minhas bagagens estavam prontas: umas para seguir de barco as outras de avião.
Muito dificilmente consegui viver na minha casa onde não havia quase nada. Despedi-me de todos e a ordem de partida não chegava. Por meados de Novembro os Secretários da Embaixada já estavam enervados. Resmungavam contra a burocracia do Rio. Disseram-me que tinham enviado um telegrama onde contavam a situação impossível em que me encontrava. Que não tinha trabalho, que não tinha casa etc. O meu aluguer terminava no fim de Novembro. Tive de ir para uma pensão com a minha família. Tinha feito despesas enormes com os preparativos de viagem, passaportes, malas etc. no fim de Novembro já tinha gasto quase todo o dinheiro que obtive com a venda da minha casa. A situação começava a tornar-se impossível. Por outro lado, não tinha conseguido obter as informações necessárias para começar a preparar o meu curso. Então escrevi de novo uma carta ao Director da Faculdade do Rio pedindo-lhe para me enviar informações sobre os programas, e contei-lhe a situação em que me encontrava (primeiros dias de Novembro). Então Ruy convidou-me a vir para Porto para esperar aqui pela minha partida e trabalhar no Centro de Estudos do Porto.
Estou aqui desde 5 de Dezembro. Antes de partir pedi autorização para sair de Lisboa na Embaixada do Brasil. Fi-lo para lhes lembrar que estava às ordens da Embaixada desde o dia 22 de Outubro. Até ao fim do mês de Dezembro não tive notícias da Embaixada.
A 29 de Dezembro de 1943, escrevi a seguinte carta ao Dr. Frank Moscoso, Secretário da Embaixada do Brasil:
«Senhor Doutor: Venho pedir-lhe o grande favor de me informar se já chegaram novas notícias sobre a minha viagem. A minha situação é cada vez mais grave sob o ponto de vista material e ando muito preocupado com a redução do tempo que tinha à minha disposição para organizar o trabalho escolar para o próximo ano lectivo. Por isso espero com verdadeira ansiedade a resposta às informações que pedi ao Excelentíssimo Director da Faculdade de Filosofia sobre o programa da cadeira de Análise Superior. Creia que ando verdadeiramente amargurado com todos os incómodos que as circunstâncias da minha vida actual me têm levado a causar-lhe. Com os protestos do meu maior respeito e admiração: António Monteiro».
Até hoje ainda não recebi resposta. Desculpe tinha-me esquecido que estou a escrever em francês. Até agora não tive resposta a essa carta.
A 4 de Janeiro de 1944, Ruy comunicou-me o seu telegrama que tinha recebido alguns dias antes. Nesse dia comecei a ficar inquieto. Fiquei muito surpreendido de saber que havia dificuldades para obter o meu visto de saída. Não sabia nada a esse respeito. Na Embaixada nunca me falaram disso.
Telegrafei a 4 de Janeiro ao Professor Wattaghin:
«Situação insustentável – Stop – Desde Outubro aguardo chegue Embaixada Brasil dinheiro viagens favor intervir urgência Rio telegrafar Faculdade Ciências Porto agradecimentos António Monteiro».
Até hoje ainda não recebi resposta a este telegrama.
O Ruy pediu ao seu irmão para fazer uma diligência pessoal junto do Embaixador do Brasil. Falaram de novo das dificuldades administrativas para enviar o dinheiro para pagar as viagens etc. Que havia dificuldades administrativas no Ministério da Educação Nacional. O Ministro prometeu interessar-se pelo meu caso e fazer as diligências necessárias, mas não falou da existência de outras dificuldades para a minha partida. Enviei para a Embaixada do Brasil o telegrama seguinte: (5 de Janeiro de 1944).
«Dada gravidade minha situação sob o ponto de vista material e profissional peço Vossa Excelência Senhor Embaixador grande favor me informar sobre estado actual das dificuldades administrativas existentes Rio para pagamento minhas viagens e de esclarecer Director Faculdade Filosofia gravidade minha situação. Respeitosos cumprimentos: A. Monteiro».
Até hoje ainda não tive resposta a este telegrama.
Em resumo é tudo o que lhe posso dizer sobre a minha situação. Ela não é brilhante. Tinha feito os preparativos para viver a 40 graus à sombra e estou no Porto. Eu e a minha família não temos vestuário de inverno; vendemo-lo ou dêmo-lo. Os meus filhos abandonaram a escola no momento em que eu contava partir de um dia para o outro. A minha mulher deixou o seu emprego. Eu estou desempregado. Se não fosse a ajuda de Ruy Gomes não saberia como sair desta situação. As minhas malas estão na Agência Cook e pago 75$00 por mês.
