quinta-feira, 31 de março de 2011
terça-feira, 29 de março de 2011
Faleceu a Professora Maria do Pilar Ribeiro

Pilar Ribeiro, nos anos de juventude, com Lídia Monteiro, num passeio no TejoFaleceu, ontem, ao final da tarde, no Hospital de Cascais, a Professora Maria do Pilar Ribeiro.
Ver nota biográfica:
Completaria este ano 100 anos.
Ver ainda:
No blogue "António Aniceto Monteiro"
Hugo Ribeiro
Pilar Ribeiro
No blogue "Ruy Luís Gomes"
Hugo Ribeiro
Pilar Ribeiro
segunda-feira, 7 de março de 2011
domingo, 6 de março de 2011
Igreja de Santo Adrião em Mossâmedes
Reproduzida de Um conto de vez em quando: o Padre Basílio
Reproduzida de Fotos e Postais antigos de Mossâmedes (Moçâmedes, Namibe, Angola): A entrada para um Tedeum na Igreja de Santo Adrião à chegada do Governador Geral, Custódio Miguel Borja, em 1904
Reproduzida de A Fundação de Moçâmedes (Namibe), no Sul de Angola, por uma Colónia Vinda do Brasil (Ano de 1849)sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011
Os passeios no Tejo numa biografia literária de Soeiro Pereira Gomes
(...)Encontro-me na casa do Arquimedes [da Silva Santos], na Póvoa; depois de ter lido, em cópia, o discurso, peço e obtenho esclarecimentos: os passeios pelos montes atrás de Vila Franca a ler o Manifesto Comunista deram-se em 1941, depois de se ter constituído um Comité Regional das Juventudes Comunistas; o primeiro passeio de barco foi no Verão de 1941; antes de Junho de 1941 com Soeiro falavam mais em coisas literárias. O poeta continua a falar daqueles tempos e mostra-me fotografias antigas e, entre outras, uma do passeio de barco em que aparecem, além dele próprio, Pereira Gomes, Manuel Campos Lima, Rui Grácio, Cândida Ventura, Álvaro Cunhal, Dias Lourenço, Aniceto Monteiro, Piteira Santos, Guilherme Morgado...
A esses passeios refere-se Joaquim em duas cartas ao irmão Alfredo. Na de 3 de Junho de 1940 conta com entusiasmo:
Há tempos fui dar um belo passeio e lembrei-me de ti e do Jaime. Passeio de barco à vela. Vela vermelha e gente vermelha: malta do Diabo. Fomos almoçar às obras uma caldeirada à fragateiro. Cantou-se (que cantos!...) e conversou-se à vontadinha. Lembrança do Redol de quem sou agora muito amigo. Vou com ele até para férias em meados de Julho.
Os passeios no barco Liberdade de Jerónimo Tarrinca no Verão de 1941, de Alhandra e Vila Franca até ao local das Obras perto de Azambuja, um lugar aprazível e com praia fluvial para tomar banho e fazer piqueniques, ou apenas indo Tejo abaixo Tejo acima, com caldeiradas a bordo, eram, na realidade, momentos de alta escola política e partidária, como as excursões e visitas a museus e locais históricos, como as actividades culturais e desportivas nas colectividades, onde se processava aquela que António Dias Lourenço chama «uma mútua dádiva entre trabalhadores manuais do Baixo Ribatejo e a intelectualidade portuguesa mais avançada e progressista» (*). No Liberdade passearam o dr. Fernando Piteira Santos e o prof. Alfredo Pereira Gomes, o dr. Francisco Eduardo Pulido Valente e o eng. Correia Guedes, o dr. João Ferreira Marques e o prof. Bento de Jesus Caraça, Manuel da Fonseca Barraquinha, vilafranquense e responsável pelas caldeiradas, Cândida Ventura e o advogado Inácio Fiadeiro, o dr. Augusto Sá da Costa, o poeta e crítico Mário Dionísio, que lembra Soeiro a ler versos, e tantos outros.
Num desses passeios participa, convidado por Redol, Pedro Neto. No dia e na hora marcados, o jovem vai ao cais da Cimento Tejo e lá encontra Soeiro Pereira Gomes com uma pessoa desconhecida, que depois virá a saber ser Álvaro Cunhal. Com o barquito de um trabalhador da Fábrica, João Corneta, os três foram ao encontro do Liberdade, onde encontraram, entre outros, António Dias Lourenço, António Ramos de Almeida, Lopes-Graça e Bento de Jesus Caraça, que o chamou de lado para lhe perguntar sobre a organização das Juventudes Comunistas em Vila Franca. Pedro Neto responde que na sua opinião «o grupo dos jovens devia estar integrado diretamente na organização do partido».
Os jovens e a Federação das Juventudes Comunistas eram objectivos prioritários dos reorganizadores. Em Vila Franca, porém, já existia um grupo de moços ligados ao Alves Redol e ao António Dias Lourenço, que se interessavam por política e literatura. Eram eles, já o vimos há pouco, além de Pedro Neto e Arquimedes, Octávio Pato, António Tavares, António Lopes e Jorge Reis, que em 1941 publicavam um jornalzinho, escrito à mão, chamado Querer É Poder. Todos esses jovens, como já lembrou Arquimedes e como me repete Jorge Reis, que encontro em Cascais no mês de Abril de 1996, depois da invasão nazi da União Soviética de 22 de Junho de 1941, entram nas Juventudes Comunistas e começam a trabalhar a sério na militância partidária.
Para Pedro Neto, então, esses e os outros jovens deviam-se integrar no Partido para unir as forças, pois não tinha sentido haver, por exemplo, na fábrica Cimento Tejo, onde ele trabalhava, duas organizações comunistas: o partido, que certamente existia, e os jovens.
Até ao passeio no Liberdade, à excepção do episódio do pequeno manifesto de 1938, o relacionamento entre Soeiro e Pedro Neto tinha sido rigorosamente isento de interesse partidário e até político. «Só no Inverno de 1940 é que ele me fala levemente no Partido», lembra Pedro. «Então, o senhor sabe quando Joaquim ingressou no Partido?», pergunto. «Certeza só tenho depois do nosso encontro lá no Sobralinho, quando Soeiro já era responsável do Comité Local em Alhandra.» Aconteceu que a sugestão de Pedro Neto a Bento de Jesus Caraça tinha sido aceite. (...)
(...)
(*) Lourenço, António Dias, Vila Franca de Xira. Um Concelho no País, Edição da Câmara Municipal de Vila Franca de Xira, 1995, p. 160.
(Soeiro Pereira Gomes, Uma Biografia Literária, páginas 121-123)
terça-feira, 1 de fevereiro de 2011
«Já fiz o [busto de] Fréchet...»: carta de Abel Salazar a Celestino da Costa [de 1943?]

Busto de Maurice Fréchet feito por Abel Salazar (proveniente do gabinete de Zaluar Nunes)
Se cá vier tenha paciência, quero-lhe fazer um busto. Já fiz o Fréchet, que não saiu mau de todo. É destinado ao Centro de Estudos Matemáticos de Lisboa.
(...)
