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domingo, 17 de abril de 2011

Ferreira Marques e Bento de Jesus Caraça num passeio no Tejo

Ferreira Marques e Bento de Jesus Caraça. Ferreira Marques deve ser o Dr. João Ferreira Marques citado no excerto do livro de Ricciardi (Os passeios no Tejo numa biografia literária de Soeiro Pereira Gomes). Escreveu O Problema Médico-Social da Sífilis, para as EDIÇÕES COSMOS.
Bento de Jesus Caraça faria amanhã 110 anos.

© Família de Pilar e Hugo Ribeiro
Agradecimentos: Mário Ribeiro, Ilda Perez
Digitalização de Jorge Rezende

quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

Procuração a Avelino Cunhal (16 de Outubro de 1943)

Avelino Cunhal (fotografia copiada do livro Nenúfar no Charco)
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Em Outubro de 1943, António Aniceto Monteiro preparava-se para sair imediatamente do país...
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 © Família de António Aniceto Monteiro
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O nome de Lídia Monteiro aparece com um erro; onde está "Lídia Moreira", deveria estar "Lídia Marina".
Uma das testemunhas é o médico João Ferreira Marques (ver Ferreira Marques e Bento de Jesus Caraça num passeio no Tejo).
A outra testemunha é Antonino José de Sousa, advogado.
O notário é José Peres de Noronha Galvão (*).
(*) Pai de Maria Luísa Melo de Noronha Galvão.
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Nesta data, a família Monteiro morava Rua Fábrica das Sedas, 5, rés-do-chão. Actualmente, parece que tal rua não existe, mas existe uma travessa com o mesmo nome que fica na zona das Amoreiras, nas traseiras da Fundação Arpad Szenes - Vieira da Silva; também pode suceder que chamaram "Rua" à "Travessa". Curiosamente, menos de dois anos mais tarde, a família Monteiro iria habitar a «Pensão Internacional», no Rio de Janeiro, onde também moravam Maria Helena e Arpad... (ver Maria Helena Vieira da Silva nasceu há 100 anos).

domingo, 21 de janeiro de 2018

Na morte de Soeiro Pereira Gomes – carta de António Aniceto Monteiro para Alfredo Pereira Gomes, de 31 de Janeiro de 1950

(continua)
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Antes de mais nada quero enviar-lhe os meus pêsames pelo falecimento de seu irmão. Tive ontem essa triste notícia por intermédio de minha mulher, que me a tinha ocultado para me evitar mais um desgosto depois do período que tenho passado cheio de inquietações e aborrecimentos. Embarquei para a Argentina no dia 30 de Novembro, mas a Lídia só partiu no dia 15 de Dez. por causa dos exames dos garotos. Foi nesse período que chegou uma carta do Ferreira Marques com a triste notícia. Entretanto nada me comunicou, sem coragem para o fazer. Mas ontem quando lhe disse que lhe ia escrever, não teve outro remédio.
Não encontro palavras para lhe exprimir o desgosto que senti. Tinha por seu irmão uma grande estima e admiração. Considerava-o um dos representantes mais ilustres daquela inteligência por­tuguesa que coloca os interesses do povo da nossa terra acima de tudo, que sabe viver e sofrer por ele sem medir os sacrifícios. Foi um desastre para a nossa cultura que ele tivesse falecido em plena juventude, quando tanto nos podia ainda dar. Parece que o destino se compraz em nos levar o que temos de melhor, como se não bastassem já os sofrimentos de tantos anos de ditadura, acom­panhados do aniquilamento de tantas esperanças e sonhos. Sinto cada vez uma amargura maior, com tudo o que se vai passando em Portugal. Segundo as notícias que me mandam, devemos encarar por largo tempo a hipótese de não voltar. Recebi em Setembro passado uma carta do Sebastião Silva, que dava vontade de chorar.
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Soeiro Pereira Gomes faleceu no dia 5 de Dezembro de 1949, precisamente o dia em que Monteiro chegou a Buenos Aires.
Ver neste blogue: Soeiro Pereira Gomes
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Carta de Sebastião e Silva mencionada nesta:
«Se eu conseguir manter-me aqui, creia que não pensarei apenas em mim: esforçar-me-ei, nos limites do possível, por dar continuidade à sua obra iniciada há dez anos e cuja vitalidade, apesar de tudo, tem sido muito superior ao que podíamos esperar. Pode dizer-se que Portugal só passou a existir, no domínio da Matemática, a partir da sua actuação.» - carta de Sebastião e Silva para António Aniceto Monteiro, de 22 de Setembro de 1949