Após a diligência do irmão de Ruy nós enviámos-lhe um telegrama a 16 de Janeiro. Acho que você o recebeu. Descreve a minha situação actual de uma forma quase precisa.
Acabámos de receber a sua carta de 3 de Janeiro. Fiquei muito espantado, 24 dias! Contávamos 6 meses para que uma carta chegue à Argentina neste momento. Essa é a razão principal pela qual ainda não lhe tinha escrito. Sempre pensei que chegava ao Brasil antes de qualquer carta.
Então decidi escrever-lhe. Se eu chegar ao Brasil antes desta carta melhor. Faço actualmente diligências para saber efectivamente se encontrarei ou não dificuldades para ter a minha licença de saída. Assim que eu tiver uma morada certa telegrafo-lhe novamente. Fiquei muito sensibilizado com a sua carta. Realmente você foi um bom camarada e um amigo dedicado. Estou-lhe muito reconhecido. É absolutamente necessário que eu consiga sair deste país, onde já não posso viver. Fiz preparativos para sair do meu país para sempre.
Na próxima semana vou escrever-lhe de novo para lhe enviar uma cópia dos documentos que não tenho no Porto.
Agora estou preparado para poder partir, a tempo de chegar antes do início do ano escolar.
Escreva-me assim que receber esta carta. Envie-me notícias da sua vida. Os seus trabalhos e os seus alunos? Está contente com a sua situação escolar?
Proca encontra-se no Porto. O Instituto para a Alta Cultura deixou-o cair ao fim de 3 meses. Ele já não tem nenhuma ajuda aqui. Assim que esteja no Rio vou ocupar-me em encontrar-lhe um lugar.
Desculpe esta carta em estilo telegráfico e tão longa. Espero que ela o encontre de boa saúde e com a sua disposição habitual. O Porto continua a ser uma cidade de romances policiais. A vida aqui é muito aborrecida.
Um grande abraço do camarada e amigo muito grato
(António Monteiro)
António Monteiro
Faculdade de Ciências
Porto
Copiada de:
(Um livro comovente! Nele se reconhece o papel fundamental que teve Guido Beck na ida de António Aniceto Monteiro para a América do Sul)
sábado, 21 de maio de 2011
Notícias sobre o falecimento de Manuel Augusto Zaluar Nunes em 31 de Outubro de 1967
© Família de Pilar e Hugo Ribeiro
Agradecimentos: Mário Ribeiro, Ilda Perez
Digitalização de Jorge Rezende
Neste blogue: Zaluar
quarta-feira, 11 de maio de 2011
Passeios no Tejo: identificação das fotografias
Recebi do Eng. António Mota Redol a identificação de alguns participantes dos «passeios no Tejo», feita a meu pedido, o que muito lhe agradeço. O Eng. António Abreu já me tinha participado a confusão (erro meu) entre Fernando Lopes Graça e Rui Grácio, o que também lhe agradeço. Todas estas fotografias são provenientes dos arquivos de Pilar e Hugo Ribeiro.
Em seguida, transcrevo as partes significativas da identificação feita pelo Eng. António Mota Redol.
...
Talvez se consiga distinguir as fotografias dos passeios de 41 e de 42.
...
O de 40 parece não ter fotografias.
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Talvez se consiga distinguir as fotografias dos passeios de 41 e de 42.
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O de 40 parece não ter fotografias.
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Este passeio com 2 barcos terá sido em 1942.
Na parte de trás do barco que está em primeiro plano, sentados, estão Manuel da Fonseca (de chapéu), Sidónio Muralha e Maria Lucília Estanco Louro. Em pé está um dos tripulantes.
Na parte de trás do barco que está em primeiro plano, sentados, estão Manuel da Fonseca (de chapéu), Sidónio Muralha e Maria Lucília Estanco Louro. Em pé está um dos tripulantes.
Ao lado da Maria Lucília está o Carlos Alberto Lança e a seguir pode ser o Francisco Pulido Valente.
O de óculos, em primeiro plano, não identifico (mas pode ser o Ferreira Marques). Bem como os outros, todos de costas.