(Abel Salazar - 96 cartas a Celestino da Costa)
segunda-feira, 31 de janeiro de 2011
«O Aniceto Monteiro disse-me...»: carta de Abel Salazar a Celestino da Costa de 1942
Página 4 de uma carta de 1923. A caricatura, cujo autor é Abel Salazar, representa Celestino da Costa no Congresso de Lyon.Seja como for, este incidente [a demissão de Celestino da Costa do Instituto de Alta Cultura] veio pôr bruscamente em evidência as gerais simpatias dos nossos meios científicos pelo prof. Celestino, e o reconhecimento pela sua obra e serviços prestados. Não lhe falo como velho amigo, mas como simples observador, pois tenho notado com prazer este movimento de simpatia para com o prof. Celestino. Pelos informes do Ruy e do Corino sei o que se pensa em Lisboa: e todos esses informes revelam ao mesmo tempo a inquietação produzida pelo incidente e a atmosfera de simpatia que ele determinou a seu respeito. A justiça que lhe fazem amigos é menos impressionante do que a que lhe fazem indiferentes e até inimigos — mesmo aqueles que com razão ou sem razão — tinham qualquer razão de queixa da Alta Cultura.
O Aniceto Monteiro disse-me: — É o único homem que sabe ver as coisas e com quem a gente pode entender-se, e o Corino por seu turno tem afirmado por toda a parte: — Pense-se o que se quiser sobre o prof. Celestino, ele é, entre nós, o único homem indicado para aquele lugar. Cito estas afirmações porque elas definem bem a corrente geral.
De resto, como disse, o contraste entre a antiga e a moderna direcção da Alta Cultura é de tal calibre e tem feito tal impressão, que eu suponho que isto, tarde ou mais cedo, terá de sofrer um remendo... a não ser que tudo isto leve água no bico.
Em suma, saiu deste incidente com força moral aumentada e o seu nome mantém uma esperança. É já alguma coisa no meio deste descalabro moral que é a vida portuguesa.
(...)
(Abel Salazar - 96 cartas a Celestino da Costa)
*
[Em 1947] Foram compulsivamente afastados do ensino universitário, entre outros: Ruy Luís Gomes, Mário Silva, Celestino da Costa, Cândido de Oliveira, Pulido Valente, Fernando Fonseca, Adelino da Costa, Cascão de Ansiães, Torre de Assunção, Flávio Resende, Ferreira de Macedo, Peres de Carvalho, Marques da Silva, Zaluar Nunes, Rémy Freire, Crabée Rocha, Dias Amado, Manuel Valadares, Armando Gibert, Lopes Raimundo, Laureano Barros, José Morgado, Morbey Rodrigues. Quase todos eles (21 – número confirmado) foram afastados em 18 de Junho de 1947, ao abrigo do decreto 25 317. Foi o golpe fatal sobre o Movimento Científico.
Decreto-lei n.º 25:317, de 13 de Maio de 1935
domingo, 23 de janeiro de 2011
Relatórios do "informador habitual" da PIDE no Brasil




Os documentos aqui reproduzidos constam do Processo 558/67-SR, NP-3577 do Arquivo da PIDE/DGS, relativo a António Aniceto Monteiro, existente na Torre do Tombo (IAN/TT). 2. Importa chamar a atenção para o seguinte facto: é bem provável que, nos anos sessenta, a PIDE tivesse no Brasil, pelo menos, dois informadores, um dos quais mostrava "serviço" enviando relatórios falsos. Isto evidencia até que ponto há que ser prudente quando se examina um documento escrito. Não é objectivo deste blogue fazer a história da PIDE, dos seus informadores, dos seus agentes infiltrados, etc. Por esse motivo nada mais se adianta.
terça-feira, 18 de janeiro de 2011
José Ribeiro de Albuquerque (26 de Maio de 1910 - 10 de Dezembro de 1991)
Fotografia de um conjunto de matemáticos durante a visita de Maurice Fréchet a Lisboa
Fotografia tirada durante a visita do matemático francês Maurice Fréchet à Faculdade de Ciências de Lisboa (1942)
Fotografias tiradas durante a visita do matemático francês Maurice Fréchet à Faculdade de Ciências de Lisboa (1942)
quarta-feira, 12 de janeiro de 2011
Memórias do Capitão (no sul de Angola em 1915): A FERRO E FOGO (3)





João Sarmento Pimentel, Memórias do Capitão. Editorial Inova, Porto, 1974Este livro tem dois capítulos dedicados à guerra no sul de Angola: "O «Cabo Verde»" e "A ferro e fogo". Ambos se passam em 1915, o ano da morte do tenente Monteiro. [A propósito de Angola e António Aniceto Monteiro].
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Ver ainda:
Cartas de António Aniceto Monteiro sobre o início da Guerra Colonial em Angola há, exactamente, 50 anos.
Memórias do Capitão (no sul de Angola em 1915): A FERRO E FOGO (2)





João Sarmento Pimentel, Memórias do Capitão. Editorial Inova, Porto, 1974Este livro tem dois capítulos dedicados à guerra no sul de Angola: "O «Cabo Verde»" e "A ferro e fogo". Ambos se passam em 1915, o ano da morte do tenente Monteiro. [A propósito de Angola e António Aniceto Monteiro].
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Ver ainda:
Cartas de António Aniceto Monteiro sobre o início da Guerra Colonial em Angola há, exactamente, 50 anos.
Memórias do Capitão (no sul de Angola em 1915): A FERRO E FOGO (1)




João Sarmento Pimentel, Memórias do Capitão. Editorial Inova, Porto, 1974Este livro tem dois capítulos dedicados à guerra no sul de Angola: "O «Cabo Verde»" e "A ferro e fogo". Ambos se passam em 1915, o ano da morte do tenente Monteiro. [A propósito de Angola e António Aniceto Monteiro].
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Ver ainda:
Cartas de António Aniceto Monteiro sobre o início da Guerra Colonial em Angola há, exactamente, 50 anos.
Memórias do Capitão (no sul de Angola em 1915): O «CABO VERDE»





João Sarmento Pimentel, Memórias do Capitão. Editorial Inova, Porto, 1974Este livro tem dois capítulos dedicados à guerra no sul de Angola: "O «Cabo Verde»" e "A ferro e fogo". Ambos se passam em 1915, o ano da morte do tenente Monteiro. [A propósito de Angola e António Aniceto Monteiro].
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Ver ainda:
Cartas de António Aniceto Monteiro sobre o início da Guerra Colonial em Angola há, exactamente, 50 anos.
sábado, 1 de janeiro de 2011
Hugo Ribeiro e Pilar Ribeiro
Hugo Ribeiro (16 de Maio de 1910 - 26 de Fevereiro de 1988) e Pilar Ribeiro (5 de Outubro de 1911)na The Pennsylvania State University (cerca de 1970)
HUGO BAPTISTA RIBEIRO malemático portugués que só pôde ensinar numa Universidade portuguesa depois do 25 de Abril, Bol. Soc. Port. Mat. 12 (1989), 31–42, por José Morgado (PDF)
José Cardoso Morgado: Hugo Baptista Ribeiro matemático português que só pôde ensinar numa Universidade portuguesa depois do 25 de Abril (blogue José Cardoso Morgado)
Com efeito, em Junho de 1942, tinha-se realizado na Faculdade de Ciências do Porto o Congresso Luso – Espanhol para o Progresso das Ciências e tínhamos assistido à secção em que Hugo Ribeiro apresentou a sua comunicação. Tratava-se de alguns resultados que obtivera, em colaboração com António Aniceto Monteiro, sobre operadores de fecho em Sistemas Parcialmente Ordenados, resultado que foram depois publicados na revista Portugaliae Mathematica. (vol.3 (1942), pp 177 – 184).
