sexta-feira, 1 de abril de 2011

João Remy Teixeira Freire (Remy Freire)

António Aniceto Monteiro e Remy Freire num passeio no Tejo em 1941 ou 1942

Remy Freire (pormenor da anterior)

Remy Freire, Pilar Ribeiro e Lídia Monteiro, no mesmo passeio

Remy Freire (pormenor da anterior)

António Aniceto Monteiro, Alves Redol (com a "eterna" camisa aos quadrados) e Remy Freire (os dois últimos, de costas)

© Pilar e Hugo Ribeiro
Digitalização de Jorge Rezende

(...)
O ambiente matemático em Curitiba nos anos 50 era muito ruim. No que diz respeito à Matemática não havia atividades extracurriculares e as bibliotecas possuíam apenas livros utilizados pelos estudantes de Engenharia. Antes de 1953, apenas o Prof. Leo Barsotti, então assistente da cadeira de “Cálculo” da Faculdade de Engenharia, havia publicado artigos originais sobre Matemática. A Universidade do Paraná tinha sido instalada em 1946 com quatro faculdades, das quais apenas as faculdades de Engenharia (fundada em 1913) e a de Filosofia (em 1938, mas com o curso de Matemática iniciando em 1940) tinham cadeiras de Matemática. O mais antigo professor de Matemática de Curitiba era Valdemiro Augusto Teixeira de Freitas, catedrático de “Mecânica Racional” na Faculdade de Engenharia e professor de diversas instituições de ensino de Curitiba. O Prof. Teixeira de Freitas tinha sido professor de quase todos os professores de Matemática de Curitiba, e por este motivo foi escolhido como presidente da primeira diretoria da Sociedade, tendo sido reeleito por seis vezes consecutivas. Mas, a figura mais significativa da Matemática em Curitiba nos anos 50 era Olavo del Claro, que tinha sido aprovado em concurso na Faculdade de Engenharia (1936) e na Escola de Agronomia (1942). Quando da fundação da Faculdade de filosofia o Prof. del Claro foi preterido na escolha do corpo docente, e isto foi, sem dúvida, a causa do péssimo relacionamento entre os professores de Matemática das duas faculdades. Havia necessidade de um catalisador.
O catalisador apareceu em 1952 na pessoa do Prof. João Remy Teixeira Freire, natural de Lisboa e posteriormente naturalizado brasileiro, que veio para Curitiba assumir a cadeira de “Estatística Geral e Aplicada” do recém criado curso de Ciências Sociais da Faculdade de Filosofia. Remy Freire era Bacharel em Ciências Econômicas e Doutor em Economia pela Universidade de Lisboa e, depois de já estar instalado em Curitiba, obteve o Doutorado de Estado em Estatística pela Universidade de Paris. Remy Freire tinha sido assistente do renomado matemático Bento de Jesus Caraça na Universidade de Lisboa e um dos fundadores da Sociedade Portuguesa de Matemática. Em “Análise Matemática e Superior”, aproximou-se de Newton Carneiro Affonso da Costa, então aluno do curso de Matemática, que, inclusive pela influência de Remy Freire, veio a ser o único curitibano que, até hoje, se projetou internacionalmente como matemático.
Graças ao carisma de que era portador, Remy Freire granjeou largo círculo de amizade em Curitiba, principalmente no meio universitário, o que facilitou a sua disposição de fundar a Sociedade Paranaense de Matemática.
A primeira diretoria da Sociedade era assim constituída: Presidente Teixeira de Freitas, Vice Presidente Ulysses Carneiro, Secretário Geral Remy Freire, Sub Secretário Jayme Cardoso, Tesoureiro Dyonil Ruben Carneiro Bond, Diretor de Publicações Leo Barsotti e Diretor de Cursos e Conferências Newton Carneiro Afonso da Costa.
Dias após a fundação da Sociedade houve uma reunião da Sociedade Brasileira em Curitiba intitulada ‘Para o Progresso da Ciência’. Entre os participantes estavam Benedito Castrucci, Cândido Dias, Luiz Henrique Jacy Monteiro e José de Barros Neto, todos professores do Departamento de Matemática da Faculdade de Filosofia da USP. Além das comunicações feitas na SBPC estes professores proferiram conferências na Sociedade, e se tornaram os primeiros sócios correspondentes da Sociedade. Era o início promissor de atividades da Sociedade, que nestes 31 anos de existência tem patrocinado a realização de cursos, seminários, reuniões, conferências, além de publicação de livros e periódicos.”
(...)
Ver ainda
João Remy Teixeira Freire
PIQUENIQUE CLANDESTINO DE ANTI-FASCISTAS DO I.S.C.E.F. ACOMPANHADOS PELO PROF. BENTO DE JESUS CARAÇA