Na quilha deste barco, de chapéu, parece ser Caraça. O que está com a cara tapada com a mão, deve ser o economista, fundador do PS, Francisco Ramos da Costa.
Na quilha deste barco, de chapéu, parece ser Caraça. O que está com a cara tapada com a mão, deve ser o economista, fundador do PS, Francisco Ramos da Costa.
No outro barco, em pé, junto ao mastro, é Arquimedes da Silva Santos. Os outros, embora de frente, não identifico.
Alves Redol, Fernando Lopes Graça e outros num passeio no Tejo
Vêm-se, também, Sidónio Muralha, Manuel Campos Lima (director de "O Diabo"), Maria Lucília.
O de "pullover" junto a Redol deve ser Alfredo Pereira Gomes, irmão de Soeiro. Por detrás de Redol, em pé, de camisa branca, a minha mãe, Virgínia Redol.
Vêm-se, também, Sidónio Muralha, Manuel Campos Lima (director de "O Diabo"), Maria Lucília.
O de "pullover" junto a Redol deve ser Alfredo Pereira Gomes, irmão de Soeiro. Por detrás de Redol, em pé, de camisa branca, a minha mãe, Virgínia Redol.
Junto a Lopes Graça será Maria Helena Correia Guedes e, atrás, talvez Francisco Pulido Valente.
O de óculos escuros, segundo Piteira Santos, será um operário da Imprensa Nacional.
O de óculos escuros, segundo Piteira Santos, será um operário da Imprensa Nacional.
Não consigo identificar. O "Liberdade" tinha uma bandeira com esta palavra, a qual se vê em uma das fotografias dos passeios.
Tinha mesmo este nome, por vontade do dono.
Estes barcos são dos avieiros, que pescavam (e ainda pescam) no Tejo. Nas fotos vêm-se as redes.
A mulher acompanha sempre o homem (dia e noite) e trabalha tanto como ele, além de fazer a comida. Ela rema, enquanto o homem lança e recolhe a rede.
Soeiro Pereira Gomes num passeio no Tejo em 1941 ou 1942
Nestes passeios Soeiro lia poesia e contava histórias divertidas. Alves Redol falava de assuntos políticos.
Nestes passeios Soeiro lia poesia e contava histórias divertidas. Alves Redol falava de assuntos políticos.
Hugo Ribeiro e Fernando Piteira Santos, em primeiro plano, num passeio no Tejo em 1941 ou 1942
De boné, Jerónimo Tarrinca, o dono do barco "Liberdade". Dobrado, está António Vitorino, que tinha uma taberna no cais de Vila Franca e fazia o almoço. É a ele e a Jerónimo Tarrinca que Alves Redol dedica o romance "Avieiros". Muitos investigadores escrevem que era Manuel da Barraquinha quem fazia a comida, mas trata-se de confusão. E alguns até dizem que era ele quem organizava os passeios.
De boné, Jerónimo Tarrinca, o dono do barco "Liberdade". Dobrado, está António Vitorino, que tinha uma taberna no cais de Vila Franca e fazia o almoço. É a ele e a Jerónimo Tarrinca que Alves Redol dedica o romance "Avieiros". Muitos investigadores escrevem que era Manuel da Barraquinha quem fazia a comida, mas trata-se de confusão. E alguns até dizem que era ele quem organizava os passeios.
Já esclareci isso numa mensagem anterior.
Quanto aos fotógrafos: nas diferentes fotografias vêm-se duas pessoas com máquina, Inácio Fiadeiro e Antero Serrão de Moura.
A outra que ri é Maria Olívia.
Passeio no Tejo: vêm-se Pilar Ribeiro, Lídia Monteiro, Soeiro Pereira Gomes (em baixo à direita), Virgínia Redol e Fernando Lopes Graça (à direita)
O Fernando Lopes Graça não é, de certeza. O de óculos será o Rui Grácio.
O deitado, de branco, é o Francisco Ramos da Costa. Ao lado da Lídia é a Stella Fiadeiro, mais tarde Stella Pirteira Santos. Por detrás, junto ao mastro deve ser o Inácio Fiadeiro.
O Fernando Lopes Graça não é, de certeza. O de óculos será o Rui Grácio.
O deitado, de branco, é o Francisco Ramos da Costa. Ao lado da Lídia é a Stella Fiadeiro, mais tarde Stella Pirteira Santos. Por detrás, junto ao mastro deve ser o Inácio Fiadeiro.
