domingo, 30 de dezembro de 2012

Brasil, 1948: «Isto é um inferno...» (Carta a Guido Beck, de 28 de Julho de 1948, proveniente do Rio de Janeiro)

(...)
Aproveito a oportunidade para lhe falar de outros assuntos. O Carlos Chagas director do Instituto Biofísica da Universidade do Brasil pediu-me para escrever ao Valadares perguntando se ele estaria disposto a trabalhar no seu Instituto. Arranjando trabalho para ele e para a mulher dar-lhe-ia um vencimento de 12 contos por mês. Resta estudar as restantes condições do contrato. Vamos a ver o que diz o Valadares. Agora está como «maitre de recherches» em Paris, mas a vida por lá ainda está difícil.
A minha situação continua na mesma ou antes está cada vez pior. Este mês não recebi ordenado e não sei como vou pagar a renda da casa dentro de 3 dias bem como o ordenado da empregada. Já devo 4 ou 5 meses de mensalidades no colégio de meus filhos. Isto é um inferno e estou cada vez mais desesperado com os meus colegas que nada fazem para apressar a resolução do problema. O contrato está neste momento no DASP (Departamento Administrativo do Serviço Público) e ainda tem que voltar para a Presidência da República. Se não se resolve tudo isto dentro de 15 dias estarei até ao fim de Setembro sem vencimentos, porque não receberei no fim de Agosto. Neste momento a Faculdade já me deve 25 contos de ordenados. O meu crédito está praticamente esgotado. Não sei a quem pedir dinheiro. Um inferno que você conhece bem.
Mande-me as notícias que lhe pedi sobre a Argentina, com a possível brevidade. Se acha que é possível viver em sossego aí, pode fazer algumas sondagens a respeito da possibilidade de me arranjarem um contrato estável. Trate do problema sem compromisso. Devo porém dizer-lhe que estou cada vez mais inclinado a sair do Brasil. Isto é uma bagunça! De resto este ano o Nachbin vai para os Estados Unidos e as pessoas que cá ficam tem pouco interesse. Vamos a ver. Não se esqueça de mandar a sua opinião sobre o Peru, país que gostava muito de conhecer. Se encontrasse uma solução satisfatória estaria disposto a sair do Brasil em fins de Dezembro. Escreva na volta do correio sobre este assunto.
Em tempos o Hugo Ribeiro, que está em Berkeley, escreveu-me (em Dezembro do ano passado) perguntando-me se estaria interessado em ir para Bozeman (estado de Montana) nos Estados Unidos. A incerteza da situação internacional levou-me a pôr de lado essa ideia. Contei o facto ao Stone numa carta recente e a esse respeito disse-me o seguinte na carta que me escreveu:
«I am sorry that you were not able to consider the post at Bozeman seriously. To go there would undoubtedly have been a strange and perhaps trying experience for you, but it might have led to a position more nearly in accord with your tastes and needs. Montana, of course, is one of the thinly populated parts of the country with great mountains and some remnants of the “frontier spirit”. Perhaps you will think again of coming to the U.S. If so, please keep me informed in the event that I have knowledge which could be of use to you.»
Por enquanto não estou animado a pensar em ir para os Estados Unidos, muito embora reconheça as enormes vantagens que teria sob o ponto de vista científico. Não posso prever o que vai acontecer, continuará a vigorar um regime democrático ou continuará nitidamente para um regime fascista? Não tenho a mais pequena intenção, enquanto estiver no estrangeiro, de me ocupar de actividades políticas. O pouco que aqui fiz há mais de dois anos passados, mostraram-me que não tenho jeito, nem capacidade, para semelhantes actividades - que prejudicaram de resto a minha vida científica.
Também conheço mal a situação na Argentina. Mas seria possível viver em paz, sem ser perseguido pelas minhas opiniões? Deve responder com precisão a esta pergunta, dizendo o que pensa.
A vida está cada vez mais difícil e talvez chegue o dia em que a única solução na América seja um indivíduo atirar-se ao mar.
(...)
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Ver ainda

quarta-feira, 26 de dezembro de 2012

Cronologia: Brasil, 1945-1949 e 1956-1964


1. O Brasil nos anos em que António Aniceto Monteiro aí viveu (segundo a Wikipédia):
1945 no Brasil
1946 no Brasil
1947 no Brasil
1948 no Brasil
1949 no Brasil


2. Cronologia de António Aniceto Monteiro:
1945
António Aniceto Monteiro vê-se obrigado a sair de Portugal, porque lhe vedaram a entrada na carreira académica, por razões políticas. Com recomendação de Albert Einstein, J. von Neumann e Guido Beck obtém uma cátedra de Análise Superior no Rio de Janeiro, na Faculdade Nacional de Filosofia (o convite tinha sido feito em Setembro de 1943). Em 28 de Fevereiro, António Aniceto Monteiro embarca para o Rio de Janeiro onde chega com um contrato por quatro anos o qual não será renovado por influência da Embaixada de Portugal.
É nomeado membro del Comité de Redacção da Revista Summa Brasiliensis Mathematicae que a Fundação Getúlio Vargas edita.
1945-1946
António Monteiro é investigador do Núcleo Técnico Científico da Fundação Getúlio Vargas (Rio de Janeiro), dirigido por Lélio Gama.
1946
Julho: Doutora-se Alfredo Pereira Gomes na Universidade do Porto, depois de ter sido orientado por António Aniceto Monteiro.
1948
António Monteiro inicia a série de publicações intituladas Notas de Matemática. Nos anos 1948-1949, são editados seis fascículos. Mais tarde, depois de sua ida para a Argentina, esta colecção será publicada sob a direcção de Leopoldo Nachbin alcançando uma grande difusão na América Latina.
1949
António Monteiro participa activamente na criação do Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas, no Rio de Janeiro, do qual é membro fundador e para o qual é contratado como investigador de Matemática.
Lecciona um curso de Introdução à Matemática para os investigadores de Instituto de Biofísica da Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro por convite do seu Director Carlos Chagas.
Em 5 de Dezembro, vindo do Brasil, chega à Argentina (Buenos Aires), contratado pela Universidad Nacional de Cuyo (sediada na cidade de San Juan, província de San Juan). De 1950 até 1956 é aí docente de Análise Matemática na Facultad de Ingeniería, Ciencias Exactas, Físicas y Naturales.
A partir de 1950 é professor de Matemáticas Superiores na Faculdade de Ciências da Educação da mesma universidade, na cidade de San Luis.

