quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014

Sobre as perseguições a cientistas durante o fascismo (Revista Vértice 166)

Resumo: O livro de Jorge Buescu «A Matemática em Portugal: uma questão de Educação», constitui o ponto de partida para uma reflexão sobre as razões que estiveram na origem da repressão política contra cientistas, particularmente nos anos 40, tanto em Portugal como no Brasil. São abordados, em especial, o caso de António Aniceto Monteiro e a vaga de expulsões de 1947.
Para ler, imprimir ou descarregar o artigo, clique aqui:
Revista Vértice 166, páginas 59-89.
Jorge Rezende

quarta-feira, 2 de janeiro de 2013

Certidão sobre o imposto de renda para a concessão de visto em passaporte (5 de Julho de 1949)

© Família de António Aniceto Monteiro
===
(...)
Realmente acabei recebendo em meados de Maio um convite definitivo para San Juan, que aceitei. É o resultado dos esforços de vários amigos, entre os quais você figura, e por isso lhe quero enviar desde já um grande abraço de agradecimentos. Espero viajar em breve para a Argentina se não houver demora na concessão do visto, que foi pedido telegraficamente para a Direccion de Migraciones em Buenos Aires. Entretanto, estou preparando a minha viagem e espero não encontrar dificuldades. Estou muito cansado com o trabalho que tenho na companhia de aviação. Não consigo dar vencimento às cartas que tenho a escrever e por isso tenho que ser breve.
Estou desejoso de chegar a San Juan e recomeçar o meu trabalho.
(...)
[Carta de António Aniceto Monteiro (Rio de Janeiro, Brasil) a Guido Beck (Córdoba, Argentina, de l2 de Junho de 1949]
===
(...)
Não sei em que ponto está a tramitação do seu visto de entrada no país, para vir para San Juan.
Informei-me sobre o assunto em Buenos Aires e fiquei a saber, com satisfação, que não há nenhuma dificuldade de princípio na obtenção do seu visto, salvo as demoras burocráticas habituais.
Não será de modo nenhum difícil obter imediatamente o seu visto, mas, até agora não se pôde fazer nada a esse respeito, porque é impossível encontrar, na Direcção de Migrações, um processo sem saber exactamente o seu número.
No caso de demorar, e se o desejar, rogo-lhe que peça, no Consulado Argentino no Rio de Janeiro, o número exacto do seu processo, a data do seu envio para Buenos Aires e, eventualmente, outros dados que considerem úteis no Consulado e mós envie em seguida. Depois poder-se-á conseguir, em Buenos Aires, que a autorização correspondente seja dada imediatamente.
(...)
[Carta de Guido Beck (Córdoba, Argentina) a António Aniceto Monteiro (Rio de Janeiro, Brasil), de 8 de Julho de 1949]
===
(...)
A minha situação actual é a seguinte: 1) Tenho os meus passaportes prontos desde o início de Junho, 2) O visto permanente foi pedido pelo Consulado, pelo telegrama n.° 49 de 3 de Junho de 1949 e até hoje não veio resposta (paguei o telegrama respectivo com resposta paga), 3) A Faculdade enviou ao Consulado os termos do meu contrato, solicitando a concessão do visto, se não estou em erro, 4) Recebi este mês carta do Secretário da Faculdade de San Juan, informando-me de que Migraciones solicitara «todos los dados personales dei referido y sus familiares (nombres, edad, religión, estado civil y se ha sido antiguo residente». Julgo que deve haver algum desencontro, porque no telegrama do Consulado iam todos os dados necessários, 5) Dizia-me ainda o Secretário: «sem respecto a su [ilegível] a nuestra Faculdad, me es grato manifestar a usted que el contrato respectivo se encuentra a Ia firma dei Senor Rector de Ia Universidad». Fiquei surpreendido com esta notícia porque julgava o caso já arrumado. Se assim não fosse, não teria os meus preparativos de viagem quase prontos.
Por outro lado estou interessado em viajar com a brevidade possível. Toda a minha vida está arrumada para ir para San Juan e os meus garotos teriam grande vantagem em frequentar o segundo semestre em San Juan. O mais velho deixará de terminar aqui o curso de ginásio por uma questão de poucos meses. Toda a demora suplementar provocar-me-á prejuízos e começo a ficar fatigado com o atraso. Aceito por isso com grande prazer os seus bons ofícios para abreviar o prazo necessário para a concessão do visto.
Acho que não poderei viajar com um visto temporário (de turista) porque vou levar muita coisa comigo: uma estante, geladeira, rádio, vários caixotes com livros, etc., que é uma bagagem um pouco pesada para turista.
A propósito de bagagem, recebi uma carta, de sua prima Olga, nos princípios deste mês - a carta traz a data de 30 de Abril, mas deve ser engano - em que me pede para levar com os meus baús um ou dois dela, acrescentando: «sem libros y unas cosas pequenas».
Estou com a melhor boa vontade e disposto a satisfazer-lhe a vontade desde que as coisas a transportar não sejam susceptíveis de criar dificuldade na alfândega. A Lídia tratará na altura de preparar a nossa bagagem, de resolver esse problema.
Já escrevi ao Santalló pedindo-lhe para se interessar pela concessão do visto, mas segundo parece ele não possui conhecimentos influentes, em Buenos Aires.
Estou porém muito esperançado com a notícia que me dá de que se poderá conseguir imediatamente o visto.
(...)
[Carta de António Aniceto Monteiro (Rio de Janeiro, Brasil) a Guido Beck (Córdoba, Argentina, de 3l de Julho de 1949]
===
(...)
Espero que tenha recebido a carta que lhe escrevi recentemente, em que lhe pedia o seu auxílio para tratar do problema do meu visto. Recebi carta do Balanzat do 8 do corrente em que me comunica que falou com o Reitor. Este ia a Buenos Aires e prometeu ocupar-se pessoalmente do visto. Manda dizer que sabe a respeito do andamento do problema. Escrevi ao Pi Calleja e ao Santalló pedindo que tratassem do assunto. Seria necessário, segundo me parece, encontrar uma pessoa com influência capaz de resolver o problema em poucos dias.
Em qualquer hipótese mande-me notícias com a brevidade possível. A minha situação começa a tornar-se insustentável. Tenho tudo preparado para viajar, mas não posso fazer certas coisas antes de ter o visto. Espero entretanto que depois dele chegar me seja possível terminar os meus preparativos da viagem em poucos dias.
(...)
[Carta de António Aniceto Monteiro (Rio de Janeiro, Brasil) a Guido Beck (Córdoba, Argentina, de l6 de Agosto de 1949]
===
(...)
Hoje tivemos resposta de Buenos Aires.
O Interventor da Direcção Geral de Migrações declarou pessoalmente que não há inconveniente algum em lhe concederem o visto de entrada no país e que ele está disposto a dar solução favorável ao assunto logo que lhe seja submetido o processo. Mas... o processo não o encontraram e não encontraram o telegrama que você me referiu.
Nestas condições, e para não perder tempo esperando até se encontrar o processo, o melhor que você pode fazer é ir ao Consulado Geral Argentino no Rio de Janeiro e pedir, eventualmente com fundamento nesta carta, que enviem cópia do seu pedido de visto para a Direcção Geral de Migrações em Buenos Aires (talvez seja preferível que seja por carta via aérea) e você mandar-me, simultaneamente todos os dados correspondentes (N. ° do processo, data da carta, etc.) para que se possa encontrar a carta em Buenos Aires e para conseguir que lhe dêem andamento imediato.