Passeio no Tejo
Primeira fotografia
Lá atrás está o Arquimedes da Silva Santos.
Junto da Pilar e da Lídia confirmo o Inácio Fiadeiro, que na foto anterior tem a cara um pouco escondida, e a Stella.
Primeira fotografia
Lá atrás está o Arquimedes da Silva Santos.
Junto da Pilar e da Lídia confirmo o Inácio Fiadeiro, que na foto anterior tem a cara um pouco escondida, e a Stella.
Eles estão todos encolhidos e encostados uns aos outros porque num dos passeios, na versão de um participante, estava muito frio. Deve ser este.
Ou como saíam muito de manhã, estava frio em todos os passeios.
António Aniceto Monteiro na Costa de Caparica
Não é o Aniceto Monteiro. É o Álvaro Cunhal, que só foi no passeio de 41, porque em 40 estaria preso e em final de 41 passou à clandestinidade.
O outro é o António Vitorino.
A fotografia não é na Costa de Caparica (onde parte deles estiveram num destes Verões; talvez no de 41; aliás, o pai de Álvaro Cunhal, o advogado dr. Avelino Cunhal, tinha uma casa de Verão na Costa, onde pintou vários quadros com pescadores). É no Passeio do Tejo de 41.
Não é o Aniceto Monteiro. É o Álvaro Cunhal, que só foi no passeio de 41, porque em 40 estaria preso e em final de 41 passou à clandestinidade.
O outro é o António Vitorino.
A fotografia não é na Costa de Caparica (onde parte deles estiveram num destes Verões; talvez no de 41; aliás, o pai de Álvaro Cunhal, o advogado dr. Avelino Cunhal, tinha uma casa de Verão na Costa, onde pintou vários quadros com pescadores). É no Passeio do Tejo de 41.
En las márgenes del Napostá...
Esta fotografia deve ser num local chamado de "Obras", junto ao Tejo, perto de Azambuja, de que todos os participantes e pessoas de Vila Franca que sabiam dos passeios falam. Os "passeantes" falavam de vários assuntos, políticos e culturais, e aqui almoçavam e descansavam.
Na foto vêm-se, além de vários já identificados, António Dias Lourenço (um dos organizadores destes passeios), o poeta Francisco José Tenreiro, de S. Tomé e Príncipe.
Esta fotografia deve ser num local chamado de "Obras", junto ao Tejo, perto de Azambuja, de que todos os participantes e pessoas de Vila Franca que sabiam dos passeios falam. Os "passeantes" falavam de vários assuntos, políticos e culturais, e aqui almoçavam e descansavam.
Na foto vêm-se, além de vários já identificados, António Dias Lourenço (um dos organizadores destes passeios), o poeta Francisco José Tenreiro, de S. Tomé e Príncipe.
sexta-feira, 6 de maio de 2011
El 15 de mayo se cumplen 50 años de la llegada de la primera computadora científica a Argentina
Clementina medía 18 metros de largo y tenía 5000 válvulas de vidrio.Foto: Universidad de Buenos Aires/Reproducción
(Primera computadora argentina silbaba tangos hace 50 años)
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ALGUNOS RECUERDOS SOBRE LOS ORÍGENES DEL CÁLCULO AUTOMÁTICO EN ARGENTINA, Y SUS ANTECENDENTES EN ESPAÑA E ITALIA
Ernesto Garcia Camarero
Resumen
Ernesto Garcia Camarero
Resumen
Las memorias relatadas en este artículo se refieren a mi lejana colaboración con el Prof. Julio Rey Pastor en el Instituto de Calculo del CSIC de Madrid, en los años 1950; a un viaje de estudios a Italia que inicié acompañando a Rey Pastor y a mi trabajo en el Istituto Nazionale per le Aplicazioni del Calcolo, de Roma. También se relata mi participación, gracias a una invitación de Rey Pastor, como experto en la organización del Instituto de Calculo de la Universidad de Buenos Aires en la Argentina a comienzos de los años 1960. Los recuerdos de mi estadía en Argentina se refieren también al trabajo de investigación en la Universidad Nacional del Sur, en Bahía Blanca. Aquí trabajé en un proyecto de diseño y construcción de una computadora electrónica (llamada CEUNS), y colaboré con el Prof. Antonio Monteiro (en el grupo de investigación del Instituto de Matemáticas que dirigía en Bahía Blanca), iniciando trabajos en ciencias de la computación. Se dan también algunos detalles sobre la creación de Sociedad Española de Matemática Aplicada (SEMA) y de la revista Arquímedes, ambas en España y de la Sociedad Argentina de Cálculo (SAC) en Argentina. Se incluyen referencias documentales sobre estos temas, varias de ellas las he puesto en formato digital en Internet, y se dan sus enlaces para facilitar la consulta.