Amigo e colaborador de António Aniceto Monteiro, sempre Hugo Ribeiro apoiou activamente as suas iniciativas no sentido de despertar o interesse dos jovens pela Matemática e fomentar o gosto pela investigação, nomeadamente as iniciativas que conduziram à criação das revistas Gazeta de Matemática e Portugaliae Mathematica, à fundação do Centro de Estudos Matemáticos de Lisboa e da Sociedade Portuguesa de Matemática.
A Gazeta de Matemática, jornal especialmente destinado a melhorar a preparação matemática dos estudantes, foi fundada em 1940, por António Monteiro, Bento Caraça, Hugo Ribeiro, José da Silva Paulo e Manuel Zaluar Nunes.
(...)
O penúltimo artigo que Hugo Ribeiro publicou na Portugaliae foi incluído no vol. 39 (1980), dedicado à memória de António Monteiro, falecido em 29 de Outubro de 1980, em Bahia Blanca (Argentina). O artigo intitula-se “Actuação de António Aniceto Monteiro em Lisboa entre 1939 e 1942” e é bem um testemunho da amizade e admiração que sempre teve por Aniceto Monteiro.
(...)
[Nota: Este artigo contém mais referências a António Aniceto Monteiro]
THE MATHEMATICIAN HUGO RIBEIRO, by Jorge Almeida. PORTUGALIAE MATHEMATICA, Vol. 52 Fasc. 1, 1995
[Nota: Este artigo contém várias referências a António Aniceto Monteiro, claro]
Maria do Pilar Ribeiro
A guerra no sul de Angola em 1915 (2)
A grande dificuldade em obter elementos necessários para uma conveniente linha de étapes através dos distritos de Mossamedes e Huila levou-me a nem sequer poder pensar em estabelecer uma outra linha baseada no caminho de ferro de Benguela e que com aquela cooperasse, pois mesmo só para a linha que estabeleci, tive que lançar mão das praças do batalhão de infantaria 14 que ainda estavam em estado de fazer serviço e tive que mandar ir de Loanda uma bateria de artilharia 3 e a companhia de infantaria 20, sendo as duas primeiras completamente desfeitas bem como a bateria de artilharia 2 que estava em Mossamedes e uma outra bateria de montanha que se encontrava na Chibia.
A organisação da linha de étapes foi estabelecida segundo a proposta do director do serviço de étapes levemente modificada e o seu funcionamento consta dos relatórios do mesmo director e do seu chefe do estado maior.
Tendo recebido comunicações, ainda que vagas, que assinalavam a presença de alemães no nosso posto abandonado do Cuangar, com tendência a internarem-se pelo vale do Cubango, resolvi reforçar as tropas da região de Cassinga e assim criei um destacamento com o fim de vigiar o referido vale, destacamento cujo comando dei ao major de Infantaria Reis e Silva, que recebeu as devidas instruções.
Durante esta minha primeira estada em Mossamedes, foram-se sucessivamente montando os diferentes serviços para o que fiz publicar o seguinte:
Instruções para o serviço telegráfico.
Instruções para o serviço postal.
Instruções para a contabilidade e fiscalisação.
Instruções para o serviço dos depósitos de fardamento e subsistencias.
Instruções para o serviço do rebanho de abastecimento e parque de rezes.
Instruções para o serviço das padarias.
Nesta altura teve lugar o primeiro contacto das forças do meu comando com o gentio revoltado, contacto efectuado pelas nossas tropas avançadas que se encontravam no Tchicusse, sob o comando do 1º tenente Cerqueira, e que a pedido instante do superior da missão de Tchipelongo foram em socorro da mesma, inflingindo uma severa lição ao gentio, e portando-se com uma valentia que bem mostrou quanto tinha a esperar dessas belas tropas (batalhão de marinha e 15ª companhia indígena de Moçambique) que mais tarde nos combates de Mongua tão brilhantemente se houveram. O que foi esta primeira entrada em operações, não prevista, muito bem o diz o relatório do lº tenente Cerqueira. Também por essa ocasião eu estava já ilucidado sobre a situação além Cunene, relativamente aos alemães, pois tinha recebido relatórios de reconhecimentos que confirmavam a sua ausência da: proximidades de Naulila e de toda a fronteira de ali para o Sul.
Para haver a menor perda de tempo na realisação de todas as medidas tendentes à aceleração da entrada em operações, combinei com o chefe do estado maio o seguinte:
Ficar ele em Mossamedes a ultimar a mobilisação das unidades ali estacionadas para providenciar sobre o desembarque das novas locomotivas e dos automóveis e para pôr as primeiras a trabalhar e os segundos em marcha para o Lubango, e ir eu para esta localidade, acompanhado pelo sub-chefe do estado maior e por um dos meus ajudantes, para aí activar tudo o que respeitava ás linhas de étapes, na direcção de Cassinga e do Cunene, e á preparação do avanço para o Humbe de parte das forças estacionadas no planalto, afim de ali se estabelecer a base das operações a efectuar alem Cunene.
Fiz avançar para os Gambos o batalhão de infantaria 17 e a bateria de metralhadoras, que estava na Chibia, e para o Tchiepépe o esquadrão de cavalaria 11, que estava na Humpata: forneci ao batalhão de marinha e á 15ª companhia indigena de Moçambique o que careciam para poderem avançar e constitui o destacamento destinado à reocupação do Humbe e tendo-me o chefe do estado maior telegrafado participando que duas novas locomotivas já trabalhavam e que se estava a ultimar a montagem da terceira, a maior, estando ao mesmo tempo em caminho de Lubango os 70 camions desembarcados no dia 19 de Junho em Mossamedes (os outros 10 já tinham dias antes chegado a Lubango) telegrafei-lhe por minha vez dizendo que marchasse a juntar-se-me nos Oambos, para iniciarmos o avanço para o Humbe. Tendo ele ali chegado a 3 de Julho, imediatamente partimos, em automóvel, para o Tchecusse, onde o destacamento destinado a recuperar o Humbe já estava concentrado. Este destacamento era comandado pelo coronel Veríssimo de Sousa, que tinha como chefe do estado maior, o capitão de artilharia, com o curso do estado maior, José Esteves de Mascarenhas. Um outro destacamento constituído apenas por parte dos esquadrões de cavalaria nº 9 e 11 e pelos auxiliares boers, comandado pelo major Vieira da Rocha, saiu na mesma ocasião dos Gambos igualmente com destino ao Humbe, mas devendo marchar pelo Otchinjau e Dongoêna para bater esta ultima região. Havendo toda a conveniência em estabelecer comunicações directas entre os Gambos e o Mulondo, encarreguei o capitão Roby, meu oficial ás ordens, de realisar o reconhecimento dos caminhos entre essas localidades, tendo esse oficial iniciado a marcha no dia 3 de Julho.
