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segunda-feira, 16 de julho de 2018
sábado, 2 de junho de 2018
«Tive que dedicar os meses de Outubro e Novembro a fazer uma nova redacção da Aritmética… (…) Agora vou preparar o meu trabalho sobre Aritmética dos espaços topológicos para impressão. (…) Tinha enviado este trabalho para o jubileu do Fréchet. (…) O Zaluar está fazendo prodígios em Portugal no domínio das publicações. (…) Existe uma nova revista de matemática em Portugal. (…) Não sei se já lhe disse que vi o Miguéis no Rio.» – excerto de carta de António Aniceto Monteiro para Hugo Ribeiro, de 20 de Dezembro de 1950
“Eles foram de facto valores «sonegados» ao país” [Bento de Jesus Caraça] (fotocópia do artigo original)
quarta-feira, 30 de maio de 2018
quarta-feira, 9 de maio de 2018
terça-feira, 1 de maio de 2018
«A noite que desceu sobre o nosso desgraçado país parece não ter fim imediato. As notícias que me dá e que o Paulo me conta deixam-me a impressão que o trabalho de organização no campo da matemática está completamente desarticulado. Receio pela vida da Gazeta de Matemática (…) e da Portugaliae Mathematica (…)» – excerto de carta de António Aniceto Monteiro para Hugo Ribeiro, de 5 de Julho de 1948
sábado, 14 de abril de 2018
«Os estudiosos que se encontram fora de Portugal devem aconselhar os nossos amigos a porem de lado momentaneamente as divergências existentes, reagrupando as suas forças e preparando as condições para um debate e esclarecimento definitivo do nosso meio. (…) Há muito tempo que não escrevo para a Gazeta, mas estou resolvido a trabalhar nesse sentido. Penso escrever em breve um artigo em que vou defender a necessidade de se introduzir o estudo da matemática moderna nas Faculdades, sustentar que isso ainda não aconteceu e propor um debate sobre o assunto.» – excerto de carta de António Aniceto Monteiro para Hugo Ribeiro, de 29 de Novembro de 1947
Ver :
quarta-feira, 11 de abril de 2018
«Continuo sem obter resposta às minhas propostas para desenvolver a venda da Gazeta e outras publicações de mat. no Brasil. É enervante ir às livrarias e não encontrar um único caderno de Análise Geral nem um número da Gazeta, que desapareceram em pouco tempo. (…) O Lélio Gama publicou uns fascículos (…) sobre teoria dos conjuntos (…) e foram vendidas só no Brasil 600 colecções completas. Até agora saíram 7 fasc. Isto dá uma ideia do mercado. Faz-me um nervoso enorme ver que aí não ligam importância nenhuma a este facto. Tudo se passa como se assim fosse. Enfim vocês lá sabem.» – excerto de carta de António Aniceto Monteiro para Hugo Ribeiro, de 8 de Agosto de 1947
terça-feira, 10 de abril de 2018
«Falei com o Weil novamente sobre a sua situação. Ele pensa que você deve resolver o seu problema pelos Estados Unidos. (…) Procurarei falar com o Stone sobre o assunto. (…) Em tempos mandei indicações para Lisboa sobre uma nova lista de colaboradores da Gazeta e Portugaliae. (…) O Dieudonné, por exemplo, aceitou ser colaborador da Port. (…) Peço para guardarem as minhas cartas. Agora tenho uma máquina, tiro cópias que guardarei para futuras referências. Indiquei como colaborador o Prof. Rafael Laguardia, …» – excerto de carta de António Aniceto Monteiro para Hugo Ribeiro, de 8 de Agosto de 1947
segunda-feira, 9 de abril de 2018
quarta-feira, 10 de janeiro de 2018
«Creio que o outro arguente, que é o Queiroz (…) também o não leu…» – carta de Alfredo Pereira Gomes para António Aniceto Monteiro, de 29 de Junho de 1946
(continua)
Queiroz: Augusto Hermenegildo Ribeiro Peixoto de Queiroz
Scipião: Aníbal Scipião Gomes de Carvalho
Sobre os doutoramento de Alfredo Pereira
Gomes, Hugo Ribeiro e Armando Gibert, ver: Gazeta de matemática, pág. 18 (na segunda imagem)
segunda-feira, 18 de dezembro de 2017
O exílio de António Aniceto Monteiro
O exílio de António Aniceto Monteiro (*)
Jorge Rezende
António Aniceto Monteiro (1907-1980) foi a mais importante figura da década
prodigiosa da matemática portuguesa dos anos 30 e 40 do século passado. Foi o
primeiro secretário-geral da Sociedade Portuguesa de Matemática e talvez o
principal impulsionador da sua fundação. Exilou-se no Brasil no princípio de
1945.