3. O Brasil desde a eleição de Juscelino Kubitschek até ao Golpe Militar de 1964 (segundo a Wikipédia):
1956 no Brasil
1957 no Brasil
1958 no Brasil
1959 no Brasil
1960 no Brasil
1961 no Brasil
1962 no Brasil
1963 no Brasil
1964 no Brasil

4. Cronologia de António Aniceto Monteiro:
1959
Designado Organizador do Instituto de Matemática da Universidad Nacional del Sur, por diploma de 1959.
É convidado pelo Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas, na sua qualidade de Membro Fundador, para assistir à comemoração do décimo aniversário da sua fundação, permanecendo no Rio de Janeiro de Julho a Novembro. Em Julho participa como convidado no 2º Colóquio Brasileiro de Matemática, que se realiza em Poços de Caldas (Brasil), dando conferências entre as quais expõe as suas pesquisas sobre Álgebras Monádicas.

5. Ver ainda (sobre este segundo período):
A luta dos Antifascistas Portugueses do Brasil contra a ditadura de Salazar e o Colonialismo, por Miguel Urbano Rodrigues
Após a chegada ao Rio de Janeiro do general Humberto Delgado, em 21 de Abril de 1959, dia do Tiradentes, a acção da PIDE (Polícia Internacional e de Defesa do Estado – a polícia política portuguesa do tempo de Salazar) intensificou-se no Brasil. A PIDE tinha informadores e agentes infiltrados naquele país que relatavam a actividade do numeroso grupo de exilados políticos que aí viviam. Esses relatórios têm, é claro, a credibilidade que merecem...
Antes de partir para o exílio, Humberto Delgado esteve refugiado na Embaixada do Brasil em Lisboa, desde 12 de Janeiro de 1959. O embaixador era Álvaro Lins, grande amigo da oposição portuguesa, tendo presidido à 1ª Conferência Inter-americana da Amnistia para os Exilados e Presos Políticos da Espanha e de Portugal, realizada na Faculdade de Direito de São Paulo em 1960.
Os documentos aqui reproduzidos constam do Processo 558/67-SR, NP-3577 (folhas 26, 27, 35, 37, 40), do Arquivo da PIDE/DGS, relativo a António Aniceto Monteiro, existente na Torre do Tombo (IAN/TT).
Os recortes de jornais são ambos do «Portugal Democrático» e fazem parte integrante de relatórios da PIDE. As «Declarações do prof. Aniceto Monteiro» são do nº 32 de Janeiro de 1960. O telegrama enviado ao jantar de homenagem a Álvaro Lins (que se tinha realizado em 5 de Maio, em S. Paulo) foi publicado no nº 37 de Junho de 1960.

quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

«Acabo de sofrer um rude golpe...», «Já terminei com o trabalho da Aritmética...», «Eu também gostaria de voltarmos a trabalhar juntos» (Carta a Hugo Ribeiro, escrita de San Juan, Argentina, e datada de 4 de Janeiro de 1951)