II
Execução das Operações
O destacamento destinado á reocupação do Humbe, conseguiu alcançar o seu objectivo no dia 7 de Julho, ás 14 horas, sem ter encontrado a menor resistência por parte do gentio, mas lutando com grandes dificuldades em agua, pois as cacimbas que se encontravam ao longo do Caculovar estavam quasi completamente secas. Momentos depois do destacamento do comando do coronel Veríssimo chegar ao Humbe, ahi chegou íambem o destacamento comandado pelo major Vieira da Rocha, o qual conseguiu raziar a região que percorreu sem nenhuma entrave.
A residência do Humbe, a fortaleza e as suas casas dos comerciantes, eram encontradas incendiadas, tendo o incêndio tido lugar por ocasião da retirada de Naulila. Acampadas as tropas no Humbe, no terreno com-prehendido entre a fortaleza, principiaram as apresenções de gentio, notando-se porem que este se fazia representar quási exclusivamente por velhos, mulheres e crianças (todos com aspecto esquelético). Os homens válidos tinham passado o Cunene, procurando refugio no Cuamato e no Cuanhama.
No dia 9 fui, com o chefe do estado maior e outros oficiais do meu quartel general, reconhecer o Cunene, junto do forte Roçadas, e verifiquei que este forte também fora incendiado, encontrando-se nele apenas alguns leitos de ferro em estado de se aproveitarem. Demorei-me no Humbe até ao dia 11 e as informações que ali colhi sobre os alemães, e os indígenas eram, quanto aos primeiros, que a sua presença junto á fronteira só se assinalava para os lados do Cuangar, e quanto aos segundos, que se mantinham na espectativa, nada dispostos a apresentarem-se e, pelo contrario, resolvidos a oporem-se á nossa marcha alem Cunene. Sendo necessário activar o mais possível a concentração no Humbe do grosso das forças do meu comando, e tendo eu reconhecido que a simples acção da minha presença muitas dificuldades fazia desaparecer, resolvi voltar ao Lubango para fazer completar os preparativos para a marcha das unidades que ainda se encontravam no planalto, mas, como ao mesmo tempo era necessário completar a organização da base de operações, no Humbe, fazer reconhecimentos no Cunene e consolidar as posições, contra qualquer tentativa de agressão ás tropas já ai estacionadas, por parte dos alemães ou do gentio, ou de ambos os inimigos, julguei conveniente, durante a minha curta ausência, encarregar da orientação directa desses trabalhos o meu chefe de estado maior, que por isso ali deixei, acornnhado de um dos meus ajudantes e de um adjunta do meu Quartel General.
Recebi no Lubango o telegrama participando que os alemães da Damaraland se tinham rendido ao general Botha e com verdade deve dizer-se que foi esta a noticia mais desagradável que em toda a campanha me chegou. Mas como o homem põe e Deus dispõe, necessário era adaptar-me à nova situação, encará-la tal como os factos a apresentavam e tomar imediatamente as medidas correlativas. Ficava só em campo o gentio, tinha-se portanto simplificado a minha tarefa, mas nem por isso ela tinha ficado, como à primeira vista poderá parecer, uma tarefa fácil.
O gentio revoltado era aguerrido e muito numeroso (Cuanhama, Cuamato, Evale, alguns Cuanbis, e foragidos do Humbe e Dongoêna), segundo dados colhidos em autoridades, como Eduardo Costa e João de Almeida, e as informações por mim obtidas, o seu efectivo total deveria orçar por uns oitenta a cem mil combatentes e era necessário ter em conta que tinham o moral muito levantado pela retirada das nossas forças após os acontecimentos de Naulila, e tinham sido em grande parte instruídos pelos alemães, dando-se ainda a circunstancia de à frente da coligação se encontrarem os Cuanhamas, que nunca tinham sofrido o nosso dominio e cujo estado de civilisação já era, segundo todas as fontes de informação, muito apreciável.
A missão que tinha neste momento a efectuar era portanto a ocupação do Cuanhama e a reocupação de todo o outro território de alem Cunene que tinha sido abandonado, e que representava uma área enorme a submeter simultânea e rapidamente, por isso que havia necessidade de ter as operações terminadas no inicio das chuvas (fins de Setembro) afim de não correr o risco de ficar com as estradas intransitáveis, e havia igualmente necessidade de encurtar o mais possível a permanência alem Cunene de grandes efectivos que a importância da coligação gentílica e a necessidade de simultaneidade de acção exigia, porque a deficiência dos meios rápidos de transporte não permitia alimentar esses efectivos a tão grande distancia do litoral (600 kilometros) senão o tempo indispensável para quebrar a resistência ao adversário, ficando depois das regiões batidas só as tropas indispensáveis para a sua occupação.
Como. a rendição dos alemães tornava desnecessária uma forte observação no Vale do Cubango, ficava-me disponível o destacamento de Cassinga; do comando do major Reis e Silva, e por isso concebi o seguinte projecto de operações que depois executei. Esse destacamento retrocederia para o Capelongo: desceria o Cunene até ao Mulondo e aí aguardaria ordem para oportunamente seguir até ao Caiu e ir reocupar o Évale; e com as restantes forças a concentrar no Humbe, eu constituiria mais três destacamentos: um bastante forte, para ocupar o Cuanhama; outro um pouco mais fraco, para reocupar o Cuamato, e outro ainda mais fraco para reocupar o Dongoêna, Naulila e vigiar as passagens do Cunene, dali até ás cataratas de Ruacana. Poderá parecer uma incoerência que, tendo eu no meu primeiro projecto de operações, apresentado em Lisboa a Sua Exª o Ministro das Colónias, em vista proceder com as forças do meu comando o mais concentradas possível, agora as divida por quatro destacamentos, porem tal incoerência não existe, porque na guerra é preciso adaptar sempre a nossa conduta ás circunstancias e estas muito tinham variado.
Esse primeiro projecto de operações era para opor a alemães e portanto, visava a que, por forma alguma nos viéssemos a chocar com eles sem termos uma garantida superioridade numérica: ao passo que o que eu ia de facto executar era contra indígenas, cujo valor guerreiro, apesar de considerável, se não deixa comparar com os alemães, e contra indígenas que pelos motivos atraz apontados, tinham de ser rapidamente batidos, e essa rapidez só com simultaneidade de acção se podia obter, simultaneidade que tinha ainda como consequência muito valiosa o evitar a acção em massa do indígena, pois cada qual trataria, sem duvida de defender o seu território logo que o visse atacado. Alem disso apesar da ausência da telegrafia sem fios, por mim tão insistentemente pedida e que preciosos serviços prestaria na ligação dos destacamentos, estes, dada a distancia a que operariam uns dos outros, poderiam dar-se a mão, em caso de necessidade.