quarta-feira, 11 de maio de 2011

Passeios no Tejo: identifica​ção das fotografia​s

Recebi do Eng. António Mota Redol a identificação de alguns participantes dos «passeios no Tejo», feita a meu pedido, o que muito lhe agradeço. O Eng. António Abreu já me tinha participado a confusão (erro meu) entre Fernando Lopes Graça e Rui Grácio, o que também lhe agradeço. Todas estas fotografias são provenientes dos arquivos de Pilar e Hugo Ribeiro.
Em seguida, transcrevo as partes significativas da identificação feita pelo Eng. António Mota Redol.


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Talvez se consiga distinguir as fotografias dos passeios de 41 e de 42.
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O de 40 parece não ter fotografias.
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Este passeio com 2 barcos terá sido em 1942.
Na parte de trás do barco que está em primeiro plano, sentados, estão Manuel da Fonseca (de chapéu), Sidónio Muralha e Maria Lucília Estanco Louro. Em pé está um dos tripulantes.
Ao lado da Maria Lucília está o Carlos Alberto Lança e a seguir pode ser o Francisco Pulido Valente.
O de óculos, em primeiro plano, não identifico (mas pode ser o Ferreira Marques). Bem como os outros, todos de costas.
Na quilha deste barco, de chapéu, parece ser Caraça. O que está com a cara tapada com a mão, deve ser o economista, fundador do PS, Francisco Ramos da Costa.
No outro barco, em pé, junto ao mastro, é Arquimedes da Silva Santos. Os outros, embora de frente, não identifico.

Alves Redol, Fernando Lopes Graça e outros num passeio no Tejo
Vêm-se, também, Sidónio Muralha, Manuel Campos Lima (director de "O Diabo"), Maria Lucília.
O de "pullover" junto a Redol deve ser Alfredo Pereira Gomes, irmão de Soeiro. Por detrás de Redol, em pé, de camisa branca, a minha mãe, Virgínia Redol.
Junto a Lopes Graça será Maria Helena Correia Guedes e, atrás, talvez Francisco Pulido Valente.
O de óculos escuros, segundo Piteira Santos, será um operário da Imprensa Nacional.

Não consigo identificar. O "Liberdade" tinha uma bandeira com esta palavra, a qual se vê em uma das fotografias dos passeios.
Tinha mesmo este nome, por vontade do dono.

Estes barcos são dos avieiros, que pescavam (e ainda pescam) no Tejo. Nas fotos vêm-se as redes.
A mulher acompanha sempre o homem (dia e noite) e trabalha tanto como ele, além de fazer a comida. Ela rema, enquanto o homem lança e recolhe a rede.

Soeiro Pereira Gomes num passeio no Tejo em 1941 ou 1942
Nestes passeios Soeiro lia poesia e contava histórias divertidas. Alves Redol falava de assuntos políticos.

Hugo Ribeiro e Fernando Piteira Santos, em primeiro plano, num passeio no Tejo em 1941 ou 1942
De boné, Jerónimo Tarrinca, o dono do barco "Liberdade". Dobrado, está António Vitorino, que tinha uma taberna no cais de Vila Franca e fazia o almoço. É a ele e a Jerónimo Tarrinca que Alves Redol dedica o romance "Avieiros". Muitos investigadores escrevem que era Manuel da Barraquinha quem fazia a comida, mas trata-se de confusão. E alguns até dizem que era ele quem organizava os passeios.
Já esclareci isso numa mensagem anterior.
Quanto aos fotógrafos: nas diferentes fotografias vêm-se duas pessoas com máquina, Inácio Fiadeiro e Antero Serrão de Moura.

A outra que ri é Maria Olívia.

Passeio no Tejo: vêm-se Pilar Ribeiro, Lídia Monteiro, Soeiro Pereira Gomes (em baixo à direita), Virgínia Redol e Fernando Lopes Graça (à direita)
O Fernando Lopes Graça não é, de certeza. O de óculos será o Rui Grácio.
O deitado, de branco, é o Francisco Ramos da Costa. Ao lado da Lídia é a Stella Fiadeiro, mais tarde Stella Pirteira Santos. Por detrás, junto ao mastro deve ser o Inácio Fiadeiro.