quarta-feira, 4 de maio de 2011
Hugo Ribeiro, Pilar Ribeiro, Armando Gibert e Augusto Sá da Costa
Brunnen, 11 de Abril de 1946© Família de Pilar e Hugo Ribeiro
Agradecimentos: Mário Ribeiro, Ilda Perez
Digitalização de Jorge Rezende
segunda-feira, 2 de maio de 2011
ARMANDO GIBERT, UM FÍSICO NUCLEAR NA SOCIEDADE CORTICEIRA ROBINSON, por Manuela Mendes
Numa das pesquisas vagueantes à memória da Robinson, libertas de guião ou de formalismos técnico históricos, encontrei nos ficheiros de pessoal uma ficha individual que me deixou intrigada. Pelo nome de ascendência francesa e pela formação académica. O nome era Armando Gibert e na Profissão registava-se como Físico-químico. Aparentemente, a ficha pouco mais informações relevantes continha. Data de admissão e de demissão, vencimento e uma pequena fotografia.Nas conversas que procurei manter sobre esta figura, com ex-funcionários e funcionários no activo, as memórias já se tinham apagado. Subsistia uma vaga ideia, de um senhor "distinto e muito bem posto". Mas foi na expressão de um destes meus interlocutores que fixei o meu interesse: "Sim, parece que sim. Tivemos cá em tempos um físico nuclear que tinha um gabinete e um laboratório numa parte do actual escritório".
Um Físico Nuclear. O que faria um Físico Nuclear, no remoto Alentejo da década de quarenta? Pouco mais consegui apurar em quase dois anos. O assunto ficou "quase" esquecido.
Mas mesmo para quem como eu não acredita na força do acaso, voltei a cruzar-me com esta "ficha de funcionário" num dia recente em que arquivava documentos. E retornei às questões iniciais. Porquê um Físico Nuclear na Robinson nos finais da década de 40? Efectivamente sabia que a Robinson sempre tinha dedicado especial atenção às questões de desenvolvimento e que era pioneira em múltiplos passos tecnológicos na indústria corticeira. Que já George Robinson revelava essas preocupações e que tinha implementado rigorosos processos de verificação qualitativa, que ensaiava e certificava os produtos em Laboratórios oficiais em Inglaterra, no raiar do séc. XX. Que era prática corrente o registo de novos produtos e inventos. Mas um Físico Nuclear?
Desta vez persisti na pesquisa e foi com relativa facilidade que cheguei às notas biográficas de um notável cientista que, como "incidente de percurso" teve o facto de pertencer ao grupo de académicos que Salazar expulsou em 1947 do ensino superior e que, em alguns casos induziu a que procurassem exílio noutras paragens. Um dos académicos expulsos nesse período foi o insigne Prof. Manuel Valadares que tinha uma relação de amizade com o Eng. Cipriano Calleia, na época Administrador da Soc. Corticeira Robinson Bros de Portalegre. Aquando da expulsão, é o Eng. Calleia que se propõe acolher profissionalmente o Prof. Valadares. Mas o Prof. Manuel Valadares estava demasiado desencantado com o rumo seguido pelas políticas de Salazar e não aceita o convite. Uma já sólida reputação científica levam-no a receber um convite de Irène Joliot Curie e assim prosseguirá a sua notável carreira de investigador em Paris. E é neste contexto que lega esta possibilidade laboral ao seu discípulo e já colega, Armando Gibert o qual aceita de imediato o "destacamento" para Portalegre.
Numa conversa telefónica que mantive recentemente com a viúva do Dr. Armando Gibert, D. Maria Laura Ferreira Gibert, a mesma acaba por esclarecer com rigor esta etapa do percurso do marido. Num tom sereno, que em nenhum momento deixou antever ressentimentos pela despótica decisão de Salazar. Apenas incompreensão. Esta "purga" promovida por Salazar, varreu da investigação nacional, alguns dos seus mais notáveis elementos. Estranhamente depois de muitos deles terem feito especializações e doutoramentos a expensas do Governo de Salazar. Algumas destas figuras mantiveram relacionamento ao mais alto nível com a nata da ciência europeia da época, designadamente com Marie Curie, Pierre Curie e Albert Einstein.