Mas a amentar as dificuldades da minha tarefa ainda havia a circunstancia muito ambaraçosa de eu, tendo carros alentejanos e muares bastantes para dotar as unidades com os transportes indispensáveis para uma marcha em boas condições, ter de reduzir o mais possível o numero de carros e ter, de em vez das duas parelhas por carro que a natureza arenosa do terreno exigia, destinar-lhe apenas uma parelha, visto a impossibilidade de transportar agua e forragens para tanto gado, pois a região a atravessar não tinha água nem capim e os camions mal chegarem para o transporte de viveres e água para o pessoal. São evidentes as dificuldades que resultariam de aumento de pessoal e gado.
(...)
A Campanha do Sul de Angola, Página 103Nota:
«O pai de António Aniceto Monteiro chamava-se António Ribeiro Monteiro e era alferes de infantaria quando, em 4 de Julho de 1905, foi requisitado para desempenhar uma comisão de serviço dependente do Ministério da Marinha e Ultramar na construção do caminho de ferro de Mossâmedes. Dois dias depois, na Paróquia dos Anjos, casou com Maria Joana Lino Figueiredo da Silva, “tendo sido dispensados dos proclamas por provisão de Exmo. Prelado” [AAM-CM] datada da véspera. No dia seguinte ao casamento, António Ribeiro Monteiro embarcou para Angola. Dez anos depois, dia por dia, a 7 de Julho de 1915, na sua casa de Mossâmedes, na rua dos Pescadores, morreu de doença, contraída durante operações militares resultantes da guerra no sul de Angola. Era então tenente de infantaria e deixou Maria Joana viúva e órfãos os dois filhos, Maria Petronila e António Aniceto, de nove e oito anos, respectivamente.»
sexta-feira, 31 de dezembro de 2010
A guerra no sul de Angola em 1915 (1)
Foi num dos primeiros dias do mês de Fevereiro de 1915 que sua Ex.ª o General Pimenta de Castro, Ministro da Guerra e presidente do Governo, me fez o convite para assumir o comando das tropas expedicionárias ao Sul de Angola. Nessa ocasião Sua Ex.ª mostrou-me ser conveniente que, com este comando, acumulasse o cargo de Governador Geral da província.
Se é certo que as funções de comando no ultramar, onde os recursos escasseiam e as necessidades das tropas mais se acentuam, são suficientes para absorverem todas as atenções de quem as exerce, certo é também que, para que esse comando se possa efectuar com os menores atritos e a máxima utilidade, é muito vantajoso que não tenha a sua acção limitada ao campo puramente militar, e pelo contrario, ela se estenda a tudo o que possa interessar ás operações, o que se pôde conseguir fazendo convergir, na mesma pessoa as respon-sabilidades de comando e as responsabilidades governativas.
Assim o têm demonstrado todas as grandes campanhas coloniaes.
Foi por isto, e só por isto, que resolvi aceitar a.acumulação do governo da província de Angola com o comando superior das forças que nela iam operar. Assente pelo governo da Republica que eu me encarregasse da honrosa missão para que me convidou, nas condições que deixo expostas, eu, por minha vez, convidei para meu chefe de estado-maior o major de infantaria, com o curso do estado maior, João Ortigão Peres, lente do referido curso da Escola de Guerra.
Este oficial, com uma verdadeira isenção, com o seu patriotismo, e com a sua dedicação pessoal por mim, aceitou o meu convite, aceitação que Sua Ex.ª o Ministro da Guerra tornou efectiva, nomeando-o para o referido cargo. O primeiro trabalho a que procedemos foi à leitura de toda a correspondência trocada entre o Ministro das Colónias, o Governador Geral da Província, e o então comandante das forças expedicionárias, sr. tenente coronel do serviço do estado maior, Alves Roçadas, afim de ajuizarmos da situação.
Essa leitura levou-me às seguintes conclusões :
1º — Que a acção das forças da Damaraland no combate de Naulila não foi uma acção a fundo, pois não tendo elas efectuado a perseguição das nossas, pouco tempo depois se afastaram da fronteira.
(cortado pela censura)
2º — Que o resultado do combate de Naulila, conjunctamente com a intensa propaganda desde longa data efetuada pelos alemães e com a retirada das nossas forças, teve como consequência natural a rebelião, formal ou latente, de todo o gentio de além Cunene e da região do Humbe.
3º — Que pelas diversas e grandes requisições feitas pelo Governador Geral de Angola e pelo tenente coronel Alves Roçadas se verificava a existência de grandes dificuldades com que se lutava para pôr as tropas enviadas para o Sul de Angola em estado de executarem as operações, dificuldades principalmente derivadas da não existência de uma conveniente linha de étapes, do facto de os grandes reforços para ali enviados, depois, dos acontecimentos de Naulila, não terem sido precedidos, ou pelo menos acompanhados, de tudo quanto era necessário para a sua pronta entrada em acção, e ainda da circunstancia das funções de comando e as funções de Governo não estarem concentradas na mesma pessoa, o que, apesar de exercidas ambas por dois ofíciaes muito distínctos e patriotas, não pôde deixar de traduzir-se em falta de unidade de acção e em perda de tempo.
As duas primeiras conclusões constituíram a base do projecto de operações que apresentei a S. Ex.a o Ministro das Colónias e que foi aprovado com uma ligeira restrição.
A 3ª conclusão forneceu-me elementos para fazer as requisições que julguei necessárias para colocarem as forças do meu comando em condições de realísarem o esforço que lhes havia de exigir, devendo notar que, neste ponto, a leitura da correspondência não me desvendou completamente as dificuldades da situação, que só em Mossamedes pôde bem conhecer.
Uma questão de.alta importância me devia merecer também todo o cuidado, era a questão política internacional, e por isso procurei S. Ex.ª o Ministro dos Negócios Estrangeiros e lhe pedi os necessários esclarecimentos.
A nossa beligerância não estava nitidamente declarada; é certo que tinha havido um ataque efectuado pelas forças da Damaralandia aos nossos postos e às nossas forças, mas era duvidoso se aquelas forças eram regulares e se tinham procedido de motu-proprio, constituindo a sua acção um simples incidente de fronteira, ou se pelo contrario, tinham cumprido ordens do Governo local, ou até do Governo da Metrópole. Também se dizia que o Governo da União da África do Sul tinha encarregado o General Botha de invadir a Damaraland e muito importava saber se este facto se confirmava. Tudo isto se apresentava ao meu espirito por uma forma pouco definida e exigia que me fossem fornecidos dados precisos que me indicassem uma maneira de proceder nítida, clara e franca; doutro modo a acção das forças do meu comando podia vir a exercer-se por forma inconveniente, tanto sob o ponto de vista militar como sob o ponto de vista político.
O certo é que nenhuns esclarecimentos consegui obter de Sua Ex.ª e que parti orientado apenas pelo facto de ter sido aprovado o meu projecto de operações com a restrição a que já me referi e firmemente resolvido a não perder a menor oportunidade de desagravar o mais amplamente possível a honra nacional.