(...)
[Carta de Guido Beck (Córdoba, Argentina) a António Aniceto Monteiro (Rio de Janeiro, Brasil), de 23 de Agosto de 1949]
===
(...)
Acabo de receber a sua carta de 23 de Agosto que muito lhe agradeço. Fui imediatamente ao Consulado para esclarecer os problemas de que me fala. O meu processo no Consulado consta das seguintes peças: 1) Telegrama n.° 49, de 3 de Junho de 1949, endereçado a «Migraciones», solicitando o visto. 2) Carta do Delegado Interventor da Faculdade de San Juan, dirigido ao Con¬sulado, com data de 2 de Junho, solicitando facilidades para a concessão do visto com a brevidade possível e dizendo que a Faculdade gostaria que eu chegasse em meados de Junho. Esta carta chegou ao Consulado no dia 7 de Junho. 3) No próprio dia 7 de Junho o Consulado telegrafou à Universidade de Cuyo, San Juan comunicando que o visto já tinha sido solicitado pelo telegrama n.° 49, de 5 de Junho, à Direccion de Migraciones. 4) Em 10 de Junho o Consulado escreve uma carta à Universidade confirmando o telegrama anterior (telegrama n. ° 23 do Consulado) que transcreveram, acusando a recepção da carta da Faculdade de 2 de Junho. Depois nada mais há. Na próxima segunda-feira, terei uma entrevista com o Cônsul, para ver se é possível esclarecer tudo isto.
A minha impressão no momento é a seguinte. O telegrama n. ° 49 deve andar perdido pela Direccion de Migraciones. Por outro lado deve haver uma diligência da Universidade junto da Migraciones solicitando o visto, independentemente do pedido feito por intermédio do Consulado.
Em 4 de Julho escreveram-me de San Juan, nota n. ° 853-M, dizendo que Migraciones solicitara à Facultad «Todos os dados personales dei referido - sus familiares: nombres, edad, religion, estado civil y si há sido antiquo residente». Esta carta expedida por via marítima, chegou com certo atraso. Respondi em 25 de Julho, por via aérea, enviando os dados solicitados. A Faculdade tem portanto todos os elementos necessários para localizar o pedido de visto. Tornarei a escrever na próxima 3.a feira (depois de amanhã), depois da minha entrevista com o Cônsul, informando-o do que se passa. Entretanto creio que poderia localizar o processo por intermédio de San Juan ou de Mendonça. Pedirei na 2.a feira ao Cônsul que me escreva uma carta a Migraciones, esclarecendo a situação e dir-lhe-ei o que houver a esse respeito.
Fico-lhe muito grato pelas eficientes démarches que tem realizado.
(...)
[Carta de António Aniceto Monteiro (Rio de Janeiro, Brasil) a Guido Beck (Córdoba, Argentina, de 27 de Agosto de 1949]
===
(...)
Escrevi-lhe uma carta anteontem, hoje estive com o Cônsul. Peguei novo telegrama em que o Consulado pede o esclarecimento da situação. (Telegrama n.° 85, de 28 de Agosto de 1949). Nele se faz referência ao telegrama anterior n.° 49, de 3 de Junho de 1949. Segundo me declarou o Cônsul o número de um telegrama expedido pelo Consulado é largamente suficiente para localizar o pedido em Migraciones, acrescentando, é claro, que foi expedido pelo Consulado da Argentina no Rio e não é necessário indicar a data, basta o número de telegrama.
Creio que, pela minha parte, nada mais posso fazer, a não ser aguardar a [ilegível] do visto. Penso que a Universidade não tem actuado com a eficiência que seria necessária. Entretanto perdi um tempo preciosíssimo, fazendo parar todas as démarches que estavam em curso noutros países.
Não vou pôr imediatamente em andamento as démarches interrompidas, mas, nas condições actuais, acho que não devo recusar as oportunidades que me forem aparecendo. Há quatro dias atrás outra oferta me foi feita.
Sem romper os meus compromissos com San Juan entendo que não devo recusar definitivamente as propostas que recebi e começarei esta noite a tratar de uma delas. Guarde estas notícias para si. Entretanto devo dizer-lhe que neste momento ainda prefiro ir para San Juan, partirei imediatamente se o visto chegar antes de arrumar a minha vida para outro lado.
(...)
[Carta de António Aniceto Monteiro (Rio de Janeiro, Brasil) a Guido Beck (Córdoba, Argentina, de 29 de Agosto de 1949]
===
(...)
O tempo passa, mas a solução não vem.
Não descurei o seu assunto. De San Juan escreveram-me dizendo que não sabem o n.° do seu processo, mas que o representante da Faculdade em Buenos Aires está a tratar da questão.
Tenho amigos muito próximos da Direcção de Migrações. Eles dizem: a) que lá havia dificuldades administrativas, de carácter geral, que não têm relação com o seu assunto, b) que não conseguiram localizar o seu processo, c) que todos, incluindo o Director Geral, estão atentos e dispostos a ajudar.
Suspeito, nesta altura, que não se empenharam o suficiente e acabo de escrever outra carta a outro amigo, pedindo que intervenha e verifique: a) se se consegue localizar os telegramas n.° 49 (3/6/49) e n.° 85 (29/8/49), b) no caso contrário, como agir exactamente para refazer, se necessário, os trâmi¬tes para obrigar o processo a andar.
É muito aborrecido que as coisas se passem assim. Mas o que podemos fazer para o evitar? Pergunte, eventualmente, no Consulado, se têm outra possibilidade melhor de chegar a uma solução e se, eventualmente, o Cônsul pode escrever ao Director Geral de Migrações ou a quem quer que seja competente na linha administrativa.
(...)
[Carta de Guido Beck (Córdoba, Argentina) a António Aniceto Monteiro (Rio de Janeiro, Brasil), de 25 de Outubro de 1949]
===
(...)
Acabo de receber resposta do meu amigo de Buenos Aires. Confirma o que me haviam escrito os outros amigos e que, no fim, nem quis acreditar. Passou quatro dias no Ministério das Relações Exteriores e na Direcção Geral de Migrações, falou com toda a gente, viu tudo pessoalmente, conhece agora os dados pessoais, etc., de todos os Monteiros que pretendem entrar no país, mas entre eles não se encontra nenhum António Monteiro, e nenhum telegrama.
Como nem nós, nem você, temos o número do processo que podia facilitar os trâmites, conseguiu, por fim, que telegrafassem do Ministério para o Rio para averiguar o que se passa. Prometem resposta dentro de dez dias.
Você deveria ir ao Consulado Argentino e verificar se eles receberam o telegrama do Ministério de Buenos Aires pedindo informação sobre o seu caso. Peça ao Cônsul e informe-se de quando responde (N. ° do telegrama, se possível).
No caso de o telegrama não chegar, há que ver com o Cônsul o que pode ser feito para iniciar um novo processo de visto, de modo que depois se possa encontrar o novo processo em Buenos Aires, controlando todos os passos burocráticos.
Lamento não ter notícias mais favoráveis, mas você pode acreditar que não era coisa fácil esclarecer o que fizeram.
(...)
[Carta de Guido Beck (Córdoba, Argentina) a António Aniceto Monteiro (Rio de Janeiro, Brasil), de l1 de Novembro de 1949]
===
(...)
Parto hoje, vapor Argentina, chego a Buenos Aires no dia 5.
(...)
[Cartão de António Aniceto Monteiro (Rio de Janeiro, Brasil) a Guido Beck (Córdoba, Argentina, de 30 de Novembro de 1949]
===
A morada de António Aniceto Monteiro indicada nestas cartas de Guido Beck é Rua Almirante Alexandrino 882, Ap. 204,St.a Thereza, Rio de Janeiro.