Nota: Estas fotografias foram digitalizadas por mim em casa de Pilar Ribeiro, em Bicesse, em 12 de Junho de 2006. A sua publicação é também uma forma de a homenagear por esta altura do seu falecimento. Recordo a alegria dos seus 95 anos, o seu interesse, o brilho dos seus olhos, ao ver-me digitalizar as fotografias, o mesmo encanto que se pode ver no passeio no Tejo, na sua juventude, em 1941 ou 1942. Conheci Pilar e Hugo, que foi meu professor, no Porto, aquando do seu regresso definitivo a Portugal. Sei que estavam sempre dispostos a ajudar os mais novos, que é uma forma de nos mantermos jovens. Antes de Ruy Luís Gomes, José Morgado, Hugo, Pilar e outros, antes de 25 de Abril de 1974, a FCUP era soturna. Depois, entrou a Luz.

quinta-feira, 31 de março de 2011

Maurice Fréchet à Lisbonne

© Família de Pilar e Hugo Ribeiro
Agradecimentos: Mário Ribeiro, Ilda Perez
Digitalização de Jorge Rezende

Voir:

Fréchet
Fréchet

terça-feira, 29 de março de 2011

Faleceu a Professora Maria do Pilar Ribeiro


Pilar Ribeiro, nos anos de juventude, com Lídia Monteiro, num passeio no Tejo

Faleceu, ontem, ao final da tarde, no Hospital de Cascais, a Professora Maria do Pilar Ribeiro.

Ver nota biográfica:

sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

Os passeios no Tejo numa biografia literária de Soeiro Pereira Gomes

(...)
Encontro-me na casa do Arquimedes [da Silva Santos], na Póvoa; depois de ter lido, em cópia, o discurso, peço e obtenho esclarecimentos: os passeios pelos montes atrás de Vila Franca a ler o Manifesto Comunista deram-se em 1941, depois de se ter constituído um Comité Regional das Juventudes Comunistas; o primeiro passeio de barco foi no Verão de 1941; antes de Junho de 1941 com Soeiro falavam mais em coisas literárias. O poeta continua a falar daqueles tempos e mostra-me fotografias antigas e, entre outras, uma do passeio de barco em que aparecem, além dele próprio, Pereira Gomes, Manuel Campos Lima, Rui Grácio, Cândida Ventura, Álvaro Cunhal, Dias Lourenço, Aniceto Monteiro, Piteira Santos, Guilherme Morgado...
A esses passeios refere-se Joaquim em duas cartas ao irmão Alfredo. Na de 3 de Junho de 1940 conta com entusiasmo:

Há tempos fui dar um belo passeio e lembrei-me de ti e do Jaime. Passeio de barco à vela. Vela vermelha e gente vermelha: malta do Diabo. Fomos almoçar às obras uma caldeirada à fragateiro. Cantou-se (que cantos!...) e conversou-se à vontadinha. Lembrança do Redol de quem sou agora muito amigo. Vou com ele até para férias em meados de Julho.