Seja-me permitido registar que a diplomacia portuguesa, sendo, por vezes, de uma indescrição surpreendente, é, noutras ocasiões, de uma reserva tão impenetrável que torna a sua acção inútil para quem nela precisa orientar a sua conducta.
Da leitura dos documentos existentes no Ministério das Colónias e do estudo das cartas do sul de Angola e da Damaraland, poude eu ainda em Lisboa, fazer uma ideia, tão aproximada quanto possível, da situação criada pelos acontecimentos de Naulila e portanto da tarefa que me cumpria realisar, e nela baseei como disse, o meu projecto de operações, em que quaisquer que fossem as modificações a introduzir-lhe in loco, em harmonia com o conhecimento mais directo dessa situação tinha que dominar, como fim geral a atingir, a preocupação de se reocupar o território abandonado ao gentio, ocupar a região do Cuanhama, que sendo nossa in nomine nunca tinha sofrido de facto o nosso domínio e se encontrava desde longa data muito trabalhada .pelos alemães da Damaraland, e principalmente castigar a afronta sofrida em Naulila, recebendo condignamente os alemães se eles tornassem ao nosso território, ou passando as nossas tropas a fronteira, para os atingir onde mais conviesse, prestando, em qualquer dos casos, um muito valioso concurso aos nossos aliados da África do Sul.
Tanto do exame das cartas, como do conhecimento de trabalhos de valor executados por distintos oficiais como, por exemplo, os de Eduardo Costa, Alves Roçadas, Eduardo Marques, e João de Almeida, eu concluí que tinha de escolher para base de operações o Humbe, que pela sua situação estratégica, para tal fim se impunha, pois, encontrando-se coberta pela linha defensiva do Cunene, está ao mesmo tempo, no centro das comunicações, que do planalto de Mossamedes se dirigem para o Evale, Cuanhama, Cuamato, Dongoêna, e portanto nas melhores condições para dali se proceder à submissão do gentio revoltado, e pela sua conveniente distancia à fronteira, para aí se basearem operações, quer ofensivas, quer defensivas, contra os alemães.
Nessa, região devia eu portanto fazer a concentração do grosso das minhas forças, mas impunha-se-me também a obrigação de ter devidamente observada a linha de penetração que do posto de Cuangar se estende pelo vale do Cubango em direcção ao posto A, para daí se dirigir por Cassinga ao planalto de Mossamedes ou internar-se no distrito de Benguela e a linha que do Cunene mais directamente se encaminha para o referido planalto, isto é, a linha Otchinjau-Pocolo-Chibia-Lubango.
Certo era que tudo indicava que no caso de nova incursão alemã, por qualquer destas linhas só se poderia esperar ligeiras demonstrações, para nos obrigagarem a dividir as nossas forças, visto as duas primeiras linhas serem muito extensas, excêntricas e em que o inimigo quanto mais se internasse mais perigos correria, e a terceira atravessar terreno difícil e ser facilmente cortada por qualquer movimento de flanco executado peias tropas que se deslocassem do Humbe, ou de qualquer outro ponto conveniente da linha que liga esta região com o planalto de Mossamedes.
O que era porem incontestável era a necessidade de fazer ampliar no Humbe as operações dum efectivo que não deveria ser inferior a uns 6 a 7.000 homens e uns 3.000 solipedes, para o que se tornava necessário prover o estabelecimento de uma solida linha de étapes de uns 600 kilometros de extensão, e a necessidade de igualmente ter tropas nas linhas de Cubango de Otchinjau-Pocolo, de muito menor efectivo, mas exigindo também a montagem de linhas secundárias de étapes com menores recursos, mas sendo a do Cubango ainda mais extensa que a linha principal.
Todas estas considerações acrescidas com o conhe-mento de que nos últimos 4 anos tinha havido grande falta de chuvas no sul de Angola, portanto aí dominava a fome, me levaram a mesmo aqui em Lisboa, considerar como questão capital para a honrosa, mas difícil missão que me fora confiada, a dos abastecimentos e dos respectivos transportes, devendo estes últimos ser o mais rápido possível porque a estreiteza de tempo que se tinha para realizar as operações, derivada da pressão inglesa exercida na Damaraland, que naturalmente atiraria com os alemães, para a nossa fronteira, e da necessidade de dar ás mesmas operações a maior amplitude antes do começo das chuvas (fins de setembro) assim o exigia. Por isso perfilhei todas as requisições de viveres e transportes que se encontravam no Ministério das Colónias ainda por satisfazer, completei-as como julguei conveniente, reservando-me para, de Angola, as modificar, se o entendesse necessário, insisti pela aquisição imediata de 80 camions automóveis e 750 carros alentejanos, requisitados com urgência pelo Governador Geral, Norton de Matos, exigi que, partindo eu em 5 de Março tivesse em Mossamedes em l de Abril, viveres para 4 meses e metade dos transportes requisitados e em l de Maio viveres para 6 meses e a totalidade desses transportes, tencionando montar devidamente as linhas de étapes logo que chegasse, a Mossamedes, Principiaria em Abril a escalonar os víveres pelos respectivos postos, completaria em Maio o abastecimento dos depósitos principaes de Lubango, Gambo e Humbe e no fim desse mês, ou princípios de Junho, poderia iniciar as operações de Alem-Cunene com todo o desembaraço.
Infelizmente as promessas feitas de cumprimento destas exigências não foram cumpridas com o rigor e a pontualidade requeridas, apesar da minha constante insistência, e daí resultaram as dificuldades com que lutei durante toda a minha estada em Angola e que no decurso deste relatório resaltarão!
Tendo embarcado no África em 5 de Março, desembarquei em Loanda em 21 desse mês, tendo assumido, neste mesmo dia, o Governo da província, imediatamente principiei a ocupar-me com o maior ardor de tudo o que interessava as operações e ali podia tratar pensando contudo em prolongar o menos possível a minha estada nessa cidade; porque estava verdadeiramente ansioso de seguir para o Sul, afim de poder de visu conhecer a situação. Não foi porem de pouca utilidade a minha demora em Loanda.
Da troca de impressões com o secretário geral e com os governadores dos distritos do Congo e Lunda, colhi a confirmação de que os acontecimentos de Naulila tinham tido a natural repercursão não só no gentio do sul mas também no de toda a província que, por numerosos indícios, revelava mais ou menos declaradamente o seu espirito de rebelião, o que me levou a recomendar a esses governadores, e depois por escrito, a todos os dos outros distritos, que procurassem comtemporisar e fazer face a qualquer manifestação mais evidente da rebeldia com os recursos próprios, que o reflexo dos futuros acontecimentos do sul muito contribuiriam para o restabelecimento da quietação em toda a província. Da revista que passei ás tropas estacionadas em Loanda (1 bateria de artilharia de montanha e 1 companhia de infantaria 20) e da forma como as vi realisar vários exercícios colhi as melhores impressões, a respeito do seu aprumo, disciplina e instrução.
(...)
Pereira de Eça, Campanha do Sul de Angola em 1915. Lisboa, Imprensa Nacional, 1921 (109 páginas). O fragmento aqui reproduzido é das páginas 57-63.
quinta-feira, 30 de dezembro de 2010
A guerra no sul de Angola em 1914 (2)
A crítica condena, por todas as razões, a dispersão das poucas forças expedicionárias de que se dispunha, por pontos longínquos em relação ao Cunene.