Uma carta da Secção de Matemática da Faculdade de Ciências da Universidade
de Lisboa (FCUL), datada de 7 de Outubro de 1976, assinada por vários
professores encabeçados por Alfredo Pereira Gomes, que provavelmente a
escreveu, e dirigida ao Secretário de Estado da Investigação Científica, dizia
explicitamente: «O
Professor António Aniceto Monteiro após o seu Doutoramento em Paris, como
bolseiro do Instituto de Alta Cultura [IAC], foi nomeado, em Julho de 1936,
investigador deste Instituto tendo sido em Outubro do mesmo ano demitido pela
honrosa razão de não assinar a declaração do conhecido decreto nº 27.003
[«Declaro por minha honra que estou integrado na ordem social estabelecida pela
Constituição Política de 1933, com activo repúdio do comunismo e de todas as
ideias subversivas»] ficando em consequência impossibilitado de prosseguir uma
carreira docente universitária o que havia de o conduzir ao exílio anos mais
tarde.»
Já em 31 de Outubro de 1945, Manuel Valadares (físico, que veio a ser
professor catedrático da FCUL), em carta publicada no jornal «República»,
referia: «Regressado
ao País e mau grado o valor dos trabalhos que realizara no estrangeiro,
[Monteiro] não encontrou lugar no corpo docente de nenhuma das três Faculdades
de Ciências do País. Passou então a viver com uma modestíssima bolsa que o IAC
lhe concedeu; passados alguns meses, exigiram-lhe, para poder continuar a ser
bolseiro, a assinatura de um compromisso politico — que pessoa alguma lhe havia
imposto ao enviá-lo para o estrangeiro. Tendo-se recusado a assinar um
compromisso que repugnava a sua consciência, deixou de ser bolseiro, e a sua
vida e a dos seus decorreu, de aí em diante, em condições de dificuldade
económica que, por vezes, roçaram pela miséria.»
Tanto Pereira Gomes como Valadares sabiam do que falavam. Ambos eram amigos
íntimos de Monteiro, companheiros de lutas e de exílios. O primeiro fez o
doutoramento sob a sua orientação e o segundo foi bolseiro em Paris na mesma
altura em que Monteiro lá esteve e era seu compadre, padrinho do filho mais
novo.
Estas cartas confirmam e explicitam aquilo que Monteiro disse, já no
exílio, numa entrevista ao jornal brasileiro «Correio da Manhã» de 10 de
Novembro de 1945: «Simplesmente,
recusei assinar um papel de compromisso político para poder leccionar…
matemática. Por isso não me nomearam; nem modesto funcionário podia ser lá [em
Portugal]. Teria que morrer à fome, com os meus, doutorado pela Sorbonne. O
próprio IAC me avisou, em Outubro de 1941, de que era preferível sair do país.»
A partir de finais de 1936, Monteiro viveu ainda com pequenos rendimentos
tais como um subsídio pago pelo IAC (cujo presidente era Celestino da Costa) como
colaborador no serviço de inventariação da bibliografia científica existente em
Portugal. Mas no final de 1941 ou princípio de 1942 o Ministro da Educação
Nacional, Mário de Figueiredo, demitiu Celestino da Costa e em Dezembro de 1942
«dispensou» os serviços de Monteiro, isto é, despediu-o.
António Aniceto Monteiro exilou-se pois no Brasil em 1945 porque estava
desempregado, não tinha meios de subsistência em Portugal, por se recusar a
assinar a tal declaração de submissão ao regime político salazarista.
A principal razão que me leva a escrever este artigo é o facto de ter lido
na Wikipedia, a propósito de
António Aniceto Monteiro, que
«Existem duas interpretações dos
motivos que o terão levado a abandonar Portugal. Uma primeira interpretação
refere motivos políticos, que ele foi impedido de ter uma carreira
universitária em Portugal, pois recusou-se a assinar um documento onde
declarava o apoio ao salazarismo e o repúdio ao comunismo e às «ideias
subversivas». Uma outra interpretação é a de que o próprio António Aniceto
Monteiro deixou escrito de forma clara que abandonou o país, não por motivos ou
perseguições políticas mas, por estar saturado das obstruções dos seus pares
académicos.»