===
Copiado de

===
Ver ainda:
«Se não conseguirmos criar um movimento forte contra esta política, essa gente não vai parar. É preciso que o maior número possível de escolas e de cientistas protestem publicamente contra a perseguição dos homens de ciência de Portugal. É um dever de solidariedade para qualquer homem de ciência e um dever político para um antifascista.» (Carta de António Aniceto Monteiro a Guido Beck, 1947)
Brasil, 1948: «Isto é um inferno...» (Carta a Guido Beck, de 28 de Julho de 1948, proveniente do Rio de Janeiro)

domingo, 30 de dezembro de 2012

Brasil, 1948: «Isto é um inferno...» (Carta a Guido Beck, de 28 de Julho de 1948, proveniente do Rio de Janeiro)

(...)
Aproveito a oportunidade para lhe falar de outros assuntos. O Carlos Chagas director do Instituto Biofísica da Universidade do Brasil pediu-me para escrever ao Valadares perguntando se ele estaria disposto a trabalhar no seu Instituto. Arranjando trabalho para ele e para a mulher dar-lhe-ia um vencimento de 12 contos por mês. Resta estudar as restantes condições do contrato. Vamos a ver o que diz o Valadares. Agora está como «maitre de recherches» em Paris, mas a vida por lá ainda está difícil.
A minha situação continua na mesma ou antes está cada vez pior. Este mês não recebi ordenado e não sei como vou pagar a renda da casa dentro de 3 dias bem como o ordenado da empregada. Já devo 4 ou 5 meses de mensalidades no colégio de meus filhos. Isto é um inferno e estou cada vez mais desesperado com os meus colegas que nada fazem para apressar a resolução do problema. O contrato está neste momento no DASP (Departamento Administrativo do Serviço Público) e ainda tem que voltar para a Presidência da República. Se não se resolve tudo isto dentro de 15 dias estarei até ao fim de Setembro sem vencimentos, porque não receberei no fim de Agosto. Neste momento a Faculdade já me deve 25 contos de ordenados. O meu crédito está praticamente esgotado. Não sei a quem pedir dinheiro. Um inferno que você conhece bem.
Mande-me as notícias que lhe pedi sobre a Argentina, com a possível brevidade. Se acha que é possível viver em sossego aí, pode fazer algumas sondagens a respeito da possibilidade de me arranjarem um contrato estável. Trate do problema sem compromisso. Devo porém dizer-lhe que estou cada vez mais inclinado a sair do Brasil. Isto é uma bagunça! De resto este ano o Nachbin vai para os Estados Unidos e as pessoas que cá ficam tem pouco interesse. Vamos a ver. Não se esqueça de mandar a sua opinião sobre o Peru, país que gostava muito de conhecer. Se encontrasse uma solução satisfatória estaria disposto a sair do Brasil em fins de Dezembro. Escreva na volta do correio sobre este assunto.
Em tempos o Hugo Ribeiro, que está em Berkeley, escreveu-me (em Dezembro do ano passado) perguntando-me se estaria interessado em ir para Bozeman (estado de Montana) nos Estados Unidos. A incerteza da situação internacional levou-me a pôr de lado essa ideia. Contei o facto ao Stone numa carta recente e a esse respeito disse-me o seguinte na carta que me escreveu:
«I am sorry that you were not able to consider the post at Bozeman seriously. To go there would undoubtedly have been a strange and perhaps trying experience for you, but it might have led to a position more nearly in accord with your tastes and needs. Montana, of course, is one of the thinly populated parts of the country with great mountains and some remnants of the “frontier spirit”. Perhaps you will think again of coming to the U.S. If so, please keep me informed in the event that I have knowledge which could be of use to you.»
Por enquanto não estou animado a pensar em ir para os Estados Unidos, muito embora reconheça as enormes vantagens que teria sob o ponto de vista científico. Não posso prever o que vai acontecer, continuará a vigorar um regime democrático ou continuará nitidamente para um regime fascista? Não tenho a mais pequena intenção, enquanto estiver no estrangeiro, de me ocupar de actividades políticas. O pouco que aqui fiz há mais de dois anos passados, mostraram-me que não tenho jeito, nem capacidade, para semelhantes actividades - que prejudicaram de resto a minha vida científica.
Também conheço mal a situação na Argentina. Mas seria possível viver em paz, sem ser perseguido pelas minhas opiniões? Deve responder com precisão a esta pergunta, dizendo o que pensa.
A vida está cada vez mais difícil e talvez chegue o dia em que a única solução na América seja um indivíduo atirar-se ao mar.
(...)
===
===
Ver ainda

quarta-feira, 26 de dezembro de 2012

Cronologia: Brasil, 1945-1949 e 1956-1964


1. O Brasil nos anos em que António Aniceto Monteiro aí viveu (segundo a Wikipédia):
1945 no Brasil
1946 no Brasil
1947 no Brasil
1948 no Brasil
1949 no Brasil