Passeio no Tejo
Primeira fotografia
Lá atrás está o Arquimedes da Silva Santos.
Junto da Pilar e da Lídia confirmo o Inácio Fiadeiro, que na foto anterior tem a cara um pouco escondida, e a Stella.
Eles estão todos encolhidos e encostados uns aos outros porque num dos passeios, na versão de um participante, estava muito frio. Deve ser este.
Ou como saíam muito de manhã, estava frio em todos os passeios.

António Aniceto Monteiro na Costa de Caparica
Não é o Aniceto Monteiro. É o Álvaro Cunhal, que só foi no passeio de 41, porque em 40 estaria preso e em final de 41 passou à clandestinidade.
O outro é o António Vitorino.
A fotografia não é na Costa de Caparica (onde parte deles estiveram num destes Verões; talvez no de 41; aliás, o pai de Álvaro Cunhal, o advogado dr. Avelino Cunhal, tinha uma casa de Verão na Costa, onde pintou vários quadros com pescadores). É no Passeio do Tejo de 41.

En las márgenes del Napostá...
Esta fotografia deve ser num local chamado de "Obras", junto ao Tejo, perto de Azambuja, de que todos os participantes e pessoas de Vila Franca que sabiam dos passeios falam. Os "passeantes" falavam de vários assuntos, políticos e culturais, e aqui almoçavam e descansavam.
Na foto vêm-se, além de vários já identificados, António Dias Lourenço (um dos organizadores destes passeios), o poeta Francisco José Tenreiro, de S. Tomé e Príncipe.

sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

Os passeios no Tejo numa biografia literária de Soeiro Pereira Gomes

(...)
Encontro-me na casa do Arquimedes [da Silva Santos], na Póvoa; depois de ter lido, em cópia, o discurso, peço e obtenho esclarecimentos: os passeios pelos montes atrás de Vila Franca a ler o Manifesto Comunista deram-se em 1941, depois de se ter constituído um Comité Regional das Juventudes Comunistas; o primeiro passeio de barco foi no Verão de 1941; antes de Junho de 1941 com Soeiro falavam mais em coisas literárias. O poeta continua a falar daqueles tempos e mostra-me fotografias antigas e, entre outras, uma do passeio de barco em que aparecem, além dele próprio, Pereira Gomes, Manuel Campos Lima, Rui Grácio, Cândida Ventura, Álvaro Cunhal, Dias Lourenço, Aniceto Monteiro, Piteira Santos, Guilherme Morgado...
A esses passeios refere-se Joaquim em duas cartas ao irmão Alfredo. Na de 3 de Junho de 1940 conta com entusiasmo:

Há tempos fui dar um belo passeio e lembrei-me de ti e do Jaime. Passeio de barco à vela. Vela vermelha e gente vermelha: malta do Diabo. Fomos almoçar às obras uma caldeirada à fragateiro. Cantou-se (que cantos!...) e conversou-se à vontadinha. Lembrança do Redol de quem sou agora muito amigo. Vou com ele até para férias em meados de Julho.