Para esta segunda «interpretação», a Wikipedia remete o leitor
para o livro de Jorge Buescu «Matemática em Portugal, Uma Questão de
Educação». De facto, foi este autor que imaginou tal
«interpretação». Segundo ele, as razões que levaram
Monteiro ao exílio estão num artigo do nº 10 da «Gazeta de Matemática», de
Abril de 1942, páginas 25-26, «Origem e objectivo desta Secção [MOVIMENTO
MATEMÁTICO]», que está reproduzido no Anexo. É aqui que,
segundo a Wikipedia, Monteiro
«deixou escrito de forma clara» os motivos do seu exílio.
O leitor procure na rede este artigo de Monteiro («Origem e objectivo desta Secção [MOVIMENTO
MATEMÁTICO]»), ou leia-o no Anexo, e verifique se aí está
explicado que foi por estar «saturado
da obstrução dos colegas» que ele «decide
abandonar o País em 1943, acabando por partir para o Brasil em 1945», conforme
afirma Jorge Buescu no seu livro. A verdade é que não está – não há
no texto de Monteiro qualquer referência a uma intenção de se exilar.
É certo que eu já abordei este assunto nos meus artigos «Sobre as perseguições a cientistas durante
o fascismo» (Revista «Vértice», 166) e «António Aniceto
Monteiro – lutas, perseguições e exílios» («Boletim» da Sociedade Portuguesa de
Matemática, 74). Mas também é verdade que continuam a alastrar na rede citações
da referida «interpretação», devido à projecção mediática do seu autor. É, por
exemplo, o caso da versão inglesa da entrada sobre António Aniceto Monteiro na Wikipedia.
Este falseamento da História é tanto mais estranho quanto o seu autor tem
escrito vários artigos de opinião (nomeadamente, no jornal «Público») onde tem
proclamado ser um acérrimo defensor «do conhecimento, do rigor e da exigência».
Pois em nome do conhecimento, do rigor e da exigência já é mais do que
tempo de ser reparado este mal que foi feito.
ANEXO
Origem e objectivo desta Secção
Pensou-se há algum tempo em
publicar um jornal — que teria por título Movimento
Matemático — destinado a lançar uma campanha para uma reforma dos estudos
matemáticos em Portugal e a fazer a propaganda das principais correntes do
movimento matemático moderno.
Parece-me evidente a
necessidade de publicar um tal jornal precisamente porque o nosso país anda
longe das correntes vitais do pensamento matemático moderno e porque o nosso
ensino das ciências matemáticas necessita de uma remodelação completa:
remodelação dos programas de estudo, da organização da licenciatura em
Ciências Matemáticas, da preparação dos professores do ensino secundário, das
provas de doutoramento e dos métodos de recrutamento do pessoal docente
universitário.
É indiscutível que
assistimos hoje no nosso país a uma verdadeira efervescência de actividade no
campo das ciências matemáticas. Demonstram esta afirmação o aparecimento
sucessivo no curto prazo de cinco anos de 1.º) Portugaliae Mathematica, fundada em 1937; 2.º) Seminário Matemático de Lisboa (1938) que toma em Novembro de 1939
o nome de Seminário de Análise Geral;
3.º) Centro de Estudos de Matemáticas
Aplicadas à Economia, fundado pelo 1.º Grupo do Instituto Superior de
Ciências Económicas e Financeiras (1938); 4.º) Gazeta de Matemática, Janeiro de 1939; 5.º) Centro de Estudos Matemáticos de Lisboa, fundado pelo Instituto
para a Alta Cultura em Fevereiro de 1940; 6.º) Sociedade Portuguesa de Matemática, Dezembro de 1940; 7.º) Centro de Estudos Matemáticos do Porto,
fundado pelo Instituto para a Alta Cultura em Fevereiro de 1942.
Anuncia-se para breve a
publicação do Boletim da Sociedade
Portuguesa de Matemática, das Publicações
da Secção de Matemática da Faculdade de Ciências do Porto e de uma colecção
de Estudos de Matemática; projecta-se
a criação de um Estúdio de Matemática
em Lisboa.
Todas estas organizações e
publicações trabalham por um ressurgimento da cultura matemática portuguesa!
Se tudo isto é muito
animador e nos permite ter esperanças num triunfo mais ou menos próximo, não
devemos ter ilusões de espécie alguma sobre as dificuldades que nos esperam!