2. Cronologia de António Aniceto Monteiro:
1945
António Aniceto Monteiro vê-se obrigado a sair de Portugal, porque lhe vedaram a entrada na carreira académica, por razões políticas. Com recomendação de Albert Einstein, J. von Neumann e Guido Beck obtém uma cátedra de Análise Superior no Rio de Janeiro, na Faculdade Nacional de Filosofia (o convite tinha sido feito em Setembro de 1943). Em 28 de Fevereiro, António Aniceto Monteiro embarca para o Rio de Janeiro onde chega com um contrato por quatro anos o qual não será renovado por influência da Embaixada de Portugal.
É nomeado membro del Comité de Redacção da Revista Summa Brasiliensis Mathematicae que a Fundação Getúlio Vargas edita.
1945-1946
António Monteiro é investigador do Núcleo Técnico Científico da Fundação Getúlio Vargas (Rio de Janeiro), dirigido por Lélio Gama.
1946
Julho: Doutora-se Alfredo Pereira Gomes na Universidade do Porto, depois de ter sido orientado por António Aniceto Monteiro.
1948
António Monteiro inicia a série de publicações intituladas Notas de Matemática. Nos anos 1948-1949, são editados seis fascículos. Mais tarde, depois de sua ida para a Argentina, esta colecção será publicada sob a direcção de Leopoldo Nachbin alcançando uma grande difusão na América Latina.
1949
António Monteiro participa activamente na criação do Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas, no Rio de Janeiro, do qual é membro fundador e para o qual é contratado como investigador de Matemática.
Lecciona um curso de Introdução à Matemática para os investigadores de Instituto de Biofísica da Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro por convite do seu Director Carlos Chagas.
Em 5 de Dezembro, vindo do Brasil, chega à Argentina (Buenos Aires), contratado pela Universidad Nacional de Cuyo (sediada na cidade de San Juan, província de San Juan). De 1950 até 1956 é aí docente de Análise Matemática na Facultad de Ingeniería, Ciencias Exactas, Físicas y Naturales.
A partir de 1950 é professor de Matemáticas Superiores na Faculdade de Ciências da Educação da mesma universidade, na cidade de San Luis.

3. O Brasil desde a eleição de Juscelino Kubitschek até ao Golpe Militar de 1964 (segundo a Wikipédia):
1956 no Brasil
1957 no Brasil
1958 no Brasil
1959 no Brasil
1960 no Brasil
1961 no Brasil
1962 no Brasil
1963 no Brasil
1964 no Brasil

4. Cronologia de António Aniceto Monteiro:
1959
Designado Organizador do Instituto de Matemática da Universidad Nacional del Sur, por diploma de 1959.
É convidado pelo Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas, na sua qualidade de Membro Fundador, para assistir à comemoração do décimo aniversário da sua fundação, permanecendo no Rio de Janeiro de Julho a Novembro. Em Julho participa como convidado no 2º Colóquio Brasileiro de Matemática, que se realiza em Poços de Caldas (Brasil), dando conferências entre as quais expõe as suas pesquisas sobre Álgebras Monádicas.

5. Ver ainda (sobre este segundo período):
A luta dos Antifascistas Portugueses do Brasil contra a ditadura de Salazar e o Colonialismo, por Miguel Urbano Rodrigues
Após a chegada ao Rio de Janeiro do general Humberto Delgado, em 21 de Abril de 1959, dia do Tiradentes, a acção da PIDE (Polícia Internacional e de Defesa do Estado – a polícia política portuguesa do tempo de Salazar) intensificou-se no Brasil. A PIDE tinha informadores e agentes infiltrados naquele país que relatavam a actividade do numeroso grupo de exilados políticos que aí viviam. Esses relatórios têm, é claro, a credibilidade que merecem...
Antes de partir para o exílio, Humberto Delgado esteve refugiado na Embaixada do Brasil em Lisboa, desde 12 de Janeiro de 1959. O embaixador era Álvaro Lins, grande amigo da oposição portuguesa, tendo presidido à 1ª Conferência Inter-americana da Amnistia para os Exilados e Presos Políticos da Espanha e de Portugal, realizada na Faculdade de Direito de São Paulo em 1960.
Os documentos aqui reproduzidos constam do Processo 558/67-SR, NP-3577 (folhas 26, 27, 35, 37, 40), do Arquivo da PIDE/DGS, relativo a António Aniceto Monteiro, existente na Torre do Tombo (IAN/TT).
Os recortes de jornais são ambos do «Portugal Democrático» e fazem parte integrante de relatórios da PIDE. As «Declarações do prof. Aniceto Monteiro» são do nº 32 de Janeiro de 1960. O telegrama enviado ao jantar de homenagem a Álvaro Lins (que se tinha realizado em 5 de Maio, em S. Paulo) foi publicado no nº 37 de Junho de 1960.

quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

«Acabo de sofrer um rude golpe...», «Já terminei com o trabalho da Aritmética...», «Eu também gostaria de voltarmos a trabalhar juntos» (Carta a Hugo Ribeiro, escrita de San Juan, Argentina, e datada de 4 de Janeiro de 1951)


© Família de António Aniceto Monteiro
===  
San Juan, 4 de Janeiro de 1951  
Caro Hugo: 
Recebi a sua carta de 16 de Dez. que muito lhe agradeço. Acabo de sofrer um rude golpe com o falecimento de minha mãe. A esperança que ambos tínhamos de nos tornarmos a ver ficou assim definitivamente malograda. 
Já terminei com o trabalho da Aritmética, que vamos apresentar a concurso. O Paulo deu-me a noticia das novas condições que regem a adopção dos livros para o ensino secundário suficientemente tarde para que tudo tivesse de ser feito à pressa e à última hora. E êle foi membro do juri qua examinou os trabalhos apresentados a concurso o ano passado. Agora há o sistema de livro único, havendo um concurso cada 5 anos. O ano passado reprovaram quasi tôdos os livros de matemática. 
Em virtude do programa, partimos dos axionas de Peano e aliviamos algumas partes da Aritmética. No fundo é quàsi um novo livro. Vou pedir ao Paulo que lhe mande uma cópia. 
Agora estou com vontade de redigir um livro de introdução à topologia geral, como lhe disse na última carta. 
Neste momento estou reoarganizando o meu curso de Análise. Este ano tratei dois capítulos sob o ponto de vista moderno a titulo de experiência: 1) Divisibilidade de Polinómios (ideais de polinómios) 2) Series de Fourier (Aproximação em media quadrática em espaços vectoriais euclideanos - pré-espaços de Hilbert). No fim do ano fiz um inquérito aos alunos para saber que partes do programa prefiriam. Ate agora os dois temas mais votados foram os dois anteriores. Por isso estou com vontade de modernizar completamente o curso. No proximo ano vou modernizar uma parte pelo menos. Começarei pela teoria dos conjuntos e vou dar uns elementos de topologia geral além das noções de anel, dominio de integridade e corpo que já introduzi este ano. Só farei estas coisas na medida em que elas forem susceptiveis de simplificar o estudo do programa da cadeira. 
Eu também gostaria de voltarmos a trabalhar juntos. Isso só seria possível se você viesse, não digo à Argentina porque a distancia é muito grande e a despesa proporcional, mas para a Argentina. Talvez que durante o próximo ano existisse alguma possibilidade de encontrar aqui uma situação. Porém a situação que você aqui teria não se poderia comparar sob o ponto de vlsta financeiro com a que tem actualmente. Além disso as com[od]idades aqui não são muitas, falta muita coisa. Não encontraria de modo algum o conforto e as facilidades de vida que existem em Norte America. segundo a opinião de varias pessoas que me têm contado como é a vida aí. A grande vantagem que aqui tenho, e que me parece importante , é o sistema de trabalho de que já lhe falei em cartas anteriores. Quatro meses de aulas e o resto do tempo livre para estudar, escrever e trabalhar. 
Na minha carta anterior já lhe falei das revistas portuguesas. Também recebi a porcaria do Júdice. Parece que o Zaluar não irá para Paris, ou pelo menos não é certo que vá, dados os corstes no orçamento para a Ciência. O Nelson também não respondeu a varias cartas que escrevi. Sobre a teoria dos operadores, parece-me que o melhor trabalho que se publicou é do Tarski e Mac Kinsey (dois trabalhos do Annals) - Closure algebraic functions, não sei se é êste o titulo, mas são recentes. Escreva quando tiver tempo. Bem, um abraço nosso para a Pilar e outro para si do amigo dedicado 
...

segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

Actuação de António Aniceto Monteiro em Lisboa entre 1939 e 1942 (Hugo Ribeiro)


No primeiro volume (1937) desta publicação [Portugaliae Mathematica], fundada e, nos primeiros anos, editada e administrada por António Monteiro, foi publicada a sua tese de doutoramento (1936) na Universidade de Paris onde ele estudava como bolseiro da Junta de Educação Nacional (depois «Instituto para a Alta Cultura»). Para que a Monteiro fosse possível fazer e ensinar Matemática com alguma estabilidade foi necessário que abandonasse Portugal (1945) onde só voltou 32 anos depois.
Com uma ou outra excepção a Matemática (pura) não era cultivada em Portugal e, assim, as escolas superiores limitavam-se a preparar professores das escolas secundárias, ou técnicos e cientistas que porventura a utilizariam. Foi nesta atmosfera, enormemente agravada pela opressão da ditadura e as guerras civil em Espanha e na Europa, que Monteiro, não participante do ensino oficial, fez entrar uma lufada de ar fresco impulsionando decididamente a Matemática neste país. Este meu breve testemunho refere-se simplesmente ao período 1939-1942 em Lisboa onde ele criou as bases de desenvolvimento então impensáveis.
Além de se ocupar dos planos e mínimos detalhes da publicação e divulgação da Portugaliae Mathematica, já antes de 1939 Monteiro tinha com antigos bolseiros promovido exposições sistemáticas (e a sua publicação) de tópicos que importava divulgar. A clara visão da urgência de trabalho verdadeiramente construtivo em Portugal, a sua incansável iniciativa e, antes de tudo, o seu entusiasmo e determinação eram imediatamente perceptíveis e contagiosos. Cedo teve espontânea colaboração, e especialmente valiosa foi, desde o início, a de Manuel Zaluar Nunes e a de José da Silva Paulo – que durante dezenas de anos aqui mantiveram as revistas criadas. O Instituto para a Alta Cultura, presidido por Celestino da Costa e aconselhado por Pedro José da Cunha, interessava-se, apoiava os seus projectos, e tinha atribuído a Monteiro, que sempre teve necessidade de ocupar muito do seu tempo com lições privadas, uma pequena bolsa. A Faculdade de Ciências emprestava uma sala onde nos reuníamos quase todas as tardes (e mesmo à noite) para nos ocuparmos da Portugaliae Mathematica e, mais tarde, também para seminários informais. Foi a partir destes seminários, onde chegavam as primeiras publicações obtidas por troca, que Monteiro criou o Seminário de Análise Geral e o Centro de Estudos Matemáticos do IAC. Hausdorf (1914) definira e estudara os espaços métricos, Fréchet (1926) publicara Les espaces abstraits e Sierpínski (1928) a sua introdução à topologia geral. Em contraste com a explosão de hoje a Matemática prosseguia vagarosamente, e nós aprendíamos a conhecer melhor as nossas deficiências, o nosso isolamento e as deficiências das nossas bibliotecas. Monteiro iniciou e dirigiu, para o IAC, um serviço de inventariação da bibliografia científica em Portugal. Nas discussões do Seminário, Monteiro punha problemas, observávamos como procurava resolvê-los, tentávamos contribuir e a pouco e pouco aprendíamos a avançar por nós próprios. Começávamos a preparar para publicação os resultados (necessariamente elementares) do nosso trabalho. Nunca mais conheci ninguém que, para aquele nosso nível, fosse tão eficiente na promoção de jovens. Monteiro preocupava-se em que logo que possível fôssemos estudar num bom centro estrangeiro; e conseguiu para nós (também não participantes no ensino oficial) bolsas do IAC que nos permitissem dedicar mais do nosso tempo ao estudo. Outra sua iniciativa, a Gazeta de Matemática, congregou igualmente professores do ensino secundário, dirigia-se a estudantes que entravam nas Universidades e divulgava o que se fazia no Centro e na Sociedade Portuguesa de Matemática que Monteiro também fundou. Tudo isto impulsionou, decerto, o aparecimento e depois desenvolvimento das publicações matemáticas do Porto, da Portugaliae Physica, da Gazeta de Física, da Revista de Economia; e o contacto saudável, embora mais difícil, com outros centros de investigação que se tinham formado, como o da Estação Agronómica Nacional, contribuía para abrir perspecti¬vas muito prometedoras e únicas no desenvolvimento do país.
Desenvolvia-se a correspondência com matemáticos estrangeiros alguns dos quais enviavam trabalhos para a Portugaliae Mathematica, e Monteiro incitava-nos a comunicar com os provavelmente interessados no que fazíamos. Fréchet, Fantappié e Severí vieram fazer lições no Centro. Monteiro conseguia para nós bolsas do IAC no estrangeiro. Mas a guerra na Europa e a burocracia eram dificuldades impossíveis ou difíceis de ultrapassar. Em 1942 um de nós foi para Zürich, e pouco depois três outros para Roma. De fora das escolas, as portas para o futuro da Matemática em Portugal tinham sido, decidida e largamente, abertas pelos esforços, dedicação e coragem de António Monteiro. Mais tarde, decerto com melhores oportunidades, um de nós, José Sebastião e Silva, pôde manter aqui uma brisa desse ar fresco que 40 anos depois, ainda podemos respirar.