Noutra, de 9 de Abril de 1941, anuncia mais um «passeio de barco, Tejo acima, com a malta do “Diabo”» a realizar-se no dia 27 do mês.
Os passeios no barco Liberdade de Jerónimo Tarrinca no Verão de 1941, de Alhandra e Vila Franca até ao local das Obras perto de Azambuja, um lugar aprazível e com praia fluvial para tomar banho e fazer piqueniques, ou apenas indo Tejo abaixo Tejo acima, com caldeiradas a bordo, eram, na realidade, momentos de alta escola política e partidária, como as excursões e visitas a museus e locais históricos, como as actividades culturais e desportivas nas colectividades, onde se processava aquela que António Dias Lourenço chama «uma mútua dádiva entre trabalhadores manuais do Baixo Ribatejo e a intelectualidade portuguesa mais avançada e progressista» (*). No Liberdade passearam o dr. Fernando Piteira Santos e o prof. Alfredo Pereira Gomes, o dr. Francisco Eduardo Pulido Valente e o eng. Correia Guedes, o dr. João Ferreira Marques e o prof. Bento de Jesus Caraça, Manuel da Fonseca Barraquinha, vilafranquense e responsável pelas caldeiradas, Cândida Ventura e o advogado Inácio Fiadeiro, o dr. Augusto Sá da Costa, o poeta e crítico Mário Dionísio, que lembra Soeiro a ler versos, e tantos outros.
Num desses passeios participa, convidado por Redol, Pedro Neto. No dia e na hora marcados, o jovem vai ao cais da Cimento Tejo e lá encontra Soeiro Pereira Gomes com uma pessoa desconhecida, que depois virá a saber ser Álvaro Cunhal. Com o barquito de um trabalhador da Fábrica, João Corneta, os três foram ao encontro do Liberdade, onde encontraram, entre outros, António Dias Lourenço, António Ramos de Almeida, Lopes-Graça e Bento de Jesus Caraça, que o chamou de lado para lhe perguntar sobre a organização das Juventudes Comunistas em Vila Franca. Pedro Neto responde que na sua opinião «o grupo dos jovens devia estar integrado diretamente na organização do partido».
Os jovens e a Federação das Juventudes Comunistas eram objectivos prioritários dos reorganizadores. Em Vila Franca, porém, já existia um grupo de moços ligados ao Alves Redol e ao António Dias Lourenço, que se interessavam por política e literatura. Eram eles, já o vimos há pouco, além de Pedro Neto e Arquimedes, Octávio Pato, António Tavares, António Lopes e Jorge Reis, que em 1941 publicavam um jornalzinho, escrito à mão, chamado Querer É Poder. Todos esses jovens, como já lembrou Arquimedes e como me repete Jorge Reis, que encontro em Cascais no mês de Abril de 1996, depois da invasão nazi da União Soviética de 22 de Junho de 1941, entram nas Juventudes Comunistas e começam a trabalhar a sério na militância partidária.
Para Pedro Neto, então, esses e os outros jovens deviam-se integrar no Partido para unir as forças, pois não tinha sentido haver, por exemplo, na fábrica Cimento Tejo, onde ele trabalhava, duas organizações comunistas: o partido, que certamente existia, e os jovens.
Até ao passeio no Liberdade, à excepção do episódio do pequeno manifesto de 1938, o relacionamento entre Soeiro e Pedro Neto tinha sido rigorosamente isento de interesse partidário e até político. «Só no Inverno de 1940 é que ele me fala levemente no Partido», lembra Pedro. «Então, o senhor sabe quando Joaquim ingressou no Partido?», pergunto. «Certeza só tenho depois do nosso encontro lá no Sobralinho, quando Soeiro já era responsável do Comité Local em Alhandra.» Aconteceu que a sugestão de Pedro Neto a Bento de Jesus Caraça tinha sido aceite. (...)
(...)

(*) Lourenço, António Dias, Vila Franca de Xira. Um Concelho no País, Edição da Câmara Municipal de Vila Franca de Xira, 1995, p. 160.


(Soeiro Pereira Gomes, Uma Biografia Literária, páginas 121-123)