© Família de António Aniceto Monteiro
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San Juan, 4 de Janeiro de 1951  
Caro Hugo: 
Recebi a sua carta de 16 de Dez. que muito lhe agradeço. Acabo de sofrer um rude golpe com o falecimento de minha mãe. A esperança que ambos tínhamos de nos tornarmos a ver ficou assim definitivamente malograda. 
Já terminei com o trabalho da Aritmética, que vamos apresentar a concurso. O Paulo deu-me a noticia das novas condições que regem a adopção dos livros para o ensino secundário suficientemente tarde para que tudo tivesse de ser feito à pressa e à última hora. E êle foi membro do juri qua examinou os trabalhos apresentados a concurso o ano passado. Agora há o sistema de livro único, havendo um concurso cada 5 anos. O ano passado reprovaram quasi tôdos os livros de matemática. 
Em virtude do programa, partimos dos axionas de Peano e aliviamos algumas partes da Aritmética. No fundo é quàsi um novo livro. Vou pedir ao Paulo que lhe mande uma cópia. 
Agora estou com vontade de redigir um livro de introdução à topologia geral, como lhe disse na última carta. 
Neste momento estou reoarganizando o meu curso de Análise. Este ano tratei dois capítulos sob o ponto de vista moderno a titulo de experiência: 1) Divisibilidade de Polinómios (ideais de polinómios) 2) Series de Fourier (Aproximação em media quadrática em espaços vectoriais euclideanos - pré-espaços de Hilbert). No fim do ano fiz um inquérito aos alunos para saber que partes do programa prefiriam. Ate agora os dois temas mais votados foram os dois anteriores. Por isso estou com vontade de modernizar completamente o curso. No proximo ano vou modernizar uma parte pelo menos. Começarei pela teoria dos conjuntos e vou dar uns elementos de topologia geral além das noções de anel, dominio de integridade e corpo que já introduzi este ano. Só farei estas coisas na medida em que elas forem susceptiveis de simplificar o estudo do programa da cadeira. 
Eu também gostaria de voltarmos a trabalhar juntos. Isso só seria possível se você viesse, não digo à Argentina porque a distancia é muito grande e a despesa proporcional, mas para a Argentina. Talvez que durante o próximo ano existisse alguma possibilidade de encontrar aqui uma situação. Porém a situação que você aqui teria não se poderia comparar sob o ponto de vlsta financeiro com a que tem actualmente. Além disso as com[od]idades aqui não são muitas, falta muita coisa. Não encontraria de modo algum o conforto e as facilidades de vida que existem em Norte America. segundo a opinião de varias pessoas que me têm contado como é a vida aí. A grande vantagem que aqui tenho, e que me parece importante , é o sistema de trabalho de que já lhe falei em cartas anteriores. Quatro meses de aulas e o resto do tempo livre para estudar, escrever e trabalhar. 
Na minha carta anterior já lhe falei das revistas portuguesas. Também recebi a porcaria do Júdice. Parece que o Zaluar não irá para Paris, ou pelo menos não é certo que vá, dados os corstes no orçamento para a Ciência. O Nelson também não respondeu a varias cartas que escrevi. Sobre a teoria dos operadores, parece-me que o melhor trabalho que se publicou é do Tarski e Mac Kinsey (dois trabalhos do Annals) - Closure algebraic functions, não sei se é êste o titulo, mas são recentes. Escreva quando tiver tempo. Bem, um abraço nosso para a Pilar e outro para si do amigo dedicado 
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segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

Actuação de António Aniceto Monteiro em Lisboa entre 1939 e 1942 (Hugo Ribeiro)


No primeiro volume (1937) desta publicação [Portugaliae Mathematica], fundada e, nos primeiros anos, editada e administrada por António Monteiro, foi publicada a sua tese de doutoramento (1936) na Universidade de Paris onde ele estudava como bolseiro da Junta de Educação Nacional (depois «Instituto para a Alta Cultura»). Para que a Monteiro fosse possível fazer e ensinar Matemática com alguma estabilidade foi necessário que abandonasse Portugal (1945) onde só voltou 32 anos depois.
Com uma ou outra excepção a Matemática (pura) não era cultivada em Portugal e, assim, as escolas superiores limitavam-se a preparar professores das escolas secundárias, ou técnicos e cientistas que porventura a utilizariam. Foi nesta atmosfera, enormemente agravada pela opressão da ditadura e as guerras civil em Espanha e na Europa, que Monteiro, não participante do ensino oficial, fez entrar uma lufada de ar fresco impulsionando decididamente a Matemática neste país. Este meu breve testemunho refere-se simplesmente ao período 1939-1942 em Lisboa onde ele criou as bases de desenvolvimento então impensáveis.
Além de se ocupar dos planos e mínimos detalhes da publicação e divulgação da Portugaliae Mathematica, já antes de 1939 Monteiro tinha com antigos bolseiros promovido exposições sistemáticas (e a sua publicação) de tópicos que importava divulgar. A clara visão da urgência de trabalho verdadeiramente construtivo em Portugal, a sua incansável iniciativa e, antes de tudo, o seu entusiasmo e determinação eram imediatamente perceptíveis e contagiosos. Cedo teve espontânea colaboração, e especialmente valiosa foi, desde o início, a de Manuel Zaluar Nunes e a de José da Silva Paulo – que durante dezenas de anos aqui mantiveram as revistas criadas. O Instituto para a Alta Cultura, presidido por Celestino da Costa e aconselhado por Pedro José da Cunha, interessava-se, apoiava os seus projectos, e tinha atribuído a Monteiro, que sempre teve necessidade de ocupar muito do seu tempo com lições privadas, uma pequena bolsa. A Faculdade de Ciências emprestava uma sala onde nos reuníamos quase todas as tardes (e mesmo à noite) para nos ocuparmos da Portugaliae Mathematica e, mais tarde, também para seminários informais. Foi a partir destes seminários, onde chegavam as primeiras publicações obtidas por troca, que Monteiro criou o Seminário de Análise Geral e o Centro de Estudos Matemáticos do IAC. Hausdorf (1914) definira e estudara os espaços métricos, Fréchet (1926) publicara Les espaces abstraits e Sierpínski (1928) a sua introdução à topologia geral. Em contraste com a explosão de hoje a Matemática prosseguia vagarosamente, e nós aprendíamos a conhecer melhor as nossas deficiências, o nosso isolamento e as deficiências das nossas bibliotecas. Monteiro iniciou e dirigiu, para o IAC, um serviço de inventariação da bibliografia científica em Portugal. Nas discussões do Seminário, Monteiro punha problemas, observávamos como procurava resolvê-los, tentávamos contribuir e a pouco e pouco aprendíamos a avançar por nós próprios. Começávamos a preparar para publicação os resultados (necessariamente elementares) do nosso trabalho. Nunca mais conheci ninguém que, para aquele nosso nível, fosse tão eficiente na promoção de jovens. Monteiro preocupava-se em que logo que possível fôssemos estudar num bom centro estrangeiro; e conseguiu para nós (também não participantes no ensino oficial) bolsas do IAC que nos permitissem dedicar mais do nosso tempo ao estudo. Outra sua iniciativa, a Gazeta de Matemática, congregou igualmente professores do ensino secundário, dirigia-se a estudantes que entravam nas Universidades e divulgava o que se fazia no Centro e na Sociedade Portuguesa de Matemática que Monteiro também fundou. Tudo isto impulsionou, decerto, o aparecimento e depois desenvolvimento das publicações matemáticas do Porto, da Portugaliae Physica, da Gazeta de Física, da Revista de Economia; e o contacto saudável, embora mais difícil, com outros centros de investigação que se tinham formado, como o da Estação Agronómica Nacional, contribuía para abrir perspecti¬vas muito prometedoras e únicas no desenvolvimento do país.
Desenvolvia-se a correspondência com matemáticos estrangeiros alguns dos quais enviavam trabalhos para a Portugaliae Mathematica, e Monteiro incitava-nos a comunicar com os provavelmente interessados no que fazíamos. Fréchet, Fantappié e Severí vieram fazer lições no Centro. Monteiro conseguia para nós bolsas do IAC no estrangeiro. Mas a guerra na Europa e a burocracia eram dificuldades impossíveis ou difíceis de ultrapassar. Em 1942 um de nós foi para Zürich, e pouco depois três outros para Roma. De fora das escolas, as portas para o futuro da Matemática em Portugal tinham sido, decidida e largamente, abertas pelos esforços, dedicação e coragem de António Monteiro. Mais tarde, decerto com melhores oportunidades, um de nós, José Sebastião e Silva, pôde manter aqui uma brisa desse ar fresco que 40 anos depois, ainda podemos respirar.