Hugo Ribeiro: Actuaçãode António Aniceto Monteiro em Lisboa entre 1939 e 1942, Portugaliae mathematica 39 (1-4), V-VII (1980).

domingo, 16 de dezembro de 2012

António Aniceto Monteiro no Porto

Estas palestras [as duas palestras de António Monteiro sobre Geometrias Finitas e Álgebra finita e Geometria analítica], que se destinavam a um público muito amplo e a que ocorreram efectivamente jovens de todas as Faculdades da Universidade do Porto, deveriam levar à tentativa de organizar no Porto, um clube de Matemática, a exemplo do que já acontecera em Lisboa.
Porém, a intervenção do próprio Ministro do Interior impediu a sua concretização, tal o impacto que causaram em toda a população universitária.
É curioso observar que, nessa época, já funcionavam vários clubes de Matemática em Lisboa, clubes que foram todos encerrados logo em seguida às palestras de Monteiro no Porto.
Para o governo de então, Geometrias finitas, Extensões Algébricas de Corpos e temas semelhantes eram altamente subversivos e punham em risco as instituições vigentes. (...)
Entretanto, no final de 1943 ia proporcionar-se a oportunidade de António Monteiro vir para o Porto e permanecer connosco quase um ano.
Como diz António Monteiro no seu curriculum
“durante o período de 1938-43 todas as minhas funções docentes e de investigação, foram desempenhadas sem remuneração; ganhei a vida dando lições particulares e trabalhando num Serviço de Inventariação de Bibliografia Científica existente em Portugal, organizado pelo IAC”.
Em contraste flagrante com o desinteresse assim manifestado pelas autoridades responsáveis pelo ensino superior do nosso país, comportando-se como se desconhecessem a presença em Portugal de um investigador da categoria de António Monteiro, a Faculdade de Filosofia do Brasil (Rio de Janeiro), por recomendação de Albert Einstein, J. von Neumann e Guido Beck, dirigia-lhe, em Setembro de 1943, um convite para assumir a cátedra de Análise Superior.
Já quando tinha decidido viajar para o Brasil, aceitando aquele convite, funda a Junta de Investigação Matemática, em colaboração com A. de Mira Fernandes e Ruy Luís Gomes. (...)
No documento da fundação da JIM, em que estes objectivos [Os objectivos da Junta de Investigação Matemática] eram proclamados, convidam-se a ingressar na Junta todos aqueles que se interessem por uma tal iniciativa.
Era, porém, evidente, sem meios materiais, seria impossível dar realização a um programa tão ambicioso e foi precisamente com tal objectivo que um grupo de professores e antigos alunos da Faculdade de Ciências do Porto criou a Dotação da Junta de Investigação Matemática e fez distribuir uma circular que era um apelo para recolha de fundos.
Todos nós sentíamos as dificuldades de uma tarefa deste tipo, quando surgiu Alguém, o Dr. António Luiz Gomes, que, entusiasmado com o nosso idealismo e com o alcance do projecto, se lançou apaixonadamente numa campanha de recolha dos necessários meios materiais. Dirigindo-se a amigos seus, conseguiu rapidamente o total, impressionante para a época, de 51.000 escudos. Foi na verdade, meu irmão, António Luiz Gomes “Homem do-Diálogo, Da Solidariedade e Da Indulgência Partilhadas”, no dizer de Fernando Namora, que tornou possível o nosso ambicioso projecto.
Assim, foi contratado pela Junta de Investigação e não por qualquer outra instituição oficial, que António Monteiro se deslocou de Lisboa para o Porto com a família, em Dezembro de 1943 e aí permaneceu até à decisão de emigrar para o Rio de Janeiro, para onde embarcou precisamente no dia 28 de Fevereiro de 1945, de acordo com o telegrama que guardamos no arquivo da Junta de Investigação Matemática, graças à meticulosidade e dedicação do nosso querido amigo Leopoldo Fernandes, que tão abnegadamente se encarregou dos serviços de secretaria da JIM desde a sua fundação até ao encerramento das suas actividades. (...)

quinta-feira, 13 de dezembro de 2012

Minuta da transferência de propriedade da Gazeta de Física de Armando Gibert para a Sociedade Gazeta de Matemática, Limitada (21 de Outubro de 1946)

© Família de António Aniceto Monteiro
=== 
Mais uma vez, a letra desta minuta parece ser a de Avelino Cunhal. Ver:
Minuta da entrega da edição da Portugaliae Mathematica à Sociedade Gazeta de Matemática, Limitada (21 de Outubro de 1946)
-
Armando Gibert
(Fotografia do ficha da SOCIEDADE CORTICEIRA ROBINSON)
(Digitalização amavelmente cedida por Manuela Mendes)
-
No blogue RUY LUÍS GOMES: Armando Gibert
Neste blogue: Armando Gibert

quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

terça-feira, 11 de dezembro de 2012

Minuta da entrega da edição da Portugaliae Mathematica à Sociedade Gazeta de Matemática, Limitada (21 de Outubro de 1946)

© Família de António Aniceto Monteiro
=== 
A letra no cimo desta minuta é, provavelmente, de Avelino Cunhal, como se pode ver comparando-a com a letra da primeira página manuscrita do livro "Nenúfar no charco" (livro de 1934-1935):
Tudo leva a crer que a minuta foi feita pelo próprio Avelino Cunhal e que todos os trâmites legais também foram feitos por ele.
Avelino Cunhal
Agradecimentos: família de Avelino Cunhal
-
Ver:
-
Nesta data, a família Monteiro morava Rua Almirante Alexandrino, 964, na «Pensão Internacional», no Rio de Janeiro, onde também moravam Maria Helena Vieira da Silva e Arpad Szenes.
-
«Havia ainda em Santa Teresa, nessa mesma época, um outro núcleo irradiador de manifestações culturais inovadoras, produzidas a partir do convívio de artistas e intelectuais brasileiros com emigrados europeus. Trata-se da Pensão Internacional, que ocupava alguns chalés anteriormente pertencentes ao requintado e já então desativado Hotel Internacional, localizado na Rua Almirante Alexandrino. Ali pontificavam, na década de 40, o pintor húngaro Arpad Szenes e a pintora portuguesa Maria Helena Vieira da Silva, que eram casados. Entre os moradores da Pensão Internacional estavam, por exemplo, o crítico de arte Rubem Navarra, o cientista Leite Lopes, o poeta português Antônio Boto, o arquiteto belga Jacques Van der Beuque e o pintor Carlos Scliar. O local, onde Szenes estabeleceu o seu ateliê e lecionou pintura, era frequentado também por outros intelectuais e artistas, como os poetas Murilo Mendes e Cecília Meireles, o pintor e escultor Athos Bulcão, o cenógrafo e diretor de teatro Eros Martim Gonçalves e os escritores franceses Michel Simon e Roger Caillois.»
[André Luiz Faria Couto: Pensão Mauá e Hotel Internacional]
-
«A declaração da guerra, em Agosto de 1939, apanha o casal em viagem. Temendo o avanço das tropas alemãs e as consequências pela origem judia de Arpad, partem primeiro para Paris, depois para Lisboa, deixando o atelier do Boulevard Saint-Jacques entregue ao cuidado de Jeanne Bucher. Em Portugal, Vieira requer, para si e para Arpad, a nacionalidade portuguesa. Contraem matrimónio religioso na igreja de São Sebastião da Pedreira e durante quase um ano, vivem e trabalham no atelier do Alto de São Francisco aguardando uma resposta que virá negativa. Sem a protecção da nacionalidade e receando a progressão germânica, o casal decide exilar-se no Brasil.
Em Junho de 1940 Vieira e Arpad embarcam para o Rio de Janeiro. Instalam-se primeiro no Hotel Londres, em Copacabana, e depois numa pensão no Flamengo. Mais tarde Arpad e Vieira mudam-se para o Hotel Internacional, no Silvestre, em Santa Teresa, última morada do casal no Rio de Janeiro. Do seu círculo de amizades fazem parte Murilo Mendes, Cecília Meireles, Carlos Drummond de Andrade, Carlos Scliar, Maria Saudade Cortesão, Ruben Navarra, Athos Bulcão, Martim Gonçalves – dito Eros, entre outros.
O exílio no Brasil foi particularmente doloroso para Vieira e a sua obra reflecte as suas inquietações: a dor da guerra, o absurdo da condição humana, o desenraizamento e a saudade. A artista vê-se despojada de tudo. Um estado de crescente debilidade fá-la abandonar as pesquisas abstractas que só serão retomadas e actualizadas no regresso a Paris, em 1947.»