segunda-feira, 2 de maio de 2011

ARMANDO GIBERT, UM FÍSICO NUCLEAR NA SOCIEDADE CORTICEIRA ROBINSON, por Manuela Mendes

Digitalizações amavelmente cedidas por Manuela Mendes
Numa das pesquisas vagueantes à memória da Robinson, libertas de guião ou de formalismos técnico históricos, encontrei nos ficheiros de pessoal uma ficha individual que me deixou intrigada. Pelo nome de ascendência francesa e pela formação académica. O nome era Armando Gibert e na Profissão registava-se como Físico-químico. Aparentemente, a ficha pouco mais informações relevantes continha. Data de admissão e de demissão, vencimento e uma pequena fotografia.
Nas conversas que procurei manter sobre esta figura, com ex-funcionários e funcionários no activo, as memórias já se tinham apagado. Subsistia uma vaga ideia, de um senhor "distinto e muito bem posto". Mas foi na expressão de um destes meus interlocutores que fixei o meu interesse: "Sim, parece que sim. Tivemos cá em tempos um físico nuclear que tinha um gabinete e um laboratório numa parte do actual escritório".
Um Físico Nuclear. O que faria um Físico Nuclear, no remoto Alentejo da década de quarenta? Pouco mais consegui apurar em quase dois anos. O assunto ficou "quase" esquecido.
Mas mesmo para quem como eu não acredita na força do acaso, voltei a cruzar-me com esta "ficha de funcionário" num dia recente em que arquivava documentos. E retornei às questões iniciais. Porquê um Físico Nuclear na Robinson nos finais da década de 40? Efectivamente sabia que a Robinson sempre tinha dedicado especial atenção às questões de desenvolvimento e que era pioneira em múltiplos passos tecnológicos na indústria corticeira. Que já George Robinson revelava essas preocupações e que tinha implementado rigorosos processos de verificação qualitativa, que ensaiava e certificava os produtos em Laboratórios oficiais em Inglaterra, no raiar do séc. XX. Que era prática corrente o registo de novos produtos e inventos. Mas um Físico Nuclear?
Desta vez persisti na pesquisa e foi com relativa facilidade que cheguei às notas biográficas de um notável cientista que, como "incidente de percurso" teve o facto de pertencer ao grupo de académicos que Salazar expulsou em 1947 do ensino superior e que, em alguns casos induziu a que procurassem exílio noutras paragens. Um dos académicos expulsos nesse período foi o insigne Prof. Manuel Valadares que tinha uma relação de amizade com o Eng. Cipriano Calleia, na época Administrador da Soc. Corticeira Robinson Bros de Portalegre. Aquando da expulsão, é o Eng. Calleia que se propõe acolher profissionalmente o Prof. Valadares. Mas o Prof. Manuel Valadares estava demasiado desencantado com o rumo seguido pelas políticas de Salazar e não aceita o convite. Uma já sólida reputação científica levam-no a receber um convite de Irène Joliot Curie e assim prosseguirá a sua notável carreira de investigador em Paris. E é neste contexto que lega esta possibilidade laboral ao seu discípulo e já colega, Armando Gibert o qual aceita de imediato o "destacamento" para Portalegre.
Numa conversa telefónica que mantive recentemente com a viúva do Dr. Armando Gibert, D. Maria Laura Ferreira Gibert, a mesma acaba por esclarecer com rigor esta etapa do percurso do marido. Num tom sereno, que em nenhum momento deixou antever ressentimentos pela despótica decisão de Salazar. Apenas incompreensão. Esta "purga" promovida por Salazar, varreu da investigação nacional, alguns dos seus mais notáveis elementos. Estranhamente depois de muitos deles terem feito especializações e doutoramentos a expensas do Governo de Salazar. Algumas destas figuras mantiveram relacionamento ao mais alto nível com a nata da ciência europeia da época, designadamente com Marie Curie, Pierre Curie e Albert Einstein.
Foi esse exactamente o percurso de Armando Gibert. Um ano antes de ser expulso, foi para a Suiça, onde se doutorou sob a orientação do Prof. Scherrer, do Instituto de Física da Eidgenossische Technische Hochschule, de Zurique.
Eventualmente, o "único crime" de que poderia ser acusado este grupo de académicos no Portugal daquela época era o de que "pensar se tinha tornado um acto demasiado perigoso". E sem dúvida, todos eles possuíam conhecimentos difíceis de "sossegar" num país em que reinava a desconfiança política e que se pautava pela mediocridade.
Armando Gibert, ao invés de muitos dos seus pares que abandonaram o país, tinha uma razão de peso que o induzia a ficar: era recém-casado e tinha uma pequena filha.
Tinha em aberto um lugar de professor no Liceu Francês mas a proposta financeira da Robinson era muito mais atractiva. É assim que em Outubro de 1947 vem para Portalegre, sem a família, fixando residência numa das casas da Quinta Formosa, disponibilizada pela empresa. Mantém idas regulares a Lisboa, onde continua os trabalhos de investigação no IPO. Na sua passagem pela Robinson, A. Gibert trabalhou afincadamente no desenvolvimento de novas soluções técnicas para processos de fabrico e em aglomerados de cortiça.
Aparentemente, os registos escritos da actividade de Gibert na sua passagem pela Robinson não sobreviveram ao tempo. Mas um bem conservado diário manuscrito de um contemporâneo na fábrica, Júlio Gameiro, alude múltiplas vezes ao Prof. e às suas actividades. Júlio Gameiro acabou por permanecer na fábrica por um período semelhante a A. Gibert. Eventualmente, razões semelhantes os terão trazido a Portalegre e a Robinson terá funcionado como uma "porta cúmplice". No seu meticuloso registo diário, Júlio Gameiro relata pequenas e grandes ocorrências, inovações nos fabricos, desenhos de peças e engenhos, formulações de produtos, doenças, incêndios, entre outros e algumas referências a episódios de prisões de encarregados e operários efectuadas pela PIDE na própria fabrica. Gameiro, de quem se sabe ainda muito pouco, sairá da fábrica na mesma altura que A. Gibert, em 1953.
Nada nos leva a supor que a Gibert o movessem questões políticas ou ideológicas. A sua condição de cientista e de livre-pensador simplesmente não se coadunavam com a necessidade de controlo do regime de Salazar. Este deverá ser um traço comum a muitos dos que foram obrigados a abandonar a cátedra, nas Universidades de Lisboa, Porto e Coimbra, no ano de 1947. E será talvez uma das sequelas mais graves e menos conhecidas da longa intervenção salazarista: Como quem semeia batatas e lhe corta a rama assim que esta começa a brotar.
Um "infeliz episódio político" que possibilitou que um homem com a craveira técnico científica do Dr. Armando Gibert integrasse os quadros de pessoal da Sociedade Corticeira Robinson e lhe incutisse importantes avanços tecnológicos num novo período de relançamento da actividade Robinson, após os recessivos e conturbados anos da II Guerra Mundial.