O facto é tanto mais estranho quanto é certo que a decisão de mandar para o Pocolo a divisão de artilharia e para Ediva-Otchinjau-Otchitoto a 11ª companhia do B.I.14, foi tomada já em face da missão que nos propúnhamos realizar — opor-se aos Alemães no Cunene.
E desde que íamos para o Cunene, mandava a lógica que não nos enfraquecêssemos, por este lado, de um quarto de infantaria e metade da artilharia expedicionárias. Ficaria no Pocolo a protecção habitual que já lá estava, isto é, a lª companhia europeia de infantaria de Angola, com um dos seus pelotões em Otchinjau, e mais nada. Que solução milagrosa ia levar ao Pocolo uma divisão de artilharia, à custa da inutilização da única bateria que se tinha digna deste nome?
Porque a dispersão de forças à última hora, sem o mais leve factor novo de decisão que levasse a considerar o avanço de forças alemãs, de importância ou não, pelo lado Otchinjau-Pocolo?
Perante a situação que se lhe apresentava e em face dos diminutos meios de acção de que dispunha, o comandante teria a tomar uma resolução geral definitiva, acto essencial da sua vontade, sobre a forma de conduzir e empregar o pequeno agrupamento expedicionário, sabendo o que queria, como queria e por que queria.
O chefe não tinha que aguardar indefinidamente uma última palavra sobre a situação para traçar a conduta geral de emprego do referido agrupamento. Disse Clausewitz: «A guerra é o campo das incertezas». Esperar, para adoptar uma decisão de ordem geral, que todas se dissipem, é arriscar-se a um fatal e nocivo atardamento.
No sul de Angola, a situação de contacto com a Damaralândia deu lugar a preocupações levando a curiosos voos de imaginação.
Pessoas chegavam a ver colunas de Alemães a invadirem o território, através do Baixo Cunene, em várias direcções, após marcha de centenas de quilómetros por precárias vias de comunicação, em travessia rápida das estepas sem fim do norte da Damara, queimadas pelo sol ardente do deserto Namib e áreas kalaharianas, a caminho do planalto ou caindo sobre Moçâmedes!
Arquitectavam, com uma facilidade admirável, disparatados raids à Jameson ou mesmo golpes da natureza dos que mais tarde Von Lettow Vorbeck levou a efeito na África Oriental, noutras condições totalmente diferentes.
Fez-se realizar por competentes oficiais — o capitão Albano de Melo e tenente António Ribeiro Monteiro — o reconhecimento militar do Baixo Coroca, no litoral atlântico, bem como o estudo do acesso possível de forças, invasoras às regiões do Otchinjau através dos contrafortes, da Chela e, em sentido inverso, da viabilidade de uma corrente desembocada do Swartboy Drift ir despenhar-se pelos desfiladeiros da serra, a caminho de Porto Alexandre e Moçâmedes.
E no seu novo plano (1), em face da situação resultante do incidente de Naulila, prescreve o comandante das F.O.:
«Estabelecimento de uma linha (?) de defesa fixa que compreende o triângulo Moçâmedes-Porto Alexandre-Coroca, no litoral, e Chibia-Pocolo-Gambos ou Ediva, no planalto».
Por outro lado, a oeste da Chela, toma vulto uma certa confusão, em que vemos envolvidos, aquele comandante, o governador de Moçâmedes. e o governo geral.
Porque interessa ao nosso estudo, vamos referir os traços principais de algumas das muitas directivas e comunicações que foram trocadas entre as três entidades e que traduzem o ambiente.
Do comandante das F.O. para o governador de Moçâmedes :
«...O serviço de vigilância convém seja estabelecido sobretudo na direcção da foz do Cunene, na do vale do Coroca e na do vale do Béro» (2).
O governador-geral faz transmitir ao governador de Moçâmedes:
«Referência nota 133, de 19; Geral recomendar defesa especialmente Moçâmedes, caminho de ferro e vias acesso este para planalto. Não concordar estabelecer postos Popochiva e Damba Carneiros evitar dispersão forças. Proximidades Porto Alexandre deve ficar força cavaleiros explorando caminhos Papochiva, Damba Carneiros. Estação telegráfica Porto Alexandre deve ser ocupada militarmente. Caso ataque forças superiores, deve abandonar Porto Alexandre avisando telégrafo Moçâmedes. Auxiliares montados possa obter, duas patrulhas oficial existentes, além um corpo de camelos que deve ser constituído desde já aproveitando os existentes, vigiarão caminhos» (3).
O governador de Moçâmedes encarrega o tenente António Ribeiro Monteiro (4) de, conciliando as directrizes recebidas do comandante das F.O. e do governador-geral, realizar o dispositivo de defesa de aí resultante, que vem a, ser:
Ocupar militarmente a estação telegráfica de Porto Alexandre, a qual deveria ser abandonada e prevenido o governador de Moçâmedes telegràficameute, no caso de ataque por forças superiores (não se lhe diz como, nem por onde se faria a evacuação em tal caso); e bem assim montar a exploração dos caminhos de Popochiva e da Damba dos Carneiros, coordenada com uma vigilância afastada no rio dos Elefantes e na Damba das Víboras (aqui por iniciativa do tenente Monteiro), confluências do Cunene.
O comandante das F.O. não simplifica, dirigindo ao governador de Moçâmedes o seguinte telegrama:
«Julgo indispensável organização posto Coroca no local indicado brigada reconhecimentos, um dos itinerários atribuídos Alemães é: vau Erikson Drift-Foz dos Elefantes-Otchiqueque-Popochiva-Porto Alexandre» (5).
O governador de Mocâmedes encarrega o tenente Francisco Maria Rodrigues, comandante do destacamento da 2ª companhia europeia, da defesa próxima de Mocâmedes contra o avanço de forças inimigas pela estrada Chacuto-Moçâmedes, pelo vale do Béro ou pelo caminho de Porto Alexandre.
«Para qualquer dos casos, não dispondo de forças algumas, só pode V. Ex.ª contar com os auxiliares e voluntários, habitantes de Moçâmedes, que de antemão tenha preparado e combinado para em caso de necessidade se reunirem e marcharem para guarnecer qualquer dos postos avançados.
«Deve para isso V. Ex.ª, com urgência, percorrer o rio Béro para além da fazenda do agricultor Torres e escolher a posição adequada para a construção dum entrincheiramento improvisado, simples, e seguidamente proceder da mesma forma para a defesa do vale do Giraul, para o caso de ataque de forças vindas de Porto Alexandre. Para poder armar o maior número possível de voluntários, fica V. Ex.a autorizado a fazer recolher todas as espingardas aperfeiçoadas dos particulares e distribuí-las a auxiliares que se ofereçam, quando os seus donos não possam prestar serviço. De igual forma procederá V. Ex.ª quanto ao armamento existente na 4ª Companhia de Depósito, contando contudo com o indispensável para as praças impedidas nos diversos serviços» (6).