domingo, 9 de dezembro de 2012

Autorização militar de 14 de Fevereiro de 1945

© Família de António Aniceto Monteiro
=== 
Em 28 de Fevereiro de 1945, António Aniceto Monteiro e família embarcaram para o Brasil... 

sábado, 8 de dezembro de 2012

Autorização militar de 22 de Outubro de 1943

© Família de António Aniceto Monteiro
=== 
Em Outubro de 1943, António Aniceto Monteiro preparava-se para sair imediatamente do país. Esta autorização militar tinha uma parte no lado direito quase semelhante e que foi destacada, possivelmente utilizada na saída de 1945, visto que a de 1945 está intacta, como se verá (embora o seu prazo de validade fosse de um mês).

quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

Procuração a Avelino Cunhal (16 de Outubro de 1943)

Avelino Cunhal (fotografia copiada do livro Nenúfar no Charco)
===
Em Outubro de 1943, António Aniceto Monteiro preparava-se para sair imediatamente do país...
===



 © Família de António Aniceto Monteiro
=== 
O nome de Lídia Monteiro aparece com um erro; onde está "Lídia Moreira", deveria estar "Lídia Marina".
Uma das testemunhas é o médico João Ferreira Marques (ver Ferreira Marques e Bento de Jesus Caraça num passeio no Tejo).
A outra testemunha é Antonino José de Sousa, advogado.
O notário é José Peres de Noronha Galvão (*).
(*) Pai de Maria Luísa Melo de Noronha Galvão.
===
Nesta data, a família Monteiro morava Rua Fábrica das Sedas, 5, rés-do-chão. Actualmente, parece que tal rua não existe, mas existe uma travessa com o mesmo nome que fica na zona das Amoreiras, nas traseiras da Fundação Arpad Szenes - Vieira da Silva; também pode suceder que chamaram "Rua" à "Travessa". Curiosamente, menos de dois anos mais tarde, a família Monteiro iria habitar a «Pensão Internacional», no Rio de Janeiro, onde também moravam Maria Helena e Arpad... (ver Maria Helena Vieira da Silva nasceu há 100 anos).

terça-feira, 4 de dezembro de 2012

Título de isenção do serviço militar (4 e 22 de Outubro de 1943)

© Família de António Aniceto Monteiro
===
Em Outubro de 1943, António Aniceto Monteiro preparava-se para sair imediatamente do país...
===
(...)
No dia 11 de Setembro fui mobilizado como cadete de artilharia. Avisei a Embaixada. Ribeiro Couto aconselhou-me a escrever ao Embaixador. Fi-lo. A Embaixada procurou obter uma autorização para a minha partida por intermédio do ministro dos Negócios Estrangeiros. O médico do meu regimento enviou-me ao Hospital Militar Central onde fui submetido a um exame médico. Como eu tinha uma úlcera no duodeno fui considerado como incapaz para o serviço militar no dia 2 ou 4 de Outubro. Cerca do fim de Outubro quando estava no Hospital recebi um telegrama da Embaixada assinado pelo primeiro secretário, Ribeiro Couto. Dizia que: a Faculdade de Filosofia do Rio considera a sua colaboração como indispensável, e deu a ordem para reservar as suas passagens no primeiro barco.
Logo que saí do Hospital a Embaixada deu-me a ordem para preparar a minha partida para o fim do mês de Outubro, o mais tardar para os primeiros dias de Novembro.
Fiz tudo o que foi possível para arranjar tudo nos prazos fixados. Vendi tudo o que tinha na minha casa. As autorizações militares, ou seja a regula­rização da minha situação militar obtive-a em 15 dias (em geral isso leva um mês e meio e por vezes três meses). Tive o meu passaporte no dia 22 de Outubro.
(...)
===