Manuela Mendes, Eng. Química (IST), Portalegre.


Notas Biográficas Armando Carlos Gibert
Nasce em Lisboa a 1 de Agosto de 1914, filho de Henri Ernest Gibert, herói francês da 1ª Guerra Mundial, condecorado com a grã-cruz e de Maria José Montes Gibert. Com 24 anos licencia-se em Ciências Matemáticas pela então Faculdade de Ciências da Universidade Clássica de Lisboa. Dedica-se ao ensino da Física tendo o Prof. Manuel Valadares como seu orientador. Em 1946 conclui o seu doutoramento em Física, no Instituto de Física da Eidgenossische Technische Hochschule, de Zurique sob a orientação do Prof. Scherrer. Por despacho de Conselho de Ministros de 14 de Junho de 1947, foi demitido compulsivamente das suas funções na Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa. Os anos de 1946 e 1947 ficariam recheados de demissões e aposentações compulsivas de reconhecidos nomes da ciência lusa, designadamente, Bento de Jesus Caraça, M. Azevedo Gomes, Ruy Luís Gomes, Francisco Pulido Valente, Fernando Fonseca, Peres de Carvalho, Dias Amado, Celestino da Costa, Cândido de Oliveira, Adelino da Costa, Cascão de Anciães, Mário Silva, Torre de Assunção, Flávio Resende, Zaluar Nunes, Remy Freire, Crabée Rocha, Manuel Valadares, Armando Gibert, Lopes Raimundo, Laureano Barros, José Morgado, Morbey Rodrigues, A. Pereira Gomes, A. Sá da Costa, Virgílio Barroso, Aurélio Marques da Silva. Em Outubro de 1947 entra nos quadros da Sociedade Corticeira Robinson Bros, cessando funções em Março de 1953. Entre 1947 e 1953 presta também colaboração no IPO, projectando as bases da Protecção contra Radiações, dedicando-se ao estudo da interacção das radiações com o meio biológico. Ingressa no LNEC em 1953 onde permaneceu até 1960. Foi um dos principais obreiros da estrutura que se criou e que pretendia fomentar a introdução da Energia Nuclear em Portugal. Foi Director da SPIN, a primeira sociedade que se constituiu para o efeito. É autor de inúmeros artigos em varias revistas de reconhecido mérito cientifico estando o seu nome associado à já extinta mas muito prestigiada revista " Engenharia Nuclear". Também a A. Gibert se deve o surgimento da Gazeta de Fisica, trave mestra da Sociedade Portuguesa da Física. Foi reintegrado na Universidade de Lisboa, pelo Dec. Lei 173/74 de 26 de Abril de 1974. Morre em Lisboa a 6 de Julho de 1985.

[Notas biográficas recolhidas por Manuela Mendes]


Ver ainda:

segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

«O Aniceto Monteiro disse-me...»: carta de Abel Salazar a Celestino da Costa de 1942