Há que contar — isto é de
todos os tempos! — com um recrudescimento da hostilidade da ignorância e da má
fé; da hostilidade daqueles para quem a estagnação ou a decadência da nossa
cultura matemática é a condição necessária para a realização de objectivos que
nada têm que ver com as ciências matemáticas, daqueles que tremem perante a
ideia da existência de uma juventude estudiosa consagrando inteiramente a sua
vida e o seu entusiasmo a uma causa pela qual eles nunca lutaram — porque o esforço
e a diligência no estudo revelam de uma maneira evidente os erros do passado e
as deficiências do presente —, da má-fé daqueles que apregoam um interesse e um
entusiasmo pelo desenvolvimento da cultura matemática que são desmentidos
categoricamente pela sua actuação presente, da má-fé daqueles que consideram
como revelações de inteligência e de capacidade a adoração da rotina que o uso
consagrou e de que eles são por vezes os mais legítimos representantes; há que
contar ainda com a ignorância (e que enciclopédica ignorância!) daqueles que
afirmam que o nosso país está perfeitissimamente ao corrente do movimento
matemático moderno, que o nível dos nossos estudos matemáticos se pode por a
par do dos países mais avançados, e finalmente há que contar com a indiferença
(que estranha e cómoda indiferença!) daqueles que dizem que no nosso país não
há nada a fazer, que os portugueses são incapazes de realizar um esforço
persistente e continuado e que portanto são incapazes de contribuir para o
progresso das ciências matemáticas!
Pensamos que o aparecimento
destas manifestações deve servir apenas para nos indicar que seguimos pelo
bom caminho — porque a cada tarefa realizada a reacção deve aumentar — e que
nunca devemos desviar a nossa atenção do trabalho metódico e persistente para
controvérsias de carácter duvidoso.
É precisamente pelo estudo,
pelo trabalho de investigação e pela propaganda das matemáticas, que se pode
preparar o ressurgimento dos estudos matemáticos em Portugal, mas importa
evidentemente orientar a nossa actuação pelas lições que nos são dadas pela
nossa experiência e pela experiência das outras nações. Há que definir um rumo,
e segui-lo enquanto a experiência mostrar que estamos no bom caminho!
O desenvolvimento rápido da
Gazeta de Matemática — em particular
a partir do início do presente ano lectivo — tornou possível o alargamento
imediato da sua acção cultural e daí nasceu a ideia — para evitar uma dispersão
de esforços que o momento actual não permite — de criar na Gazeta uma secção em que se desenvolveria a pouco e pouco o plano
de acção que se pretendia realizar no Movimento Matemático. É esta a origem
desta secção que se iniciou no n.º 9 da Gazeta.
Infelizmente a situação
actual da Gazeta não permite ainda
dar a esta secção todo o desenvolvimento que era necessário. Por isso temos que
nos limitar a assinalar aos leitores deste número as realizações e iniciativas
de valor cultural sob o ponto de vista matemático de que temos conhecimento.
Esperamos que em breve seja possível, por meio da colaboração efectiva de todas
as pessoas interessadas no desenvolvimento da cultura matemática, lançar uma
campanha para uma reforma dos estudos matemáticos em Portugal e fazer a
propaganda das principais correntes do movimento matemático moderno.