O mesmo governador encarrega ainda o alferes António Henriques da
«defesa da linha férrea de Moçâmedes a Vila Arriaga e do estabelecimento de comunicações para o sul da mesma linha (?) até aos Cubais. A defesa da linha férrea será feita com dois postos...» (7).
Não fatigamos mais o leitor. Basta o que acabamos de ler para avaliar o lamentável ambiente que a visão exagerada e infundada de forças alemãs chegou a gerar em Moçâmedes.
O governador, em face das directivas, por vezes discordantes, que recebe do comandante da expedição e do governo-geral, patenteia a sua confusão e mesmo inquietação nas ordens dadas e nas comunicações para estas entidades dando conta do que fez e do que vai fazer.
Colocado entre o comandante das F.O. e o governador-geral, preso do receio de uma ofensiva alemã, não dispondo, porém, de tropas para realizar medidas de defesa, o governador de Moçâmedes foi, certamente, das três entidades, a de mais difícil situação.
Quem conhece as terríveis condições que o deserto ditava a um avanço de forças invasoras pela faixa litoral, assim como os riscos que correria o inimigo que deixasse o planalto e, aventurando-se pelos desfiladeiros — ratoeiras da Cheia — fosse enterrar-se nas areias do Namib com o fito de -alcançar Porto Alexandre e Moçâmedes, fica, na verdade, admirado da confusão que se gerou.
E afinal, além de uma cobertura tranquilizadora em Porto Alexandre, a principal providência a tomar reduzia-se a preservar, por guarda e por vigilância directa e indirecta, a linha férrea de Moçâmedes, de sabotagens intentadas mais por elementos internos traidores, da raça do boer Duplessis, do que por destacamentos alemães invasores.
A protecção eficaz da linha férrea contra golpe de mão era uma medida, embora aparentemente simples, difícil na realização, por falta de forças.
Em Moçâmedes fez imensa falta um verdadeiro comandante militar.
Vêm a propósito duas palavras sobre o papel e importância de Moçâmedes na defesa.
Então e sempre, no quadro das operações terrestres realizadas no Sul de Angola, ou seja contra indígenas insubmissos ou contra os Alemães invasores, o porto de Moçâmedes tem desempenhado um importante papel.
Base do caminho de ferro e base litoral única do distrito da Huíla, tem-lhe cabido a função de receber reabastecimentos de toda a espécie e expedi-los pelo caminho de ferro. Porto de desembarque e de evacuação; estação depósito.
Mas o caso em que a sua importância atingiria a mais alta sensibilidade não era aquele de que se tratava em 1914, mas sim o de uma ofensiva alemã sobre o planalto vinda do Sudoeste, conjugada com outra para a posse de Moçâmedes. Ao passo que Sá da Bandeira seria o objectivo final das operações terrestres do invasor para o domínio do planalto, Moçâmedes seria o primeiro objectivo da sua acção sobre a costa.
No quadro das operações terrestres do defensor, Sá da Bandeira e Moçâmedes aparecem-nos então como intimamente ligadas.
De facto a queda de Moçâmedes representa a queda do caminho de ferro, a queda automática da costa, com Porto Alexandre e Baía dos Tigres; representa a impossibilidade de utilizar a linha de comunicações por esse porto; sujeita Sá da Bandeira a uma incursão desse lado; enfim, põe o defensor na delicadíssima situação de, ou face ao Cunene ou face ao oceano, ter o adversário nas costas, obrigando assim à divisão de forças.
Em tais circunstâncias, impor-se-ia ao defensor a instante necessidade de diminuir, quanto possível, a sensibilidade de Sá da Bandeira em relação à sorte de Moçâmedes.
Como? Mudando a sua linha de comunicações.
Nunca, nesta forma das operações, seria prudente contar com utilizar Moçâmedes como base marítima definitiva. Deve estar previamente estudada a outra linha de comunicações e tudo preparado para a sua adopção no momento julgado oportuno, inclusive a devida ocupação de Mulondo e Capelongo desde o início das operações.
Os transportes seriam então à base de camionagem.
Não se deve exagerar o perigo, para o planalto defendido e com o caminho de ferro destruído, de uma agressão empreendida, do lado de Moçâmedes, por um inimigo desembarcado.
É que entre o planalto e este porto há o formidável obstáculo da Chela. Barradas as suas poucas e difíceis passagens com alguma artilharia e armas automáticas, nenhumas forças lá passariam. É a verdadeira chave da defesa contra um ataque partindo do litoral. Moçâmedes tem poucas condições de defesa, a qual, no entanto, deve ser efectivada pela forma e com os meios definidos no dispositivo geral da defesa da costa da província, O plano de defesa de uma província ultramarina como é Angola, com fronteiras terrestres e marítimas, tem sempre duas partes — contra a agressão pelas fronteiras terrestres e contra a agressão vinda do mar. E a parte essencial desta última é a defesa dos portos.
O caso concreto de 1914 era, porém, inteiramente diferente. A situação dos Alemães era crítica, as possibilidades de conquista nenhumas. Não era de encarar uma ofensiva pelo Cunene sobre o planalto, nem um ataque por mar sobre Moçâmedes.
(...)
(1) Comunicado ao Governador de Moçâmedes por sua extensa nota nº 32, de 3-Nov.-1914.
(2) Sua nota nº 32, de 3-Nov.-1914.
(3) Telegrama do C.E.M. de Angola, n° 654, de 24-Nov.-1914.
(4) Suas instruções para o ten. Monteiro, de 10-Dez.-1914.
(5) Seu telegrama n° 136, de 14-Dez.-1914.
(6) Nota n° 416/66, de 16-Dez.-1914.
(7) Suas instruções para o alferes, de 16-Dez.-1914.
Ernesto Machado, No sul de Angola. Lisboa, Agência Geral do Ultramar, 1956 (450 páginas). O fragmento aqui reproduzido é das páginas 312-320.
Notas:
Recordemos que
«no final de 1914, os alemães invadiram o sul de Angola. A 18 de Dezembro de 1914, em virtude de opções tácticas erradas, Alves Roçadas é derrotado em Naulila pelas tropas alemãs»,
e ainda que
«Em 1914, quando se organizou a primeira expedição a Angola, para defender o sul da colónia, que fazia fronteira com a colónia alemã do Sudoeste Africano, Roçadas foi escolhido para a comandar. O incidente de Naulila, nas margens do Cunene, perto da fronteira entre as duas colónias, incidente entre forças militares portuguesas e alemãs, acontecido em 18 de Outubro, fez com os alemães atacassem o posto isolado de Cuangar, nas margens do Cubango. Alves Roçadas decidiu então, com as poucas forças de que dispunha, atravessar o Cunene e procurar as forças alemãs que tinham entrado no território português. Mas foi derrotado em Naulila, em 18 de Dezembro, e obrigado a atravessar o Cunene e o Caculevar, concentrando-se à volta do Forte Gambos. Devido a esta retirada os povos do Humbe revoltaram-se. Alves Roçadas foi, por isso, chamado a Portugal, embarcando em princípios de Maio de 1915.»
Ver neste blogue: Naulila, Alves Roçadas.