(...)
Seja como for, este incidente [a demissão de Celestino da Costa do Instituto de Alta Cultura] veio pôr bruscamente em evidência as gerais simpatias dos nossos meios científicos pelo prof. Celestino, e o reconhecimento pela sua obra e serviços prestados. Não lhe falo como velho amigo, mas como simples observador, pois tenho notado com prazer este movimento de simpatia para com o prof. Celestino. Pelos informes do Ruy e do Corino sei o que se pensa em Lisboa: e todos esses informes revelam ao mesmo tempo a inquietação produzida pelo incidente e a atmosfera de simpatia que ele determinou a seu respeito. A justiça que lhe fazem amigos é menos impressionante do que a que lhe fazem indiferentes e até inimigos — mesmo aqueles que com razão ou sem razão — tinham qualquer razão de queixa da Alta Cultura.
O Aniceto Monteiro disse-me: — É o único homem que sabe ver as coisas e com quem a gente pode entender-se, e o Corino por seu turno tem afirmado por toda a parte: — Pense-se o que se quiser sobre o prof. Celestino, ele é, entre nós, o único homem indicado para aquele lugar. Cito estas afirmações porque elas definem bem a corrente geral.
De resto, como disse, o contraste entre a antiga e a moderna direcção da Alta Cultura é de tal calibre e tem feito tal impressão, que eu suponho que isto, tarde ou mais cedo, terá de sofrer um remendo... a não ser que tudo isto leve água no bico.
Em suma, saiu deste incidente com força moral aumentada e o seu nome mantém uma esperança. É já alguma coisa no meio deste descalabro moral que é a vida portuguesa.
(...)

(Abel Salazar - 96 cartas a Celestino da Costa)


*

terça-feira, 3 de abril de 2007

Decreto-lei n.º 25:317, de 13 de Maio de 1935



O decreto 25 317 determinava no seu artigo 1º: «Os funcionários ou empregados, civis ou militares que tenham revelado ou revelem espírito de oposição aos princípios fundamentais da Constituição Política ou não dêem garantias de cooperar na realização dos fins superiores do Estado serão aposentados ou reformados, se a isso tiverem direito, ou demitidos em caso contrário». E, mais adiante, no seu artigo 4º: «A demissão, reforma ou aposentação e a exclusão dos concursos ou escolas é sempre da competência do Conselho de Ministros». No parágrafo único deste último artigo, os leitores são «brindados» com esta cínica possibilidade de recurso: «Das decisões do Conselho de Ministros só há recurso para o próprio Conselho o qual será interposto no prazo de oito dias, por simples requerimento, que poderá ser instruído com quaisquer documentos».
Este decreto visava atingir, em primeiro lugar, professores, com destaque para os universitários, e, em segundo lugar, os militares, mas foi aplicado, também, paulatinamente, até ao 25 de Abril, a todos aqueles funcionários que desagradassem às pessoas afectas ao regime. Foram atingidos, também, professores dos ensinos primário e secundário, técnicos, enfermeiros, assistentes sociais, etc. Talvez esteja por fazer a lista completa das suas vítimas. Era o terror sobre a massa anónima de funcionários, sob a forma de decreto.

Em 1935, sendo Ministro da Instrução Pública e Belas Artes Eusébio Tamagnini de Matos Encarnação, no dia seguinte à publicação do decreto 25 317, 14 de Maio, foram expulsos 33 funcionários civis e militares, entre os quais Abel Salazar, Aurélio Quintanilha, Manuel Rodrigues Lapa, Sílvio Lima, Norton de Matos (professores universitários) e Jaime Carvalhão Duarte, Costa Amaral e Manuel da Silva (professores do ensino primário), segundo dados que facilmente se obtêm, em livros ou na internet, mas não totalmente verificados e confirmados.

Em 1947, sendo Ministro da Educação Nacional Fernando Andrade Pires de Lima, são demitidos pelo governo 26 professores universitários (número exacto não verificado e/ou confirmado) conhecidos pelas suas ideias democráticas.
Foram compulsivamente afastados do ensino universitário, entre outros: Ruy Luís Gomes, Mário Silva, Celestino da Costa, Cândido de Oliveira, Pulido Valente, Fernando Fonseca, Adelino da Costa, Cascão de Ansiães, Torre de Assunção, Flávio Resende, Ferreira de Macedo, Peres de Carvalho, Marques da Silva, Zaluar Nunes, Rémy Freire, Crabée Rocha, Dias Amado, Manuel Valadares, Armando Gibert, Lopes Raimundo, Laureano Barros, José Morgado, Morbey Rodrigues. Quase todos eles (21 – número confirmado) foram afastados em 18 de Junho de 1947, ao abrigo do decreto 25 317. Foi o golpe fatal sobre o Movimento Científico.
Também ao abrigo do mesmo decreto, e na mesma data, foram ainda afastados 11 militares, quase todos de alta patente.

Ver: Ministros desde 28 de Maio de 1926 até 24 de Abril de 1974