ANTÓNIO MONTEIRO
(*) Artigo publicado originalmente no blogue «De Rerum Natura»
quinta-feira, 14 de dezembro de 2017
«Até agora não tenho tido mais notícias do número da revista projectado, nem da semana de matemática. Se não se publica na revista não lhe parece que poderia ser publicado na Gazeta? (…) É uma boa notícia a visita do Köthe. Mande-me notícias do Centro de Estudos… (…) O Inst. de Mat. de Mendoza está em pleno funcionamento… (…) Este verão consegui resultados muito interessantes….» - carta de António Aniceto Monteiro para Sebastião e Silva, de 27 de Abril de 1954
quarta-feira, 13 de dezembro de 2017
«Só ontem, depois de ter terminado as minhas classes, redigi um artigo “Problemas da Cultura Matemática Portuguesa”, que enviei para a revista. (…) Em devido tempo mandarei para a Gazeta notícias sobre as actividades do Instituto no próximo ano.» - carta de António Aniceto Monteiro para Sebastião e Silva, de 16 de Outubro de 1953
-
Ver, neste blogue:
Problemas da cultura matemática portuguesa
Problemas da cultura matemática portuguesa
segunda-feira, 11 de dezembro de 2017
domingo, 26 de novembro de 2017
«Gazeta e Portugaliae. Receio pela vida destas duas revistas. (…) A consolidação destas duas revistas dependerá de resto em grande parte da existência de centros de estudo. (...) O que mais interessa ao desenvolvimento da matemática do nosso país, não é a existência de um ou outro matemático mais ou menos distinto, mas a existência de um grande número de profissionais dedicados ao estudo. Os centros a criar devem centralizar a sua actividade nessa direcção. Estudar, estudar e estudar. Os matemáticos aparecerão como consequência dessas actividades.» - carta de António Aniceto Monteiro para Sebastião e Silva, de 12 de Setembro de 1948
segunda-feira, 20 de novembro de 2017
«Um artigo que mandei para a Gazeta de Matemática sobre a Introdução à Álgebra Moderna foi escrito ao som das metralhadoras no quarto do Barroso: a pouca distância tinha-se dado o atentado em que morreram 32 alemães e que determinou o fuzilamento de 320 reféns no dia seguinte» - carta de Sebastião e Silva para António Aniceto Monteiro, de 27 de Fevereiro de 1946
(continua)
O artigo da Gazeta de Matemática referido por Sebastião e Silva pode ser lido aqui:
Pequena introdução à Álgebra Moderna — I
O artigo da Gazeta de Matemática referido por Sebastião e Silva pode ser lido aqui:
Pequena introdução à Álgebra Moderna — I
sexta-feira, 29 de abril de 2016
Origem e objectivo desta Secção (MOVIMENTO MATEMÁTICO)
Origem e objectivo desta Secção
Pensou-se
há algum tempo em publicar um jornal — que teria por título Movimento Matemático — destinado a lançar uma campanha para
uma reforma dos estudos matemáticos em Portugal e a fazer a propaganda das
principais correntes do movimento matemático moderno.
Parece-me
evidente a necessidade de publicar um tal jornal precisamente porque o nosso
país anda longe das correntes vitais do pensamento matemático moderno e porque
o nosso ensino das ciências matemáticas necessita de uma remodelação completa;
remodelação dos programas de estudo, da organização da licenciatura em
Ciências Matemáticas, da preparação dos professores do ensino secundário, das
provas de doutoramento e dos métodos de recrutamento do pessoal docente
universitário.
É
indiscutível que assistimos hoje no nosso país a uma verdadeira efervescência
de actividade no campo das ciências matemáticas. Demonstram esta afirmação o aparecimento
sucessivo no curto prazo de cinco anos de 1.º) Portugaliae
Mathematica, fundada em 1937; 2.º) Seminário
Matemático de Lisboa (1938) que toma em Novembro de 1939 o nome de Seminário de Análise Geral; 3.º) Centro de Estudos de Matemáticas
Aplicadas à Economia, fundado pelo 1.º Grupo do Instituto Superior de Ciências
Económicas e Financeiras (1938); 4.º) Gazeta de Matemática,
Janeiro de 1939; 5.º) Centro de Estudos Matemáticos
de Lisboa, fundado pelo Instituto para a Alta Cultura em Fevereiro
de 1940; 6.º) Sociedade Portuguesa de Matemática,
Dezembro de 1940; 7.º) Centro de Estudos
Matemáticos do Porto, fundado pelo Instituto para a Alta Cultura em
Fevereiro de 1942.
Anuncia-se
para breve a publicação do Boletim da Sociedade
Portuguesa de Matemática, das Publicações da Secção de
Matemática da Faculdade de Ciências do Porto e de uma colecção de Estudos de Matemática; projecta-se a criação de um Estúdio de Matemática em Lisboa.
Todas estas
organizações e publicações trabalham per um ressurgimento da cultura matemática
portuguesa!
Se tudo
isto é muito animador e nos permite ter esperanças num triunfo mais ou menos
próximo, não devemos ter ilusões de espécie alguma sobre as dificuldades que
nos esperam!
