terça-feira, 30 de janeiro de 2018

«Voltei a falar com o Andrade e Silva e com o Ruy e também com a Marieta que havia recebido uma carta do Valadares alertando-a para a necessidade de resolver rapidamente o caso que lhe criaram. (…) Consegui ontem à noite uma garantia do Andrade e Silva… (…) Soube de tarde pela Marieta que um recado foi enviado ao Álvaro para apoiar o seu caso. Eu entretanto tinha informado os colegas da Matemática em Lisboa sobre isto e já lhe assinalei que todos estavam dispostos a uma mobilização para apoiar diligências adequadas. Também ontem vi o Piteira Santos que me disse que, se necessário, poderia estabelecer contacto com o Presidente do Conselho para assegurar-lhe uma situação condigna no país.» – carta de Alfredo Pereira Gomes para António Aniceto Monteiro, de 15 de Maio de 1975



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Andrade e Silva: João Luis Andrade e Silva
Valadares: Manuel Valadares
Álvaro: Álvaro Cunhal, na época ministro sem pasta do IV Governo Provisório
Piteira: Piteira Santos
Presidente do Conselho: deve tratar-se do primeiro-ministro Vasco Gonçalves
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Ver ainda neste blogue:
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«O Professor António Aniceto Monteiro após o seu Doutoramento em Paris, como bolseiro do Instituto de Alta Cultura, foi nomeado, em julho de 1936, investigador deste Instituto tendo sido em outubro do mesmo ano demitido pela honrosa razão de não assinar a declaração do conhecido decreto nº 27.003 ficando em consequência impossibilitado de prosseguir uma carreira docente universitária o que havia de o conduzir ao exílio anos mais tarde», carta da FCUL de 7 de Outubro de 1976

«Interrompi esta carta pois o Ruy me telefonou anunciando ter recebido uma carta sua de 7/05, noticiando as diligências que González Domínguez, Santaló, etc. tinham feito para resolver a sua situação junto do Conselho Superior de Investigações.» – carta de Alfredo Pereira Gomes para António Aniceto Monteiro, de 15 de Maio de 1975


 (continua)
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Neste blogue:

segunda-feira, 29 de janeiro de 2018

«Chegou-me pelo Vasconcelos a notícia de que V. havia sido afastado da Universidade de Bahía Blanca, bem como seu filho Luiz. Entretanto soube que do Porto já lhe haviam enviado telegrama oferecendo-vos todo o apoio para uma situação profissional que possa agradar-vos em Portugal. Falei hoje com o presidente do Instituto de Alta Cultura (o físico e meu amigo João Andrade e Silva)...» – carta de Alfredo Pereira Gomes para António Aniceto Monteiro, de 15 de Maio de 1975

(continua)
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Ver, neste blogue:

«Estive em fim de Setembro no Rio, onde falei com o Danon, Darcy Ribeiro e Nachbin. Soube que o actual ministro dos assuntos exteriores é amigo velho do Leite Lopes, Darcy e Nachbin. Lembrei-me que seria oportuno tratar agora do seu antigo caso… (…) Falei nisso ao Danon, Darcy (que é assessor do ministro da educação e cultura) e ao próprio Nachbin, que tomou nota do assunto.» – excerto de carta de Alfredo Pereira Gomes para António Aniceto Monteiro, de 7 de Novembro de 1961



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Neste blogue: Leopoldo Nachbin
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Nesta ocasião o Presidente da República brasileira era João Goulart, o que explica o ambiente favorável a Monteiro. Darcy Ribeiro tornar-se-á mais tarde Reitor da Universidade de Brasília e Ministro da Educação do governo de João Goulart.  

quinta-feira, 25 de janeiro de 2018

«Quando lá cheguei [a Portugal] o Ruy estava novamente preso. (…) Entretanto estava bastante interessado em redigir um curso (…) destinado aos alunos com o 2º ano da Fac. Cien. de Coimbra, a efectuar por iniciativa da Associação Académica de Coimbra… (…) E a miséria que vi nas terras onde estive no norte do nosso país, horrorizado e revoltado. (…) Tive por outro lado ocasião de ver que continua havendo quem reme corajosamente e com decisão contra esta maré.» – excerto de carta de Alfredo Pereira Gomes para António Aniceto Monteiro, de 21 de Outubro de 1950

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«Preso pela Sub-Directoria do Porto em 19 de Junho de 1950, para averiguações por actividades contra a segurança do Estado. Posto à disposição do Primeiro Juízo Criminal do Porto em 28 de Agosto de 1950. Restituído à liberdade condicional em 31 de Agosto de 1950, por ordem do Primeiro Juízo Criminal do Porto. Por despacho do Juiz do Primeiro Juízo Criminal do Porto, de 14 de Janeiro de 1951 foi despronunciado, aguardando o processo melhor prova. [Ver Fotografias de Ruy Luís Gomes feitas pela PIDE]. Preso, juntamente com Virgínia Moura, em Junho de 1950, acusado de dar cobertura legal a uma tipografia que a PIDE considerava clandestina. O juiz entendeu que não havia matéria para incriminação e foi posto em liberdade.»

segunda-feira, 22 de janeiro de 2018

Na morte de Soeiro Pereira Gomes – carta de Alfredo Pereira Gomes para António Aniceto Monteiro, de 10 de Fevereiro de 1950