Foi esse exactamente o percurso de Armando Gibert. Um ano antes de ser expulso, foi para a Suiça, onde se doutorou sob a orientação do Prof. Scherrer, do Instituto de Física da Eidgenossische Technische Hochschule, de Zurique.
Eventualmente, o "único crime" de que poderia ser acusado este grupo de académicos no Portugal daquela época era o de que "pensar se tinha tornado um acto demasiado perigoso". E sem dúvida, todos eles possuíam conhecimentos difíceis de "sossegar" num país em que reinava a desconfiança política e que se pautava pela mediocridade.
Armando Gibert, ao invés de muitos dos seus pares que abandonaram o país, tinha uma razão de peso que o induzia a ficar: era recém-casado e tinha uma pequena filha.
Tinha em aberto um lugar de professor no Liceu Francês mas a proposta financeira da Robinson era muito mais atractiva. É assim que em Outubro de 1947 vem para Portalegre, sem a família, fixando residência numa das casas da Quinta Formosa, disponibilizada pela empresa. Mantém idas regulares a Lisboa, onde continua os trabalhos de investigação no IPO. Na sua passagem pela Robinson, A. Gibert trabalhou afincadamente no desenvolvimento de novas soluções técnicas para processos de fabrico e em aglomerados de cortiça.
Aparentemente, os registos escritos da actividade de Gibert na sua passagem pela Robinson não sobreviveram ao tempo. Mas um bem conservado diário manuscrito de um contemporâneo na fábrica, Júlio Gameiro, alude múltiplas vezes ao Prof. e às suas actividades. Júlio Gameiro acabou por permanecer na fábrica por um período semelhante a A. Gibert. Eventualmente, razões semelhantes os terão trazido a Portalegre e a Robinson terá funcionado como uma "porta cúmplice". No seu meticuloso registo diário, Júlio Gameiro relata pequenas e grandes ocorrências, inovações nos fabricos, desenhos de peças e engenhos, formulações de produtos, doenças, incêndios, entre outros e algumas referências a episódios de prisões de encarregados e operários efectuadas pela PIDE na própria fabrica. Gameiro, de quem se sabe ainda muito pouco, sairá da fábrica na mesma altura que A. Gibert, em 1953.
Nada nos leva a supor que a Gibert o movessem questões políticas ou ideológicas. A sua condição de cientista e de livre-pensador simplesmente não se coadunavam com a necessidade de controlo do regime de Salazar. Este deverá ser um traço comum a muitos dos que foram obrigados a abandonar a cátedra, nas Universidades de Lisboa, Porto e Coimbra, no ano de 1947. E será talvez uma das sequelas mais graves e menos conhecidas da longa intervenção salazarista: Como quem semeia batatas e lhe corta a rama assim que esta começa a brotar.
Um "infeliz episódio político" que possibilitou que um homem com a craveira técnico científica do Dr. Armando Gibert integrasse os quadros de pessoal da Sociedade Corticeira Robinson e lhe incutisse importantes avanços tecnológicos num novo período de relançamento da actividade Robinson, após os recessivos e conturbados anos da II Guerra Mundial.
Manuela Mendes, Eng. Química (IST), Portalegre.