Hugo Ribeiro: Actuaçãode António Aniceto Monteiro em Lisboa entre 1939 e 1942, Portugaliae mathematica 39 (1-4), V-VII (1980).

domingo, 16 de dezembro de 2012

António Aniceto Monteiro no Porto

Estas palestras [as duas palestras de António Monteiro sobre Geometrias Finitas e Álgebra finita e Geometria analítica], que se destinavam a um público muito amplo e a que ocorreram efectivamente jovens de todas as Faculdades da Universidade do Porto, deveriam levar à tentativa de organizar no Porto, um clube de Matemática, a exemplo do que já acontecera em Lisboa.
Porém, a intervenção do próprio Ministro do Interior impediu a sua concretização, tal o impacto que causaram em toda a população universitária.
É curioso observar que, nessa época, já funcionavam vários clubes de Matemática em Lisboa, clubes que foram todos encerrados logo em seguida às palestras de Monteiro no Porto.
Para o governo de então, Geometrias finitas, Extensões Algébricas de Corpos e temas semelhantes eram altamente subversivos e punham em risco as instituições vigentes. (...)
Entretanto, no final de 1943 ia proporcionar-se a oportunidade de António Monteiro vir para o Porto e permanecer connosco quase um ano.
Como diz António Monteiro no seu curriculum
“durante o período de 1938-43 todas as minhas funções docentes e de investigação, foram desempenhadas sem remuneração; ganhei a vida dando lições particulares e trabalhando num Serviço de Inventariação de Bibliografia Científica existente em Portugal, organizado pelo IAC”.
Em contraste flagrante com o desinteresse assim manifestado pelas autoridades responsáveis pelo ensino superior do nosso país, comportando-se como se desconhecessem a presença em Portugal de um investigador da categoria de António Monteiro, a Faculdade de Filosofia do Brasil (Rio de Janeiro), por recomendação de Albert Einstein, J. von Neumann e Guido Beck, dirigia-lhe, em Setembro de 1943, um convite para assumir a cátedra de Análise Superior.
Já quando tinha decidido viajar para o Brasil, aceitando aquele convite, funda a Junta de Investigação Matemática, em colaboração com A. de Mira Fernandes e Ruy Luís Gomes. (...)
No documento da fundação da JIM, em que estes objectivos [Os objectivos da Junta de Investigação Matemática] eram proclamados, convidam-se a ingressar na Junta todos aqueles que se interessem por uma tal iniciativa.
Era, porém, evidente, sem meios materiais, seria impossível dar realização a um programa tão ambicioso e foi precisamente com tal objectivo que um grupo de professores e antigos alunos da Faculdade de Ciências do Porto criou a Dotação da Junta de Investigação Matemática e fez distribuir uma circular que era um apelo para recolha de fundos.
Todos nós sentíamos as dificuldades de uma tarefa deste tipo, quando surgiu Alguém, o Dr. António Luiz Gomes, que, entusiasmado com o nosso idealismo e com o alcance do projecto, se lançou apaixonadamente numa campanha de recolha dos necessários meios materiais. Dirigindo-se a amigos seus, conseguiu rapidamente o total, impressionante para a época, de 51.000 escudos. Foi na verdade, meu irmão, António Luiz Gomes “Homem do-Diálogo, Da Solidariedade e Da Indulgência Partilhadas”, no dizer de Fernando Namora, que tornou possível o nosso ambicioso projecto.
Assim, foi contratado pela Junta de Investigação e não por qualquer outra instituição oficial, que António Monteiro se deslocou de Lisboa para o Porto com a família, em Dezembro de 1943 e aí permaneceu até à decisão de emigrar para o Rio de Janeiro, para onde embarcou precisamente no dia 28 de Fevereiro de 1945, de acordo com o telegrama que guardamos no arquivo da Junta de Investigação Matemática, graças à meticulosidade e dedicação do nosso querido amigo Leopoldo Fernandes, que tão abnegadamente se encarregou dos serviços de secretaria da JIM desde a sua fundação até ao encerramento das suas actividades. (...)

quinta-feira, 13 de dezembro de 2012

Minuta da transferência de propriedade da Gazeta de Física de Armando Gibert para a Sociedade Gazeta de Matemática, Limitada (21 de Outubro de 1946)

© Família de António Aniceto Monteiro
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Mais uma vez, a letra desta minuta parece ser a de Avelino Cunhal. Ver:
Minuta da entrega da edição da Portugaliae Mathematica à Sociedade Gazeta de Matemática, Limitada (21 de Outubro de 1946)
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Armando Gibert
(Fotografia do ficha da SOCIEDADE CORTICEIRA ROBINSON)
(Digitalização amavelmente cedida por Manuela Mendes)
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No blogue RUY LUÍS GOMES: Armando Gibert
Neste blogue: Armando Gibert

quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

terça-feira, 11 de dezembro de 2012

Minuta da entrega da edição da Portugaliae Mathematica à Sociedade Gazeta de Matemática, Limitada (21 de Outubro de 1946)

© Família de António Aniceto Monteiro
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A letra no cimo desta minuta é, provavelmente, de Avelino Cunhal, como se pode ver comparando-a com a letra da primeira página manuscrita do livro "Nenúfar no charco" (livro de 1934-1935):
Tudo leva a crer que a minuta foi feita pelo próprio Avelino Cunhal e que todos os trâmites legais também foram feitos por ele.
Avelino Cunhal
Agradecimentos: família de Avelino Cunhal
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Ver:
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Nesta data, a família Monteiro morava Rua Almirante Alexandrino, 964, na «Pensão Internacional», no Rio de Janeiro, onde também moravam Maria Helena Vieira da Silva e Arpad Szenes.
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«Havia ainda em Santa Teresa, nessa mesma época, um outro núcleo irradiador de manifestações culturais inovadoras, produzidas a partir do convívio de artistas e intelectuais brasileiros com emigrados europeus. Trata-se da Pensão Internacional, que ocupava alguns chalés anteriormente pertencentes ao requintado e já então desativado Hotel Internacional, localizado na Rua Almirante Alexandrino. Ali pontificavam, na década de 40, o pintor húngaro Arpad Szenes e a pintora portuguesa Maria Helena Vieira da Silva, que eram casados. Entre os moradores da Pensão Internacional estavam, por exemplo, o crítico de arte Rubem Navarra, o cientista Leite Lopes, o poeta português Antônio Boto, o arquiteto belga Jacques Van der Beuque e o pintor Carlos Scliar. O local, onde Szenes estabeleceu o seu ateliê e lecionou pintura, era frequentado também por outros intelectuais e artistas, como os poetas Murilo Mendes e Cecília Meireles, o pintor e escultor Athos Bulcão, o cenógrafo e diretor de teatro Eros Martim Gonçalves e os escritores franceses Michel Simon e Roger Caillois.»
[André Luiz Faria Couto: Pensão Mauá e Hotel Internacional]
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«A declaração da guerra, em Agosto de 1939, apanha o casal em viagem. Temendo o avanço das tropas alemãs e as consequências pela origem judia de Arpad, partem primeiro para Paris, depois para Lisboa, deixando o atelier do Boulevard Saint-Jacques entregue ao cuidado de Jeanne Bucher. Em Portugal, Vieira requer, para si e para Arpad, a nacionalidade portuguesa. Contraem matrimónio religioso na igreja de São Sebastião da Pedreira e durante quase um ano, vivem e trabalham no atelier do Alto de São Francisco aguardando uma resposta que virá negativa. Sem a protecção da nacionalidade e receando a progressão germânica, o casal decide exilar-se no Brasil.
Em Junho de 1940 Vieira e Arpad embarcam para o Rio de Janeiro. Instalam-se primeiro no Hotel Londres, em Copacabana, e depois numa pensão no Flamengo. Mais tarde Arpad e Vieira mudam-se para o Hotel Internacional, no Silvestre, em Santa Teresa, última morada do casal no Rio de Janeiro. Do seu círculo de amizades fazem parte Murilo Mendes, Cecília Meireles, Carlos Drummond de Andrade, Carlos Scliar, Maria Saudade Cortesão, Ruben Navarra, Athos Bulcão, Martim Gonçalves – dito Eros, entre outros.
O exílio no Brasil foi particularmente doloroso para Vieira e a sua obra reflecte as suas inquietações: a dor da guerra, o absurdo da condição humana, o desenraizamento e a saudade. A artista vê-se despojada de tudo. Um estado de crescente debilidade fá-la abandonar as pesquisas abstractas que só serão retomadas e actualizadas no regresso a Paris, em 1947.»

domingo, 9 de dezembro de 2012

Autorização militar de 14 de Fevereiro de 1945

© Família de António Aniceto Monteiro
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Em 28 de Fevereiro de 1945, António Aniceto Monteiro e família embarcaram para o Brasil... 

sábado, 8 de dezembro de 2012

Autorização militar de 22 de Outubro de 1943

© Família de António Aniceto Monteiro
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Em Outubro de 1943, António Aniceto Monteiro preparava-se para sair imediatamente do país. Esta autorização militar tinha uma parte no lado direito quase semelhante e que foi destacada, possivelmente utilizada na saída de 1945, visto que a de 1945 está intacta, como se verá (embora o seu prazo de validade fosse de um mês).

quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

Procuração a Avelino Cunhal (16 de Outubro de 1943)

Avelino Cunhal (fotografia copiada do livro Nenúfar no Charco)
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Em Outubro de 1943, António Aniceto Monteiro preparava-se para sair imediatamente do país...
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 © Família de António Aniceto Monteiro
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O nome de Lídia Monteiro aparece com um erro; onde está "Lídia Moreira", deveria estar "Lídia Marina".
Uma das testemunhas é o médico João Ferreira Marques (ver Ferreira Marques e Bento de Jesus Caraça num passeio no Tejo).
A outra testemunha é Antonino José de Sousa, advogado.
O notário é José Peres de Noronha Galvão (*).
(*) Pai de Maria Luísa Melo de Noronha Galvão.
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Nesta data, a família Monteiro morava Rua Fábrica das Sedas, 5, rés-do-chão. Actualmente, parece que tal rua não existe, mas existe uma travessa com o mesmo nome que fica na zona das Amoreiras, nas traseiras da Fundação Arpad Szenes - Vieira da Silva; também pode suceder que chamaram "Rua" à "Travessa". Curiosamente, menos de dois anos mais tarde, a família Monteiro iria habitar a «Pensão Internacional», no Rio de Janeiro, onde também moravam Maria Helena e Arpad... (ver Maria Helena Vieira da Silva nasceu há 100 anos).

terça-feira, 4 de dezembro de 2012

Título de isenção do serviço militar (4 e 22 de Outubro de 1943)

© Família de António Aniceto Monteiro
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Em Outubro de 1943, António Aniceto Monteiro preparava-se para sair imediatamente do país...
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No dia 11 de Setembro fui mobilizado como cadete de artilharia. Avisei a Embaixada. Ribeiro Couto aconselhou-me a escrever ao Embaixador. Fi-lo. A Embaixada procurou obter uma autorização para a minha partida por intermédio do ministro dos Negócios Estrangeiros. O médico do meu regimento enviou-me ao Hospital Militar Central onde fui submetido a um exame médico. Como eu tinha uma úlcera no duodeno fui considerado como incapaz para o serviço militar no dia 2 ou 4 de Outubro. Cerca do fim de Outubro quando estava no Hospital recebi um telegrama da Embaixada assinado pelo primeiro secretário, Ribeiro Couto. Dizia que: a Faculdade de Filosofia do Rio considera a sua colaboração como indispensável, e deu a ordem para reservar as suas passagens no primeiro barco.
Logo que saí do Hospital a Embaixada deu-me a ordem para preparar a minha partida para o fim do mês de Outubro, o mais tardar para os primeiros dias de Novembro.
Fiz tudo o que foi possível para arranjar tudo nos prazos fixados. Vendi tudo o que tinha na minha casa. As autorizações militares, ou seja a regula­rização da minha situação militar obtive-a em 15 dias (em geral isso leva um mês e meio e por vezes três meses). Tive o meu passaporte no dia 22 de Outubro.
(...)
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domingo, 2 de dezembro de 2012

O ano de 1943 e o exílio de Monteiro, em correspondência de Guido Beck

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Tenho um pedido para si. R. L. Gomes contou-me as dificuldades que Monteiro actualmente atravessa. Não temos notícias sobre este assunto desde então. Há esperança que a situação se resolva ainda por mais algum tempo? Peço-lhe que me informe se eu posso fazer ou tentar o que quer que seja para que se faça alguma coisa.
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[Carta de Guido Beck (Porto) a Bento de Jesus Caraça (Lisboa), de 7 de Dezembro de 1942]
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Sobre o assunto do Monteiro, infelizmente as notícias não são boas. [ilegível] sabe que, por iniciativa do Ministro da E. Nacional, os seus serviços foram dispensados e, sendo assim, acredito que se possa resolver a sua situação no Brasil, caso ele o queira.
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[Carta de Bento de Jesus Caraça (Lisboa)a Guido Beck (Porto), de 13 de Dezembro de 1942]
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Como vão as coisas com Monteiro? Não tenho tido notícias directamente ele. O seu assunto, vai resolver-se? Gostaria muito de o ver em boas condições gostaria muito de acelerar o seu convite para ir para a América.
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[Carta de Guido Beck (Porto) a Bento de Jesus Caraça (Lisboa), de 28 de Janeiro de 1943. Nesta carta fica claro que Guido Beck se preparava para partir para a Argentina, com trânsito pelo Brasil]
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O caso do Monteiro está por agora resolvido e não se pode fazer nada, de momento pelo menos.
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[Carta de Bento de Jesus Caraça (Lisboa) a Guido Beck (Porto), de 3 de Fevereiro de 1943]
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Acabei de ver o Monteiro. Pessoalmente está bastante bem, mas, apesar de tudo, espero vê-lo brevemente na América onde poderá desenvolver todas as suas grandes qualidades.
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[Carta de Guido Beck (já em Lisboa) a Ruy Luís Gomes (Porto), de 24 de Fevereiro do 1943]
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Peço-lhe para informar Monteiro dos esforços que por aqui tenho desenvolvido: Não pude desembarcar no Brasil, e precisava, depois de várias cartas, mandar um telegrama para São Paulo, antes de contactar com o Sr. Wattaghin. E é por isso que tive de atrasar o telegrama. Faço, naturalmente, o impossível para acelerar as coisas. Monteiro está proposto para uma cadeira este ano, o ano passado isso não era possível, mas agora as condições são muito boas. Todavia, não se sabe quando é que o Ministério efectuará a nomeação. É por isso que haveria vantagem em que o Monteiro pudesse ir, independentemente das diligências oficiais, para o Brasil. Também falei para São Paulo, no sentido de enviarem a Monteiro um convite oficial para fazer uma conferência, caso seja possível, para facilitar a sua viagem. Seguidamente, pedi ao v. Neumann, em Princeton, para, entretanto, encontrar uma bolsa para Monteiro. E para me enviar uma carta de recomendação, o que facilitaria novas diligências. Aguardo. Estou em contacto com o Sr. Balanzat: poderemos fazer sondagens quer aqui quer no Peru. As hipóteses são grandes, mas a dificuldade estará em organizar a viagem em pouco tempo. Em todo o caso tenta-se...
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[Carta de Guido Beck (Córdoba, Argentina) a Ruy Luís Gomes (Porto), de l de Julho de 1943]
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Ainda uma mão cheia de novidades:
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2. A nomeação de Monteiro no Rio caiu cá como uma bomba. Todos ficam de boca aberta e diz-se: Mas Beck conseguiu! E tão rapidamente! Começam a compreender.
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[Carta de A. L. Fernandes de Sá (Porto) a Guido Beck (Argentina]
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DOUTOR GUIDO BECK OBSERVATÓRIO ASTRONÓMICO
CÓRDOBA ARGENTINA
GRANDE SATISFAÇÃO CONTRATO MONTEIRO STOP ESTOU COMUNICAÇÃO EMBAIXADA BRASILEIRA STOP PROCA CHEGOU A LISBOA GRANDE ABRAÇO
RUY GOMES
[Telegrama de Ruy Luís Gomes (Porto) a Guido Beck (Córdoba, Argentina, de 7 de Agosto de 1943]
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MONTEIRO CONTRATADO COM APROVAÇÃO MINISTERIAL FACULDADE RIO DE JANEIRO STOP ROGO TOMAR O CONTACTO COM EMBAIXADA BRASILEIRA LISBOA QUE TRANSMITA CONTACTO
GUIDO BECK
[Telegrama de Guido Beck (Córdoba, Argentina) a Ruy Luís Gomes (Porto]
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Transmiti ao Dr. António Monteiro o conteúdo do vosso telegrama e já nos pusemos em contacto com a Embaixada do Brasil sobre o assunto mas até à data não tinham indicações nenhumas sobre os termos do respectivo contrato. Sei que telegrafaram imediatamente para o Rio de Janeiro a pedir instruções.
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[Carta de Ruy Luís Gomes (Porto) a Guido Beck (Córdoba, Argentina), de 25 de Agosto de 1943]
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NENHUMA DIFICULDADE SAÚDE EMBAIXADA ATRIBUI DIFICULDADES ENVIO DINHEIRO VIAGENS ORDEM EMBAIXADA PRONTO PARTIR PASSAPORTES REGRA DESDE OUTUBRO CASA VENDIDA DESEMPREGO SITUAÇÃO INSUSTENTÁVEL INTERVENHA URGÊNCIA
ANTÓNIO MONTEIRO
[Telegrama de António Aniceto Monteiro a Guido Beck]
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Senhor Director,
Tomo a liberdade, desde já, de lhe pedir que aceite os meus agradecimentos mais calorosos por se ter dignado receber a Sr.a O. Deimlová e pela atenção em lhe ter dado as informações relativas ao caso do Sr. António Monteiro que ela me transmitiu. Agradeço-lhe, ao mesmo tempo o benévolo interesse que se dignou conceder ao Sr. Monteiro.
Transmiti de seguida as suas informações aos meus amigos em Portugal e acabo de receber o seguinte telegrama do Sr. Monteiro:
«EMBAIXADA ATRIBUI DEMORA DIFICULDADES ENVIO DINHEIRO VIAGENS ORDEM EMBAIXADA PRONTO PARTIR PASSAPORTES REGRA DESDE OUTUBRO».
Concluí desse telegrama, que o Sr. António Monteiro está pronto a partir para tomar posse das suas funções na sua Faculdade e que todos os seus documentos de viagem estão em ordem. Suponho, que as dificuldades que o Sr. Monteiro eventualmente encontrou para obter a autorização indispensável para sair de Portugal foram superadas há alguns meses e que foram devidas a um simples mal-entendido. Seria, com efeito, espantoso que as autoridades portuguesas tivessem negado a Monteiro a autorização para assumir as suas funções se elas não tivessem a intenção de o reter em Portugal para lhe oferecerem uma cadeira equivalente àquela que lhe foi oferecida no Rio de Janeiro.
Por outro lado, sei que o Sr. Monteiro já preparou a sua partida, abandonando o seu apartamento em Lisboa etc. e receio que ele se veja colocado numa situação muito embaraçosa se a sua partida for consideravelmente atrasada. É por isso que tomo a liberdade de lhe pedir que se digne fazer as diligências úteis para assegurar uma partida próxima desse jovem sábio de talento excepcional. Além disso, coloco-me inteiramente ao seu dispor para fazer, pelo meu lado, as diligências que forem necessárias de modo a contribuir para solucionar rapidamente as dificuldades que ainda apareçam. Se se tratarem de dificuldades administrativas em Portugal, colocar-me-ei em contacto com os amigos que tenho em Portugal nas três universidades e nos ministérios logo que mas indique. Se, por outro lado, se tratam de dificuldades que podem ser resolvidas no Rio de Janeiro, preparei um relatório sobre a situação do Sr. Monteiro e sobre a sua capacidade científica que acabo de submeter aos professores de matemática das 6 universidades deste país e que tomarei a liberdade de lhe fazer chegar com as suas assinaturas para solicitar o apoio do Senhor Ministro da Educação Nacional no Rio de Janeiro.
Na esperança que o seu interesse e o seu benevolente apoio permita assegurar dentro em pouco a continuação dos trabalhos de pesquisa de importância universalmente reconhecida do Sr. Monteiro e na esperança de poder assim contribuir para a grande obra das vossas instituições peço-lhe, Senhor Director, que creia na expressão dos meus sentimentos respeitosamente dedicados
(Prof. Dr. Guido Beck)
[Carta de Guido Beck (Córdoba, Argentina) ao Director da Faculdade Nacional de Filosofia, Francisco Clementino San Tiago Dantas (Rio de Janeiro), de 19 de Janeiro de 1944]
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Ver a carta seguinte:
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Ver ainda:

quarta-feira, 28 de novembro de 2012

Proposta do INIC, assinada por Miller Guerra (26 de Novembro de 1976)

© Família de António Aniceto Monteiro

PROPOSTA 

Considerando o alto mérito científico do Prof. Doutor António Aniceto Monteiro e o elevado interesse que terá para a cultura matemática e sua reintegração na actividade científica nacional conforme se comprova pelas exposições subscritas por matemáticos das Universidades de Lisboa, de Coimbra e do Porto, que se juntam; 
Considerando a actividade desenvolvida pela Prof. Doutor António Aniceto Monteiro no âmbito do então Instituto de Alta Cultura (bolseiro fora do País desde Julho de 1931 a Junho de 1936, bolseiro na País desde Julho de 1936 a Setembro de 1936, colaborador no serviço de Inventariação da Bibliografia Científica existente em Portugal desde Junho de 1937 a Dezembro de 1942 num total de cerca de 10 anos); 
O Instituto Nacional de Investigação Científica propõe, a título excepcional, a integração do referido Professor como investigador a tempo inteiro, no Centro de Matemática e Aplicações Fundamentais das Universidades de Lisboa, com uma remuneração correspondente à letra D, como ê norma para os investigadores dos Centros de Investigação dependentes do INIC.

Lisboa, 26 de Novembro de 1976

O PRESIDENTE,
J. P. Miller Guerra
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O Instituto Nacional de Investigação Científica (INIC) existiu entre 1976 e 1992, na dependência do Ministério da Educação e da Ciência. Resultou da extinção e repartição por dois serviços distintos das competências do Instituto de Alta Cultura: o INIC passou a deter competências ao nível da actividade de investigação científica (Decreto nº 538/76, de 9 de Julho de 1976); o Instituto de Cultura Portuguesa (hoje Instituto Camões) ficou com as competências inerentes ao ensino e à difusão da língua e da cultura portuguesa no estrangeiro (Decreto-Lei nº 541/76, de 9 de Julho de 1976).
Segundo o diploma de criação, o INIC tinha por missão contribuir para o fomento da investigação científica e para a formulação, coordenação e realização da política científica nacional, bem como colaborar na definição e execução dos planos de preparação do pessoal qualificado necessário ao desenvolvimento do país2. Neste âmbito, e pela leitura da legislação e da documentação produzida, sabemos que financiava projectos de investigação, bolsas individuais e unidades (ou centros) de investigação.
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segunda-feira, 26 de novembro de 2012

Registo de propriedade da PORTUGALIAE MATHEMATICA (10 e 13 de Outubro de 1942)


© Família de António Aniceto Monteiro
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No dia 2 de Outubro de 1978, foi tirada uma fotocópia autenticada deste documento, que pode ter servido para a transferência de propriedade da revista para a Sociedade Portuguesa de Matemática (SPM).
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Neste ano de 1942, Celestino da Costa foi demitido do cargo de presidente do Instituto para a Alta Cultura. A necessidade de efectuar este "registo de propriedade" pode estar relacionada com esse acontecimento. Veja:
1942: O ano das demissões de Celestino da Costa

quinta-feira, 22 de novembro de 2012

quarta-feira, 21 de novembro de 2012

Declaração de 3 de Setembro de 1936

© Família de António Aniceto Monteiro
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terça-feira, 20 de novembro de 2012

Certificado de registo criminal de 4 de Setembro de 1936


© Família de António Aniceto Monteiro

segunda-feira, 19 de novembro de 2012

Atestados médicos (de 1, 2 e 3 de Setembro de 1936)






© Família de António Aniceto Monteiro
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No início deste fatídico Setembro de 1936, António Aniceto Monteiro procurava concorrer a um lugar de actuário do Instituto Nacional do Trabalho; se obteve este lugar, ignoro. Uns dias depois, sairia o famigerado Decreto-lei n.º 27:003, de 14 de Setembro de 1936. Em virtude da imposição que este Decreto-lei determina, António Aniceto Monteiro perderia o seu lugar como assistente na FCUL, que ocupava, pago com uma bolsa do Instituto para a Alta Cultura.
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«Regressado ao País e mau grado o valor dos trabalhos que realizara no estrangeiro, não encontrou lugar no corpo docente de nenhuma das três Faculdades de Ciências do País. Passou então a viver com uma modestissima bolsa que o I. A. C. the concedeu; passados alguns meses, exigiram-Ihe, para poder continuar a ser bolseiro, a assinatura de um compromisso politico — que pessoa alguma Ihe havia imposto ao enviá-Io para o estrangeiro. Tendo-se recusado a assinar um compromisso que repugnava a sua consciência, deixou de ser bolseiro, e a sua vida e a dos seus decorreu, de aí em diante, em condições de dificuldade económlca que, por vezes, roçaram pela miséria.»