domingo, 2 de dezembro de 2012

O ano de 1943 e o exílio de Monteiro, em correspondência de Guido Beck

===
(...)
Tenho um pedido para si. R. L. Gomes contou-me as dificuldades que Monteiro actualmente atravessa. Não temos notícias sobre este assunto desde então. Há esperança que a situação se resolva ainda por mais algum tempo? Peço-lhe que me informe se eu posso fazer ou tentar o que quer que seja para que se faça alguma coisa.
(...)
[Carta de Guido Beck (Porto) a Bento de Jesus Caraça (Lisboa), de 7 de Dezembro de 1942]
===
(...)
Sobre o assunto do Monteiro, infelizmente as notícias não são boas. [ilegível] sabe que, por iniciativa do Ministro da E. Nacional, os seus serviços foram dispensados e, sendo assim, acredito que se possa resolver a sua situação no Brasil, caso ele o queira.
(...)
[Carta de Bento de Jesus Caraça (Lisboa)a Guido Beck (Porto), de 13 de Dezembro de 1942]
===
(...)
Como vão as coisas com Monteiro? Não tenho tido notícias directamente ele. O seu assunto, vai resolver-se? Gostaria muito de o ver em boas condições gostaria muito de acelerar o seu convite para ir para a América.
(...)
[Carta de Guido Beck (Porto) a Bento de Jesus Caraça (Lisboa), de 28 de Janeiro de 1943. Nesta carta fica claro que Guido Beck se preparava para partir para a Argentina, com trânsito pelo Brasil]
===
(...)
O caso do Monteiro está por agora resolvido e não se pode fazer nada, de momento pelo menos.
(...)
[Carta de Bento de Jesus Caraça (Lisboa) a Guido Beck (Porto), de 3 de Fevereiro de 1943]
===
(...)
Acabei de ver o Monteiro. Pessoalmente está bastante bem, mas, apesar de tudo, espero vê-lo brevemente na América onde poderá desenvolver todas as suas grandes qualidades.
(...)
[Carta de Guido Beck (já em Lisboa) a Ruy Luís Gomes (Porto), de 24 de Fevereiro do 1943]
===
(...)
Peço-lhe para informar Monteiro dos esforços que por aqui tenho desenvolvido: Não pude desembarcar no Brasil, e precisava, depois de várias cartas, mandar um telegrama para São Paulo, antes de contactar com o Sr. Wattaghin. E é por isso que tive de atrasar o telegrama. Faço, naturalmente, o impossível para acelerar as coisas. Monteiro está proposto para uma cadeira este ano, o ano passado isso não era possível, mas agora as condições são muito boas. Todavia, não se sabe quando é que o Ministério efectuará a nomeação. É por isso que haveria vantagem em que o Monteiro pudesse ir, independentemente das diligências oficiais, para o Brasil. Também falei para São Paulo, no sentido de enviarem a Monteiro um convite oficial para fazer uma conferência, caso seja possível, para facilitar a sua viagem. Seguidamente, pedi ao v. Neumann, em Princeton, para, entretanto, encontrar uma bolsa para Monteiro. E para me enviar uma carta de recomendação, o que facilitaria novas diligências. Aguardo. Estou em contacto com o Sr. Balanzat: poderemos fazer sondagens quer aqui quer no Peru. As hipóteses são grandes, mas a dificuldade estará em organizar a viagem em pouco tempo. Em todo o caso tenta-se...
(...)
[Carta de Guido Beck (Córdoba, Argentina) a Ruy Luís Gomes (Porto), de l de Julho de 1943]
===
(...)
Ainda uma mão cheia de novidades:
(...)
2. A nomeação de Monteiro no Rio caiu cá como uma bomba. Todos ficam de boca aberta e diz-se: Mas Beck conseguiu! E tão rapidamente! Começam a compreender.
(...)
[Carta de A. L. Fernandes de Sá (Porto) a Guido Beck (Argentina]
===
(...)
DOUTOR GUIDO BECK OBSERVATÓRIO ASTRONÓMICO
CÓRDOBA ARGENTINA
GRANDE SATISFAÇÃO CONTRATO MONTEIRO STOP ESTOU COMUNICAÇÃO EMBAIXADA BRASILEIRA STOP PROCA CHEGOU A LISBOA GRANDE ABRAÇO
RUY GOMES
[Telegrama de Ruy Luís Gomes (Porto) a Guido Beck (Córdoba, Argentina, de 7 de Agosto de 1943]
===
MONTEIRO CONTRATADO COM APROVAÇÃO MINISTERIAL FACULDADE RIO DE JANEIRO STOP ROGO TOMAR O CONTACTO COM EMBAIXADA BRASILEIRA LISBOA QUE TRANSMITA CONTACTO
GUIDO BECK
[Telegrama de Guido Beck (Córdoba, Argentina) a Ruy Luís Gomes (Porto]
===
(...)
Transmiti ao Dr. António Monteiro o conteúdo do vosso telegrama e já nos pusemos em contacto com a Embaixada do Brasil sobre o assunto mas até à data não tinham indicações nenhumas sobre os termos do respectivo contrato. Sei que telegrafaram imediatamente para o Rio de Janeiro a pedir instruções.
(...)
[Carta de Ruy Luís Gomes (Porto) a Guido Beck (Córdoba, Argentina), de 25 de Agosto de 1943]
===
NENHUMA DIFICULDADE SAÚDE EMBAIXADA ATRIBUI DIFICULDADES ENVIO DINHEIRO VIAGENS ORDEM EMBAIXADA PRONTO PARTIR PASSAPORTES REGRA DESDE OUTUBRO CASA VENDIDA DESEMPREGO SITUAÇÃO INSUSTENTÁVEL INTERVENHA URGÊNCIA
ANTÓNIO MONTEIRO
[Telegrama de António Aniceto Monteiro a Guido Beck]
===
Senhor Director,
Tomo a liberdade, desde já, de lhe pedir que aceite os meus agradecimentos mais calorosos por se ter dignado receber a Sr.a O. Deimlová e pela atenção em lhe ter dado as informações relativas ao caso do Sr. António Monteiro que ela me transmitiu. Agradeço-lhe, ao mesmo tempo o benévolo interesse que se dignou conceder ao Sr. Monteiro.
Transmiti de seguida as suas informações aos meus amigos em Portugal e acabo de receber o seguinte telegrama do Sr. Monteiro:
«EMBAIXADA ATRIBUI DEMORA DIFICULDADES ENVIO DINHEIRO VIAGENS ORDEM EMBAIXADA PRONTO PARTIR PASSAPORTES REGRA DESDE OUTUBRO».
Concluí desse telegrama, que o Sr. António Monteiro está pronto a partir para tomar posse das suas funções na sua Faculdade e que todos os seus documentos de viagem estão em ordem. Suponho, que as dificuldades que o Sr. Monteiro eventualmente encontrou para obter a autorização indispensável para sair de Portugal foram superadas há alguns meses e que foram devidas a um simples mal-entendido. Seria, com efeito, espantoso que as autoridades portuguesas tivessem negado a Monteiro a autorização para assumir as suas funções se elas não tivessem a intenção de o reter em Portugal para lhe oferecerem uma cadeira equivalente àquela que lhe foi oferecida no Rio de Janeiro.
Por outro lado, sei que o Sr. Monteiro já preparou a sua partida, abandonando o seu apartamento em Lisboa etc. e receio que ele se veja colocado numa situação muito embaraçosa se a sua partida for consideravelmente atrasada. É por isso que tomo a liberdade de lhe pedir que se digne fazer as diligências úteis para assegurar uma partida próxima desse jovem sábio de talento excepcional. Além disso, coloco-me inteiramente ao seu dispor para fazer, pelo meu lado, as diligências que forem necessárias de modo a contribuir para solucionar rapidamente as dificuldades que ainda apareçam. Se se tratarem de dificuldades administrativas em Portugal, colocar-me-ei em contacto com os amigos que tenho em Portugal nas três universidades e nos ministérios logo que mas indique. Se, por outro lado, se tratam de dificuldades que podem ser resolvidas no Rio de Janeiro, preparei um relatório sobre a situação do Sr. Monteiro e sobre a sua capacidade científica que acabo de submeter aos professores de matemática das 6 universidades deste país e que tomarei a liberdade de lhe fazer chegar com as suas assinaturas para solicitar o apoio do Senhor Ministro da Educação Nacional no Rio de Janeiro.
Na esperança que o seu interesse e o seu benevolente apoio permita assegurar dentro em pouco a continuação dos trabalhos de pesquisa de importância universalmente reconhecida do Sr. Monteiro e na esperança de poder assim contribuir para a grande obra das vossas instituições peço-lhe, Senhor Director, que creia na expressão dos meus sentimentos respeitosamente dedicados
(Prof. Dr. Guido Beck)
[Carta de Guido Beck (Córdoba, Argentina) ao Director da Faculdade Nacional de Filosofia, Francisco Clementino San Tiago Dantas (Rio de Janeiro), de 19 de Janeiro de 1944]
===
===
Ver a carta seguinte:
===
Ver ainda: