sexta-feira, 21 de fevereiro de 2014

A influência de Antonio Aniceto Ribeiro Monteiro no desenvolvimento da Matemática no Brasil (Leopoldo Nachbin)

Digitalização de Jose Marcilese
© Família de António Aniceto Monteiro
*
Sentados, da esquerda para a direita: António Monteiro, A. Adrian Albert, Marshall Stone, Oliveira Jr., José Abdelhay. Em pé, da esquerda para a direita: Alvércio Moreira Gomes, Maria Laura Mousinho, Leopoldo Nachbin, Marília Peixoto, Carlos Alberto Aragão Carvalho.
-
Monteiro veio ao Brasil em 1945; eu tinha então 23 anos.
Não conheço os detalhes dos acordos científicos e administrativos que o levaram a tomar em consideração, e aceitar, uma oferta para vir ao Brasil.
Monteiro ingressou então na Faculdade Nacional de Filosofia (FNF) da Universidade do Brasil (hoje Universidade Federal do Rio de Janeiro). A FNF era naquela época o principal centro de matemática do Rio de Janeiro, havendo iniciado suas atividades na área em 1939. Monteiro, indiscutivelmente, manteve e aperfeiçoou o nível e as atividades matemáticas.
Por outro lado, a FNF era então o segundo melhor centro de matemática do Brasil, logo após a Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras (FFCL) da Universidade de São Paulo, que iniciara as atividades matemáticas em 1934.
Apesar de que atualmente considero Monteiro fundamentalmente um lógico matemático, de corpo e alma, ele era ainda um analista quando veio ao Brasil, pelo menos como resultado dos seus estudos de doutoramento em Paris, e talvez de corpo e alma também. Assim, seus principais interesses, para efeito de palestras em cursos e seminários na FNF, dirigiram-se à topologia geral, espaços de Hilbert, análise funcional, bem como aos conjuntos ordenados, reticulados e álgebras de Boole.
Por exemplo, foi muito elucidativo para mim ouvir uma palestra de Monteiro cobrindo em detalhes o teorema da representação de Stone das álgebras de Boole por meio dos subconjuntos abertos-e-fechados de um espaço Hausdorff totalmente desconexo, uma ligação entre álgebra e topologia geral que naquela época eu considerava inesperada, além de ser bonita, de qualquer forma. Se menciono especificamente este ponto é porque uma das principais características da atitude de Monteiro com referência à matemática em suas aulas e em sua pesquisa, era enfatizar a unicidade da matemática.
Foi também uma revelação para mim quando Monteiro, recém-chegado ao Rio de Janeiro, em 1945, emprestou-me sua cópia particular da Topologie Générale de Bourbaki, especificamente os capítulos I-II (1940) e III-IV (1942) publicados na França. A este respeito, devo salientar que no Brasil, em função da Segunda Guerra mundial (de 1939 a 1945), era impossível acompanhar e obter regularmente publicações europeias sobre matemática durante esse período.
Eu gostaria de salientar que a FFCL de São Paulo teve os seguintes visitantes: André Weil, durante três anos académicos, de 1945 a 1947; Oscar Zariski, durante o ano académico de 1945; Jean Dieudonné, nos dois anos académicos de 1946 a 1947. Monteiro baseou suas atividades no Rio de Janeiro num estreito contato matemático com Weil, Zariski e Dieudonné, que por sua vez tentaram oferecer seu apoio à influência de Monteiro no Rio de Janeiro.
Monteiro era uma pessoa muito dinâmica, e um expositor muito eficaz. Ele tinha uma paciência de pioneiro e boa vontade para atrair e ajudar estudantes, desde os que estavam entre os melhores até aqueles não tão promissores mas ainda assim razoavelmente interessados em matemática.
Eu mesmo devo diversos dos importantes passos e eventos, no meu aprendizado e na minha carreira, à visão de Monteiro como conselheiro. Não vou fazer aqui uma relação detalhada; basta expressar no geral meu débito à influência de Monteiro quando eu era jovem e inexperiente, dos pontos de vista matemático, psicológico e político, época na qual Monteiro me deu seu inestimável conselho, proteção e iniciativa.
Nossa amizade durou até o último momento e não foi interrompida pelas adversidades da vida. Assim, em setembro de 1980 ainda recebi uma excelente carta dele, a última carta que ele me endereçou antes de falecer. Era perfeitamente claro para mim que Monteiro estava orgulhoso pelo fato de eu ter sido seu aluno; em outras palavras, Monteiro realmente procurava continuar sua própria vida através de seus antigos alunos.
Monteiro veio ao Rio de Janeiro em 1945 com um contrato de quatro anos para trabalhar na Universidade do Brasil. Entretanto, em razão de sua atitude abertamente anti-Salazar, a Embaixada de Portugal no Rio de Janeiro (então a capital do Brasil) conseguiu convencer o Reitor da Universidade do Brasil a não renovar seu contrato em 1949. Como consequência, Monteiro deixou o Brasil e mudou-se para a Argentina, onde sua contribuição para o desenvolvimento da matemática na América Latina foi também muito significativa, tal como fora sua permanência no Brasil.
Em 1948, Monteiro iniciou no Rio de Janeiro uma série de monografias, Notas de Matemática, cujo primeiro volume foi escrito por mim, e ele continuou até o volume 6. Como ele deixou o Brasil em 1949 e eu voltei em 1950, retornando dos Estados Unidos, depois de uma visita de dois anos durante 1948-1950, decidi manter uma boa tradição e continuar a série como seu organizador começando do volume 7. Durante vinte e cinco anos, de 1948 a 1972, os volumes l a 47 da série foram publicados no Rio de Janeiro. Desde 1973 e começando do volume 48, a North-Holland Publishing Company assumiu a continuação da série na Holanda sob minha coordenação. Como resultado, o nível e a reputação da série cresceu substancialmente. Nesta ocasião, devo enfatizar o fato de que Monteiro foi o iniciador de Notas de Matemática, em 1948, e como uma série brasileira.
- 
Leopoldo Nachbin: A influência de Antonio Aniceto Ribeiro Monteiro no desenvolvimento da Matemática no Brasil, em “Ciência e Sociedade”, Ed. da UFPR, Curitiba (1996). 
versão brasileira do artigo da Portugaliae mathematica: 
http://purl.pt/index/pmath/date/PT/1980.html

quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014

Sobre as perseguições a cientistas durante o fascismo (Revista Vértice 166)

Resumo: O livro de Jorge Buescu «A Matemática em Portugal: uma questão de Educação», constitui o ponto de partida para uma reflexão sobre as razões que estiveram na origem da repressão política contra cientistas, particularmente nos anos 40, tanto em Portugal como no Brasil. São abordados, em especial, o caso de António Aniceto Monteiro e a vaga de expulsões de 1947.
Para ler, imprimir ou descarregar o artigo, clique aqui:
Revista Vértice 166, páginas 59-89.
Jorge Rezende

quarta-feira, 2 de janeiro de 2013

Certidão sobre o imposto de renda para a concessão de visto em passaporte (5 de Julho de 1949)

© Família de António Aniceto Monteiro
===
(...)
Realmente acabei recebendo em meados de Maio um convite definitivo para San Juan, que aceitei. É o resultado dos esforços de vários amigos, entre os quais você figura, e por isso lhe quero enviar desde já um grande abraço de agradecimentos. Espero viajar em breve para a Argentina se não houver demora na concessão do visto, que foi pedido telegraficamente para a Direccion de Migraciones em Buenos Aires. Entretanto, estou preparando a minha viagem e espero não encontrar dificuldades. Estou muito cansado com o trabalho que tenho na companhia de aviação. Não consigo dar vencimento às cartas que tenho a escrever e por isso tenho que ser breve.
Estou desejoso de chegar a San Juan e recomeçar o meu trabalho.
(...)
[Carta de António Aniceto Monteiro (Rio de Janeiro, Brasil) a Guido Beck (Córdoba, Argentina, de l2 de Junho de 1949]
===
(...)
Não sei em que ponto está a tramitação do seu visto de entrada no país, para vir para San Juan.
Informei-me sobre o assunto em Buenos Aires e fiquei a saber, com satisfação, que não há nenhuma dificuldade de princípio na obtenção do seu visto, salvo as demoras burocráticas habituais.
Não será de modo nenhum difícil obter imediatamente o seu visto, mas, até agora não se pôde fazer nada a esse respeito, porque é impossível encontrar, na Direcção de Migrações, um processo sem saber exactamente o seu número.
No caso de demorar, e se o desejar, rogo-lhe que peça, no Consulado Argentino no Rio de Janeiro, o número exacto do seu processo, a data do seu envio para Buenos Aires e, eventualmente, outros dados que considerem úteis no Consulado e mós envie em seguida. Depois poder-se-á conseguir, em Buenos Aires, que a autorização correspondente seja dada imediatamente.
(...)
[Carta de Guido Beck (Córdoba, Argentina) a António Aniceto Monteiro (Rio de Janeiro, Brasil), de 8 de Julho de 1949]
===
(...)
A minha situação actual é a seguinte: 1) Tenho os meus passaportes prontos desde o início de Junho, 2) O visto permanente foi pedido pelo Consulado, pelo telegrama n.° 49 de 3 de Junho de 1949 e até hoje não veio resposta (paguei o telegrama respectivo com resposta paga), 3) A Faculdade enviou ao Consulado os termos do meu contrato, solicitando a concessão do visto, se não estou em erro, 4) Recebi este mês carta do Secretário da Faculdade de San Juan, informando-me de que Migraciones solicitara «todos los dados personales dei referido y sus familiares (nombres, edad, religión, estado civil y se ha sido antiguo residente». Julgo que deve haver algum desencontro, porque no telegrama do Consulado iam todos os dados necessários, 5) Dizia-me ainda o Secretário: «sem respecto a su [ilegível] a nuestra Faculdad, me es grato manifestar a usted que el contrato respectivo se encuentra a Ia firma dei Senor Rector de Ia Universidad». Fiquei surpreendido com esta notícia porque julgava o caso já arrumado. Se assim não fosse, não teria os meus preparativos de viagem quase prontos.
Por outro lado estou interessado em viajar com a brevidade possível. Toda a minha vida está arrumada para ir para San Juan e os meus garotos teriam grande vantagem em frequentar o segundo semestre em San Juan. O mais velho deixará de terminar aqui o curso de ginásio por uma questão de poucos meses. Toda a demora suplementar provocar-me-á prejuízos e começo a ficar fatigado com o atraso. Aceito por isso com grande prazer os seus bons ofícios para abreviar o prazo necessário para a concessão do visto.
Acho que não poderei viajar com um visto temporário (de turista) porque vou levar muita coisa comigo: uma estante, geladeira, rádio, vários caixotes com livros, etc., que é uma bagagem um pouco pesada para turista.
A propósito de bagagem, recebi uma carta, de sua prima Olga, nos princípios deste mês - a carta traz a data de 30 de Abril, mas deve ser engano - em que me pede para levar com os meus baús um ou dois dela, acrescentando: «sem libros y unas cosas pequenas».
Estou com a melhor boa vontade e disposto a satisfazer-lhe a vontade desde que as coisas a transportar não sejam susceptíveis de criar dificuldade na alfândega. A Lídia tratará na altura de preparar a nossa bagagem, de resolver esse problema.
Já escrevi ao Santalló pedindo-lhe para se interessar pela concessão do visto, mas segundo parece ele não possui conhecimentos influentes, em Buenos Aires.
Estou porém muito esperançado com a notícia que me dá de que se poderá conseguir imediatamente o visto.
(...)
[Carta de António Aniceto Monteiro (Rio de Janeiro, Brasil) a Guido Beck (Córdoba, Argentina, de 3l de Julho de 1949]
===
(...)
Espero que tenha recebido a carta que lhe escrevi recentemente, em que lhe pedia o seu auxílio para tratar do problema do meu visto. Recebi carta do Balanzat do 8 do corrente em que me comunica que falou com o Reitor. Este ia a Buenos Aires e prometeu ocupar-se pessoalmente do visto. Manda dizer que sabe a respeito do andamento do problema. Escrevi ao Pi Calleja e ao Santalló pedindo que tratassem do assunto. Seria necessário, segundo me parece, encontrar uma pessoa com influência capaz de resolver o problema em poucos dias.
Em qualquer hipótese mande-me notícias com a brevidade possível. A minha situação começa a tornar-se insustentável. Tenho tudo preparado para viajar, mas não posso fazer certas coisas antes de ter o visto. Espero entretanto que depois dele chegar me seja possível terminar os meus preparativos da viagem em poucos dias.
(...)
[Carta de António Aniceto Monteiro (Rio de Janeiro, Brasil) a Guido Beck (Córdoba, Argentina, de l6 de Agosto de 1949]
===
(...)
Hoje tivemos resposta de Buenos Aires.
O Interventor da Direcção Geral de Migrações declarou pessoalmente que não há inconveniente algum em lhe concederem o visto de entrada no país e que ele está disposto a dar solução favorável ao assunto logo que lhe seja submetido o processo. Mas... o processo não o encontraram e não encontraram o telegrama que você me referiu.
Nestas condições, e para não perder tempo esperando até se encontrar o processo, o melhor que você pode fazer é ir ao Consulado Geral Argentino no Rio de Janeiro e pedir, eventualmente com fundamento nesta carta, que enviem cópia do seu pedido de visto para a Direcção Geral de Migrações em Buenos Aires (talvez seja preferível que seja por carta via aérea) e você mandar-me, simultaneamente todos os dados correspondentes (N. ° do processo, data da carta, etc.) para que se possa encontrar a carta em Buenos Aires e para conseguir que lhe dêem andamento imediato.
(...)
[Carta de Guido Beck (Córdoba, Argentina) a António Aniceto Monteiro (Rio de Janeiro, Brasil), de 23 de Agosto de 1949]
===
(...)
Acabo de receber a sua carta de 23 de Agosto que muito lhe agradeço. Fui imediatamente ao Consulado para esclarecer os problemas de que me fala. O meu processo no Consulado consta das seguintes peças: 1) Telegrama n.° 49, de 3 de Junho de 1949, endereçado a «Migraciones», solicitando o visto. 2) Carta do Delegado Interventor da Faculdade de San Juan, dirigido ao Con¬sulado, com data de 2 de Junho, solicitando facilidades para a concessão do visto com a brevidade possível e dizendo que a Faculdade gostaria que eu chegasse em meados de Junho. Esta carta chegou ao Consulado no dia 7 de Junho. 3) No próprio dia 7 de Junho o Consulado telegrafou à Universidade de Cuyo, San Juan comunicando que o visto já tinha sido solicitado pelo telegrama n.° 49, de 5 de Junho, à Direccion de Migraciones. 4) Em 10 de Junho o Consulado escreve uma carta à Universidade confirmando o telegrama anterior (telegrama n. ° 23 do Consulado) que transcreveram, acusando a recepção da carta da Faculdade de 2 de Junho. Depois nada mais há. Na próxima segunda-feira, terei uma entrevista com o Cônsul, para ver se é possível esclarecer tudo isto.
A minha impressão no momento é a seguinte. O telegrama n. ° 49 deve andar perdido pela Direccion de Migraciones. Por outro lado deve haver uma diligência da Universidade junto da Migraciones solicitando o visto, independentemente do pedido feito por intermédio do Consulado.
Em 4 de Julho escreveram-me de San Juan, nota n. ° 853-M, dizendo que Migraciones solicitara à Facultad «Todos os dados personales dei referido - sus familiares: nombres, edad, religion, estado civil y si há sido antiquo residente». Esta carta expedida por via marítima, chegou com certo atraso. Respondi em 25 de Julho, por via aérea, enviando os dados solicitados. A Faculdade tem portanto todos os elementos necessários para localizar o pedido de visto. Tornarei a escrever na próxima 3.a feira (depois de amanhã), depois da minha entrevista com o Cônsul, informando-o do que se passa. Entretanto creio que poderia localizar o processo por intermédio de San Juan ou de Mendonça. Pedirei na 2.a feira ao Cônsul que me escreva uma carta a Migraciones, esclarecendo a situação e dir-lhe-ei o que houver a esse respeito.
Fico-lhe muito grato pelas eficientes démarches que tem realizado.
(...)
[Carta de António Aniceto Monteiro (Rio de Janeiro, Brasil) a Guido Beck (Córdoba, Argentina, de 27 de Agosto de 1949]
===
(...)
Escrevi-lhe uma carta anteontem, hoje estive com o Cônsul. Peguei novo telegrama em que o Consulado pede o esclarecimento da situação. (Telegrama n.° 85, de 28 de Agosto de 1949). Nele se faz referência ao telegrama anterior n.° 49, de 3 de Junho de 1949. Segundo me declarou o Cônsul o número de um telegrama expedido pelo Consulado é largamente suficiente para localizar o pedido em Migraciones, acrescentando, é claro, que foi expedido pelo Consulado da Argentina no Rio e não é necessário indicar a data, basta o número de telegrama.
Creio que, pela minha parte, nada mais posso fazer, a não ser aguardar a [ilegível] do visto. Penso que a Universidade não tem actuado com a eficiência que seria necessária. Entretanto perdi um tempo preciosíssimo, fazendo parar todas as démarches que estavam em curso noutros países.
Não vou pôr imediatamente em andamento as démarches interrompidas, mas, nas condições actuais, acho que não devo recusar as oportunidades que me forem aparecendo. Há quatro dias atrás outra oferta me foi feita.