Há que
contar — isto é de todos os tempos! — com um recrudescimento da hostilidade da
ignorância e da má fé; da hostilidade daqueles para quem a estagnação ou a
decadência da nossa cultura matemática é a condição necessária para a
realização de objectivos que nada têm que ver com as ciências matemáticas,
daqueles que tremem perante a ideia da existência de uma juventude estudiosa
consagrando inteiramente a sua vida e o seu entusiasmo a uma causa pela qual
eles nunca lutaram — porque o esforço e a diligência no estudo revelam de uma
maneira evidente os erros do passado e as deficiências do presente — da má fé
daqueles que apregoam um interesse e um entusiasmo pelo desenvolvimento da
cultura matemática que são desmentidos categoricamente pela sua actuação
presente, da má fé daqueles que consideram como revelações de inteligência e de
capacidade a adoração da rotina que o uso consagrou e de que eles são por
vezes os mais legítimos representantes; há que contar ainda com a ignorância (e
que enciclopédica ignorância!) daqueles que afirmam que o nosso país está perfeitissimamente
ao corrente do movimento matemático moderno, que a nível dos nossos estudos matemáticos
se pode por a par do dos países mais avançados, e finalmente há que contar com
a indiferença (que estranha e cómoda indiferença!) daqueles que dizem que no
nosso país não há nada a fazer, que os portugueses são incapazes de realizar
um esforço persistente e continuado e que portanto são incapazes de contribuir
para o progresso das ciências matemáticas!
Pensamos
que o aparecimento destas manifestações, deve servir apenas para nos indicar
que seguimos pelo bom caminho — porque a cada tarefa realizada a reacção deve
aumentar — e que nunca devemos desviar a nossa atenção do trabalho metódico e
persistente para controvérsias de carácter duvidoso.
É
precisamente pelo estudo, pelo trabalho de investigação e pela propaganda das
matemáticas, que se pode preparar o ressurgimento dos estudos matemáticos em
Portugal, mas importa evidentemente orientar a nossa actuação pelas lições que
nos são dadas pela nossa experiência e pela experiência das outras nações. Há
que definir um rumo, e segui-lo enquanto a experiência mostrar que estamos no
bom caminho!
O
desenvolvimento rápido da Gazeta de Matemática
— em particular a partir do início do presente ano lectivo — tornou possível o
alargamento imediato da sua acção cultural e daí nasceu a ideia — para evitar
uma dispersão de esforços que o momento actual não permite — de criar na Gazeta uma secção em que se desenvolveria a pouco e pouco o
plano de acção que se pretendia realizar no Movimento Matemático. É esta a
origem desta secção que se iniciou no n.º 9 da Gazeta.
Infelizmente
a situação actual da Gazeta não permite
ainda dar a esta secção todo o desenvolvimento que era necessário. Por isso
temos que nos limitar a assinalar aos leitores deste número as realizações e
iniciativas de valor cultural sob o ponto de vista matemático de que temos
conhecimento. Esperamos que em breve seja possível, por meio da colaboração
efectiva de todas as pessoas interessadas no desenvolvimento da cultura
matemática, lançar uma campanha para uma reforma dos estudos matemáticos em
Portugal e fazer a propaganda das principais correntes do movimento matemático
moderno.
ANTÓNIO
MONTEIRO
segunda-feira, 17 de dezembro de 2012
Actuação de António Aniceto Monteiro em Lisboa entre 1939 e 1942 (Hugo Ribeiro)
No primeiro volume (1937) desta publicação [Portugaliae Mathematica], fundada e, nos primeiros anos, editada e administrada por António Monteiro, foi publicada a sua tese de doutoramento (1936) na Universidade de Paris onde ele estudava como bolseiro da Junta de Educação Nacional (depois «Instituto para a Alta Cultura»). Para que a Monteiro fosse possível fazer e ensinar Matemática com alguma estabilidade foi necessário que abandonasse Portugal (1945) onde só voltou 32 anos depois.
Com uma ou outra excepção a Matemática (pura) não era cultivada em Portugal e, assim, as escolas superiores limitavam-se a preparar professores das escolas secundárias, ou técnicos e cientistas que porventura a utilizariam. Foi nesta atmosfera, enormemente agravada pela opressão da ditadura e as guerras civil em Espanha e na Europa, que Monteiro, não participante do ensino oficial, fez entrar uma lufada de ar fresco impulsionando decididamente a Matemática neste país. Este meu breve testemunho refere-se simplesmente ao período 1939-1942 em Lisboa onde ele criou as bases de desenvolvimento então impensáveis.