(continua)
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Muito lhe agradeço as palavras amigas da sua carta que hoje recebi. A simpatia e apreço que testemunha pela memória do meu irmão são-me particularmente gratas. Ele tinha-se tornado a meus olhos um alto exemplo de coragem e, para além do muito que lhe queria, admirava-o por tudo o que ele conseguiu nestes últimos anos. Foi um golpe terrível que aqui vivi sozinho, em horas amargas, a notícia da sua morte. Consola-me pensar quanto foram úteis os seus sacrifícios e que a luta em que se empenhou não terá sido em vão.

domingo, 21 de janeiro de 2018

«Informe-se junto do Fréchet quando termina o prazo para entrega dos trabalhos para o concurso aberto pela Sociedade Matemática de França por ocasião do seu jubileu e mande-me notícias na volta do correio.»– carta de António Aniceto Monteiro para Alfredo Pereira Gomes, de 31 de Janeiro de 1950

Na morte de Soeiro Pereira Gomes – carta de António Aniceto Monteiro para Alfredo Pereira Gomes, de 31 de Janeiro de 1950

(continua)
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Antes de mais nada quero enviar-lhe os meus pêsames pelo falecimento de seu irmão. Tive ontem essa triste notícia por intermédio de minha mulher, que me a tinha ocultado para me evitar mais um desgosto depois do período que tenho passado cheio de inquietações e aborrecimentos. Embarquei para a Argentina no dia 30 de Novembro, mas a Lídia só partiu no dia 15 de Dez. por causa dos exames dos garotos. Foi nesse período que chegou uma carta do Ferreira Marques com a triste notícia. Entretanto nada me comunicou, sem coragem para o fazer. Mas ontem quando lhe disse que lhe ia escrever, não teve outro remédio.
Não encontro palavras para lhe exprimir o desgosto que senti. Tinha por seu irmão uma grande estima e admiração. Considerava-o um dos representantes mais ilustres daquela inteligência por­tuguesa que coloca os interesses do povo da nossa terra acima de tudo, que sabe viver e sofrer por ele sem medir os sacrifícios. Foi um desastre para a nossa cultura que ele tivesse falecido em plena juventude, quando tanto nos podia ainda dar. Parece que o destino se compraz em nos levar o que temos de melhor, como se não bastassem já os sofrimentos de tantos anos de ditadura, acom­panhados do aniquilamento de tantas esperanças e sonhos. Sinto cada vez uma amargura maior, com tudo o que se vai passando em Portugal. Segundo as notícias que me mandam, devemos encarar por largo tempo a hipótese de não voltar. Recebi em Setembro passado uma carta do Sebastião Silva, que dava vontade de chorar.
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Soeiro Pereira Gomes faleceu no dia 5 de Dezembro de 1949, precisamente o dia em que Monteiro chegou a Buenos Aires.
Ver neste blogue: Soeiro Pereira Gomes
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Carta de Sebastião e Silva mencionada nesta:
«Se eu conseguir manter-me aqui, creia que não pensarei apenas em mim: esforçar-me-ei, nos limites do possível, por dar continuidade à sua obra iniciada há dez anos e cuja vitalidade, apesar de tudo, tem sido muito superior ao que podíamos esperar. Pode dizer-se que Portugal só passou a existir, no domínio da Matemática, a partir da sua actuação.» - carta de Sebastião e Silva para António Aniceto Monteiro, de 22 de Setembro de 1949

«Dentro de 4 dias passará pelo Rio o professor Santaló, a caminho da Argentina, com quem vou conversar a respeito de tudo isto. (…) Acabo de receber uma carta de um amigo segundo a qual correm em Lisboa os boatos mais antagónicos a meu respeito... (…) Mesmo aqui no Rio quando os estudantes de Matemática e Física da Faculdade Nacional de Filosofia preparavam uma representação que foi depois apresentada à Congregação da Faculdade, a propósito do meu contrato, eles "souberam" que eu não era contratado este ano porque eu tinha aceite um convite para um lugar de professor na Universidade de Coimbra.» – carta de António Aniceto Monteiro para Alfredo Pereira Gomes, de 16 de Abril de 1949


Ver neste blogue: «Tendo nós, alunos do curso de Matemática e Física desta Faculdade, tomado conhecimento de rumores segundo os quais não veria renovado o seu contrato para o próximo ano o professor Antônio A. Monteiro…» – exposição dirigida à Egrégia Congregação da Faculdade Nacional de Filosofia em 1948

«Devo ainda acrescentar que outras diligências estão ainda em curso neste momento, em particular no México e nos Estados Unidos, sem que tenham ainda conduzido a qualquer resultado. (…) Informaram-me já dois amigos brasileiros (…) que deve ser provável que os esforços do Stone e do Albert conduzam a resultados positivos. (…) Mas nas actuais circunstâncias do mundo duvido que pudesse viver feliz no ambiente existente. Pensei até certa altura que as eleições do ano passado conduzissem a outros resultados, mas os acontecimentos se encarregaram de me desiludir. Finalmente há ainda a hipótese de poder trabalhar num centro de pesquisas particular que foi aqui criado, mas não é certo.» – carta de António Aniceto Monteiro para Alfredo Pereira Gomes, de 16 de Abril de 1949


(continua)
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Neste trecho, Monteiro refere-se às eleições presidenciais de 1948 nos EUA.