Sem romper os meus compromissos com San Juan entendo que não devo recusar definitivamente as propostas que recebi e começarei esta noite a tratar de uma delas. Guarde estas notícias para si. Entretanto devo dizer-lhe que neste momento ainda prefiro ir para San Juan, partirei imediatamente se o visto chegar antes de arrumar a minha vida para outro lado.
(...)
[Carta de António Aniceto Monteiro (Rio de Janeiro, Brasil) a Guido Beck (Córdoba, Argentina, de 29 de Agosto de 1949]
===
(...)
O tempo passa, mas a solução não vem.
Não descurei o seu assunto. De San Juan escreveram-me dizendo que não sabem o n.° do seu processo, mas que o representante da Faculdade em Buenos Aires está a tratar da questão.
Tenho amigos muito próximos da Direcção de Migrações. Eles dizem: a) que lá havia dificuldades administrativas, de carácter geral, que não têm relação com o seu assunto, b) que não conseguiram localizar o seu processo, c) que todos, incluindo o Director Geral, estão atentos e dispostos a ajudar.
Suspeito, nesta altura, que não se empenharam o suficiente e acabo de escrever outra carta a outro amigo, pedindo que intervenha e verifique: a) se se consegue localizar os telegramas n.° 49 (3/6/49) e n.° 85 (29/8/49), b) no caso contrário, como agir exactamente para refazer, se necessário, os trâmi¬tes para obrigar o processo a andar.
É muito aborrecido que as coisas se passem assim. Mas o que podemos fazer para o evitar? Pergunte, eventualmente, no Consulado, se têm outra possibilidade melhor de chegar a uma solução e se, eventualmente, o Cônsul pode escrever ao Director Geral de Migrações ou a quem quer que seja competente na linha administrativa.
(...)
[Carta de Guido Beck (Córdoba, Argentina) a António Aniceto Monteiro (Rio de Janeiro, Brasil), de 25 de Outubro de 1949]
===
(...)
Acabo de receber resposta do meu amigo de Buenos Aires. Confirma o que me haviam escrito os outros amigos e que, no fim, nem quis acreditar. Passou quatro dias no Ministério das Relações Exteriores e na Direcção Geral de Migrações, falou com toda a gente, viu tudo pessoalmente, conhece agora os dados pessoais, etc., de todos os Monteiros que pretendem entrar no país, mas entre eles não se encontra nenhum António Monteiro, e nenhum telegrama.
Como nem nós, nem você, temos o número do processo que podia facilitar os trâmites, conseguiu, por fim, que telegrafassem do Ministério para o Rio para averiguar o que se passa. Prometem resposta dentro de dez dias.
Você deveria ir ao Consulado Argentino e verificar se eles receberam o telegrama do Ministério de Buenos Aires pedindo informação sobre o seu caso. Peça ao Cônsul e informe-se de quando responde (N. ° do telegrama, se possível).
No caso de o telegrama não chegar, há que ver com o Cônsul o que pode ser feito para iniciar um novo processo de visto, de modo que depois se possa encontrar o novo processo em Buenos Aires, controlando todos os passos burocráticos.
Lamento não ter notícias mais favoráveis, mas você pode acreditar que não era coisa fácil esclarecer o que fizeram.
(...)
[Carta de Guido Beck (Córdoba, Argentina) a António Aniceto Monteiro (Rio de Janeiro, Brasil), de l1 de Novembro de 1949]
===
(...)
Parto hoje, vapor Argentina, chego a Buenos Aires no dia 5.
(...)
[Cartão de António Aniceto Monteiro (Rio de Janeiro, Brasil) a Guido Beck (Córdoba, Argentina, de 30 de Novembro de 1949]
===
A morada de António Aniceto Monteiro indicada nestas cartas de Guido Beck é Rua Almirante Alexandrino 882, Ap. 204,St.a Thereza, Rio de Janeiro.

===
Copiado de

===
Ver ainda:
«Se não conseguirmos criar um movimento forte contra esta política, essa gente não vai parar. É preciso que o maior número possível de escolas e de cientistas protestem publicamente contra a perseguição dos homens de ciência de Portugal. É um dever de solidariedade para qualquer homem de ciência e um dever político para um antifascista.» (Carta de António Aniceto Monteiro a Guido Beck, 1947)
Brasil, 1948: «Isto é um inferno...» (Carta a Guido Beck, de 28 de Julho de 1948, proveniente do Rio de Janeiro)

domingo, 30 de dezembro de 2012

Brasil, 1948: «Isto é um inferno...» (Carta a Guido Beck, de 28 de Julho de 1948, proveniente do Rio de Janeiro)

(...)
Aproveito a oportunidade para lhe falar de outros assuntos. O Carlos Chagas director do Instituto Biofísica da Universidade do Brasil pediu-me para escrever ao Valadares perguntando se ele estaria disposto a trabalhar no seu Instituto. Arranjando trabalho para ele e para a mulher dar-lhe-ia um vencimento de 12 contos por mês. Resta estudar as restantes condições do contrato. Vamos a ver o que diz o Valadares. Agora está como «maitre de recherches» em Paris, mas a vida por lá ainda está difícil.
A minha situação continua na mesma ou antes está cada vez pior. Este mês não recebi ordenado e não sei como vou pagar a renda da casa dentro de 3 dias bem como o ordenado da empregada. Já devo 4 ou 5 meses de mensalidades no colégio de meus filhos. Isto é um inferno e estou cada vez mais desesperado com os meus colegas que nada fazem para apressar a resolução do problema. O contrato está neste momento no DASP (Departamento Administrativo do Serviço Público) e ainda tem que voltar para a Presidência da República. Se não se resolve tudo isto dentro de 15 dias estarei até ao fim de Setembro sem vencimentos, porque não receberei no fim de Agosto. Neste momento a Faculdade já me deve 25 contos de ordenados. O meu crédito está praticamente esgotado. Não sei a quem pedir dinheiro. Um inferno que você conhece bem.
Mande-me as notícias que lhe pedi sobre a Argentina, com a possível brevidade. Se acha que é possível viver em sossego aí, pode fazer algumas sondagens a respeito da possibilidade de me arranjarem um contrato estável. Trate do problema sem compromisso. Devo porém dizer-lhe que estou cada vez mais inclinado a sair do Brasil. Isto é uma bagunça! De resto este ano o Nachbin vai para os Estados Unidos e as pessoas que cá ficam tem pouco interesse. Vamos a ver. Não se esqueça de mandar a sua opinião sobre o Peru, país que gostava muito de conhecer. Se encontrasse uma solução satisfatória estaria disposto a sair do Brasil em fins de Dezembro. Escreva na volta do correio sobre este assunto.
Em tempos o Hugo Ribeiro, que está em Berkeley, escreveu-me (em Dezembro do ano passado) perguntando-me se estaria interessado em ir para Bozeman (estado de Montana) nos Estados Unidos. A incerteza da situação internacional levou-me a pôr de lado essa ideia. Contei o facto ao Stone numa carta recente e a esse respeito disse-me o seguinte na carta que me escreveu:
«I am sorry that you were not able to consider the post at Bozeman seriously. To go there would undoubtedly have been a strange and perhaps trying experience for you, but it might have led to a position more nearly in accord with your tastes and needs. Montana, of course, is one of the thinly populated parts of the country with great mountains and some remnants of the “frontier spirit”. Perhaps you will think again of coming to the U.S. If so, please keep me informed in the event that I have knowledge which could be of use to you.»
Por enquanto não estou animado a pensar em ir para os Estados Unidos, muito embora reconheça as enormes vantagens que teria sob o ponto de vista científico. Não posso prever o que vai acontecer, continuará a vigorar um regime democrático ou continuará nitidamente para um regime fascista? Não tenho a mais pequena intenção, enquanto estiver no estrangeiro, de me ocupar de actividades políticas. O pouco que aqui fiz há mais de dois anos passados, mostraram-me que não tenho jeito, nem capacidade, para semelhantes actividades - que prejudicaram de resto a minha vida científica.
Também conheço mal a situação na Argentina. Mas seria possível viver em paz, sem ser perseguido pelas minhas opiniões? Deve responder com precisão a esta pergunta, dizendo o que pensa.
A vida está cada vez mais difícil e talvez chegue o dia em que a única solução na América seja um indivíduo atirar-se ao mar.
(...)
===
===
Ver ainda