Noutra, de 9 de Abril de 1941, anuncia mais um «passeio de barco, Tejo acima, com a malta do “Diabo”» a realizar-se no dia 27 do mês.
Os passeios no barco Liberdade de Jerónimo Tarrinca no Verão de 1941, de Alhandra e Vila Franca até ao local das Obras perto de Azambuja, um lugar aprazível e com praia fluvial para tomar banho e fazer piqueniques, ou apenas indo Tejo abaixo Tejo acima, com caldeiradas a bordo, eram, na realidade, momentos de alta escola política e partidária, como as excursões e visitas a museus e locais históricos, como as actividades culturais e desportivas nas colectividades, onde se processava aquela que António Dias Lourenço chama «uma mútua dádiva entre trabalhadores manuais do Baixo Ribatejo e a intelectualidade portuguesa mais avançada e progressista» (*). No Liberdade passearam o dr. Fernando Piteira Santos e o prof. Alfredo Pereira Gomes, o dr. Francisco Eduardo Pulido Valente e o eng. Correia Guedes, o dr. João Ferreira Marques e o prof. Bento de Jesus Caraça, Manuel da Fonseca Barraquinha, vilafranquense e responsável pelas caldeiradas, Cândida Ventura e o advogado Inácio Fiadeiro, o dr. Augusto Sá da Costa, o poeta e crítico Mário Dionísio, que lembra Soeiro a ler versos, e tantos outros.
Num desses passeios participa, convidado por Redol, Pedro Neto. No dia e na hora marcados, o jovem vai ao cais da Cimento Tejo e lá encontra Soeiro Pereira Gomes com uma pessoa desconhecida, que depois virá a saber ser Álvaro Cunhal. Com o barquito de um trabalhador da Fábrica, João Corneta, os três foram ao encontro do Liberdade, onde encontraram, entre outros, António Dias Lourenço, António Ramos de Almeida, Lopes-Graça e Bento de Jesus Caraça, que o chamou de lado para lhe perguntar sobre a organização das Juventudes Comunistas em Vila Franca. Pedro Neto responde que na sua opinião «o grupo dos jovens devia estar integrado diretamente na organização do partido».
Os jovens e a Federação das Juventudes Comunistas eram objectivos prioritários dos reorganizadores. Em Vila Franca, porém, já existia um grupo de moços ligados ao Alves Redol e ao António Dias Lourenço, que se interessavam por política e literatura. Eram eles, já o vimos há pouco, além de Pedro Neto e Arquimedes, Octávio Pato, António Tavares, António Lopes e Jorge Reis, que em 1941 publicavam um jornalzinho, escrito à mão, chamado Querer É Poder. Todos esses jovens, como já lembrou Arquimedes e como me repete Jorge Reis, que encontro em Cascais no mês de Abril de 1996, depois da invasão nazi da União Soviética de 22 de Junho de 1941, entram nas Juventudes Comunistas e começam a trabalhar a sério na militância partidária.
Para Pedro Neto, então, esses e os outros jovens deviam-se integrar no Partido para unir as forças, pois não tinha sentido haver, por exemplo, na fábrica Cimento Tejo, onde ele trabalhava, duas organizações comunistas: o partido, que certamente existia, e os jovens.
Até ao passeio no Liberdade, à excepção do episódio do pequeno manifesto de 1938, o relacionamento entre Soeiro e Pedro Neto tinha sido rigorosamente isento de interesse partidário e até político. «Só no Inverno de 1940 é que ele me fala levemente no Partido», lembra Pedro. «Então, o senhor sabe quando Joaquim ingressou no Partido?», pergunto. «Certeza só tenho depois do nosso encontro lá no Sobralinho, quando Soeiro já era responsável do Comité Local em Alhandra.» Aconteceu que a sugestão de Pedro Neto a Bento de Jesus Caraça tinha sido aceite. (...)
(...)

(*) Lourenço, António Dias, Vila Franca de Xira. Um Concelho no País, Edição da Câmara Municipal de Vila Franca de Xira, 1995, p. 160.


(Soeiro Pereira Gomes, Uma Biografia Literária, páginas 121-123)

terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

Abel Salazar e Celestino da Costa

«Já fiz o [busto de] Fréchet...»: carta de Abel Salazar a Celestino da Costa [de 1943?]

Busto de Maurice Fréchet feito por Abel Salazar
MCUL 3494, doação de Júlia Perez Fernandez
(proveniente do gabinete de Zaluar Nunes)

(...)
Se cá vier tenha paciência, quero-lhe fazer um busto. Já fiz o Fréchet, que não saiu mau de todo. É destinado ao Centro de Estudos Matemáticos de Lisboa.
(...)

(Abel Salazar - 96 cartas a Celestino da Costa)

segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

«O Aniceto Monteiro disse-me...»: carta de Abel Salazar a Celestino da Costa de 1942

(...)
Seja como for, este incidente [a demissão de Celestino da Costa do Instituto de Alta Cultura] veio pôr bruscamente em evidência as gerais simpatias dos nossos meios científicos pelo prof. Celestino, e o reconhecimento pela sua obra e serviços prestados. Não lhe falo como velho amigo, mas como simples observador, pois tenho notado com prazer este movimento de simpatia para com o prof. Celestino. Pelos informes do Ruy e do Corino sei o que se pensa em Lisboa: e todos esses informes revelam ao mesmo tempo a inquietação produzida pelo incidente e a atmosfera de simpatia que ele determinou a seu respeito. A justiça que lhe fazem amigos é menos impressionante do que a que lhe fazem indiferentes e até inimigos — mesmo aqueles que com razão ou sem razão — tinham qualquer razão de queixa da Alta Cultura.
O Aniceto Monteiro disse-me: — É o único homem que sabe ver as coisas e com quem a gente pode entender-se, e o Corino por seu turno tem afirmado por toda a parte: — Pense-se o que se quiser sobre o prof. Celestino, ele é, entre nós, o único homem indicado para aquele lugar. Cito estas afirmações porque elas definem bem a corrente geral.
De resto, como disse, o contraste entre a antiga e a moderna direcção da Alta Cultura é de tal calibre e tem feito tal impressão, que eu suponho que isto, tarde ou mais cedo, terá de sofrer um remendo... a não ser que tudo isto leve água no bico.
Em suma, saiu deste incidente com força moral aumentada e o seu nome mantém uma esperança. É já alguma coisa no meio deste descalabro moral que é a vida portuguesa.
(...)

(Abel Salazar - 96 cartas a Celestino da Costa)


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domingo, 23 de janeiro de 2011

Relatórios do "informador habitual" da PIDE no Brasil

Os documentos aqui reproduzidos constam do Processo 558/67-SR, NP-3577 do Arquivo da PIDE/DGS, relativo a António Aniceto Monteiro, existente na Torre do Tombo (IAN/TT).
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Observações:
1. Curioso que uma das pessoas mencionadas seja o Capitão João Sarmento Pimentel que depois de, provavelmente, se ter cruzado com o tenente Monteiro no sul de Angola em 1915, talvez se tenha encontrado com o filho, António Aniceto Monteiro, no Brasil, 47 anos depois.
2. Importa chamar a atenção para o seguinte facto: é bem provável que, nos anos sessenta, a PIDE tivesse no Brasil, pelo menos, dois informadores, um dos quais mostrava "serviço" enviando relatórios falsos. Isto evidencia até que ponto há que ser prudente quando se examina um documento escrito. Não é objectivo deste blogue fazer a história da PIDE, dos seus informadores, dos seus agentes infiltrados, etc. Por esse motivo nada mais se adianta.

quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

Memórias do Capitão (no sul de Angola em 1915): A FERRO E FOGO (3)

João Sarmento Pimentel, Memórias do Capitão. Editorial Inova, Porto, 1974
Este livro tem dois capítulos dedicados à guerra no sul de Angola: "O «Cabo Verde»" e "A ferro e fogo". Ambos se passam em 1915, o ano da morte do tenente Monteiro. [A propósito de Angola e António Aniceto Monteiro].
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Ver ainda:
Cartas de António Aniceto Monteiro sobre o início da Guerra Colonial em Angola há, exactamente, 50 anos.

Memórias do Capitão (no sul de Angola em 1915): A FERRO E FOGO (2)

João Sarmento Pimentel, Memórias do Capitão. Editorial Inova, Porto, 1974
Este livro tem dois capítulos dedicados à guerra no sul de Angola: "O «Cabo Verde»" e "A ferro e fogo". Ambos se passam em 1915, o ano da morte do tenente Monteiro. [A propósito de Angola e António Aniceto Monteiro].
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Ver ainda:
Cartas de António Aniceto Monteiro sobre o início da Guerra Colonial em Angola há, exactamente, 50 anos.

Memórias do Capitão (no sul de Angola em 1915): A FERRO E FOGO (1)

João Sarmento Pimentel, Memórias do Capitão. Editorial Inova, Porto, 1974
Este livro tem dois capítulos dedicados à guerra no sul de Angola: "O «Cabo Verde»" e "A ferro e fogo". Ambos se passam em 1915, o ano da morte do tenente Monteiro. [A propósito de Angola e António Aniceto Monteiro].
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Ver ainda:
Cartas de António Aniceto Monteiro sobre o início da Guerra Colonial em Angola há, exactamente, 50 anos.

Memórias do Capitão (no sul de Angola em 1915): O «CABO VERDE»

João Sarmento Pimentel, Memórias do Capitão. Editorial Inova, Porto, 1974
Este livro tem dois capítulos dedicados à guerra no sul de Angola: "O «Cabo Verde»" e "A ferro e fogo". Ambos se passam em 1915, o ano da morte do tenente Monteiro. [A propósito de Angola e António Aniceto Monteiro].
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Ver ainda:
Cartas de António Aniceto Monteiro sobre o início da Guerra Colonial em Angola há, exactamente, 50 anos.