Notas Biográficas Armando Carlos Gibert
Nasce em Lisboa a 1 de Agosto de 1914, filho de Henri Ernest Gibert, herói francês da 1ª Guerra Mundial, condecorado com a grã-cruz e de Maria José Montes Gibert. Com 24 anos licencia-se em Ciências Matemáticas pela então Faculdade de Ciências da Universidade Clássica de Lisboa. Dedica-se ao ensino da Física tendo o Prof. Manuel Valadares como seu orientador. Em 1946 conclui o seu doutoramento em Física, no Instituto de Física da Eidgenossische Technische Hochschule, de Zurique sob a orientação do Prof. Scherrer. Por despacho de Conselho de Ministros de 14 de Junho de 1947, foi demitido compulsivamente das suas funções na Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa. Os anos de 1946 e 1947 ficariam recheados de demissões e aposentações compulsivas de reconhecidos nomes da ciência lusa, designadamente, Bento de Jesus Caraça, M. Azevedo Gomes, Ruy Luís Gomes, Francisco Pulido Valente, Fernando Fonseca, Peres de Carvalho, Dias Amado, Celestino da Costa, Cândido de Oliveira, Adelino da Costa, Cascão de Anciães, Mário Silva, Torre de Assunção, Flávio Resende, Zaluar Nunes, Remy Freire, Crabée Rocha, Manuel Valadares, Armando Gibert, Lopes Raimundo, Laureano Barros, José Morgado, Morbey Rodrigues, A. Pereira Gomes, A. Sá da Costa, Virgílio Barroso, Aurélio Marques da Silva. Em Outubro de 1947 entra nos quadros da Sociedade Corticeira Robinson Bros, cessando funções em Março de 1953. Entre 1947 e 1953 presta também colaboração no IPO, projectando as bases da Protecção contra Radiações, dedicando-se ao estudo da interacção das radiações com o meio biológico. Ingressa no LNEC em 1953 onde permaneceu até 1960. Foi um dos principais obreiros da estrutura que se criou e que pretendia fomentar a introdução da Energia Nuclear em Portugal. Foi Director da SPIN, a primeira sociedade que se constituiu para o efeito. É autor de inúmeros artigos em varias revistas de reconhecido mérito cientifico estando o seu nome associado à já extinta mas muito prestigiada revista " Engenharia Nuclear". Também a A. Gibert se deve o surgimento da Gazeta de Fisica, trave mestra da Sociedade Portuguesa da Física. Foi reintegrado na Universidade de Lisboa, pelo Dec. Lei 173/74 de 26 de Abril de 1974. Morre em Lisboa a 6 de Julho de 1985.
[Notas biográficas recolhidas por Manuela Mendes]
Ver ainda:
sexta-feira, 29 de abril de 2011
segunda-feira, 25 de abril de 2011
Dois protagonistas do século de existência da Universidade de Lisboa: António Aniceto Monteiro e Alfredo Pereira Gomes


Agradecimentos: Mário Ribeiro, Ilda Perez
Digitalização de Jorge Rezende
Neste dia 25 de Abril de 2011, apresenta-se aqui uma fotografia de dois Professores ligados à Universidade de Lisboa, António Aniceto Monteiro e Alfredo Pereira Gomes. Embora de proveniência diferente, já tinha sido reproduzida em António Aniceto Monteiro e Alfredo Pereira Gomes (sem data) e foi tirada no mesmo mês que esta: Alfredo Pereira Gomes, Ruy Luís Gomes, António Aniceto Monteiro e Manuel Zaluar Nunes.
Nessa data, Julho de 1959, estavam ambos no exílio.
Alfredo Pereira Gomes foi afastado da Universidade em Outubro de 1946, por decisão do Governo, alegadamente por “estar incurso no disposto do decreto-lei nº 25317” (ver Tentativa Feitas nos Anos 40 para criar no Porto uma escola de Matemática, por Ruy Luís Gomes). Foi para França e, depois, para o Brasil.
António Aniceto Monteiro nunca foi expulso da Universidade Portuguesa, porque nem sequer foi admitido depois de regressar de Paris em 1936. Pelas razões que se conhecem, partiu para o Brasil em 1945, seguindo para a Argentina anos mais tarde. De tudo o que fez pela nossa Universidade, e pelas dos países onde trabalhou, temos vindo a fazer o modesto relato.
Todos os nomes citados neste texto são de exilados, exemplos da nossa triste Universalidade.
Nessa data, Julho de 1959, estavam ambos no exílio.
Alfredo Pereira Gomes foi afastado da Universidade em Outubro de 1946, por decisão do Governo, alegadamente por “estar incurso no disposto do decreto-lei nº 25317” (ver Tentativa Feitas nos Anos 40 para criar no Porto uma escola de Matemática, por Ruy Luís Gomes). Foi para França e, depois, para o Brasil.
António Aniceto Monteiro nunca foi expulso da Universidade Portuguesa, porque nem sequer foi admitido depois de regressar de Paris em 1936. Pelas razões que se conhecem, partiu para o Brasil em 1945, seguindo para a Argentina anos mais tarde. De tudo o que fez pela nossa Universidade, e pelas dos países onde trabalhou, temos vindo a fazer o modesto relato.
Todos os nomes citados neste texto são de exilados, exemplos da nossa triste Universalidade.
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