Além de se ocupar dos planos e mínimos detalhes da publicação e divulgação da Portugaliae Mathematica, já antes de 1939 Monteiro tinha com antigos bolseiros promovido exposições sistemáticas (e a sua publicação) de tópicos que importava divulgar. A clara visão da urgência de trabalho verdadeiramente construtivo em Portugal, a sua incansável iniciativa e, antes de tudo, o seu entusiasmo e determinação eram imediatamente perceptíveis e contagiosos. Cedo teve espontânea colaboração, e especialmente valiosa foi, desde o início, a de Manuel Zaluar Nunes e a de José da Silva Paulo – que durante dezenas de anos aqui mantiveram as revistas criadas. O Instituto para a Alta Cultura, presidido por Celestino da Costa e aconselhado por Pedro José da Cunha, interessava-se, apoiava os seus projectos, e tinha atribuído a Monteiro, que sempre teve necessidade de ocupar muito do seu tempo com lições privadas, uma pequena bolsa. A Faculdade de Ciências emprestava uma sala onde nos reuníamos quase todas as tardes (e mesmo à noite) para nos ocuparmos da Portugaliae Mathematica e, mais tarde, também para seminários informais. Foi a partir destes seminários, onde chegavam as primeiras publicações obtidas por troca, que Monteiro criou o Seminário de Análise Geral e o Centro de Estudos Matemáticos do IAC. Hausdorf (1914) definira e estudara os espaços métricos, Fréchet (1926) publicara Les espaces abstraits e Sierpínski (1928) a sua introdução à topologia geral. Em contraste com a explosão de hoje a Matemática prosseguia vagarosamente, e nós aprendíamos a conhecer melhor as nossas deficiências, o nosso isolamento e as deficiências das nossas bibliotecas. Monteiro iniciou e dirigiu, para o IAC, um serviço de inventariação da bibliografia científica em Portugal. Nas discussões do Seminário, Monteiro punha problemas, observávamos como procurava resolvê-los, tentávamos contribuir e a pouco e pouco aprendíamos a avançar por nós próprios. Começávamos a preparar para publicação os resultados (necessariamente elementares) do nosso trabalho. Nunca mais conheci ninguém que, para aquele nosso nível, fosse tão eficiente na promoção de jovens. Monteiro preocupava-se em que logo que possível fôssemos estudar num bom centro estrangeiro; e conseguiu para nós (também não participantes no ensino oficial) bolsas do IAC que nos permitissem dedicar mais do nosso tempo ao estudo. Outra sua iniciativa, a Gazeta de Matemática, congregou igualmente professores do ensino secundário, dirigia-se a estudantes que entravam nas Universidades e divulgava o que se fazia no Centro e na Sociedade Portuguesa de Matemática que Monteiro também fundou. Tudo isto impulsionou, decerto, o aparecimento e depois desenvolvimento das publicações matemáticas do Porto, da Portugaliae Physica, da Gazeta de Física, da Revista de Economia; e o contacto saudável, embora mais difícil, com outros centros de investigação que se tinham formado, como o da Estação Agronómica Nacional, contribuía para abrir perspecti¬vas muito prometedoras e únicas no desenvolvimento do país.
Desenvolvia-se a correspondência com matemáticos estrangeiros alguns dos quais enviavam trabalhos para a Portugaliae Mathematica, e Monteiro incitava-nos a comunicar com os provavelmente interessados no que fazíamos. Fréchet, Fantappié e Severí vieram fazer lições no Centro. Monteiro conseguia para nós bolsas do IAC no estrangeiro. Mas a guerra na Europa e a burocracia eram dificuldades impossíveis ou difíceis de ultrapassar. Em 1942 um de nós foi para Zürich, e pouco depois três outros para Roma. De fora das escolas, as portas para o futuro da Matemática em Portugal tinham sido, decidida e largamente, abertas pelos esforços, dedicação e coragem de António Monteiro. Mais tarde, decerto com melhores oportunidades, um de nós, José Sebastião e Silva, pôde manter aqui uma brisa desse ar fresco que 40 anos depois, ainda podemos respirar.
Hugo Ribeiro: Actuaçãode António Aniceto Monteiro em Lisboa entre 1939 e 1942, Portugaliae mathematica 39 (1-4), V-VII (1980).
quinta-feira, 13 de dezembro de 2012
Minuta da transferência de propriedade da Gazeta de Física de Armando Gibert para a Sociedade Gazeta de Matemática, Limitada (21 de Outubro de 1946)
© Família de António Aniceto Monteiro
===
Mais uma vez, a letra desta minuta parece ser a de Avelino Cunhal. Ver:
Minuta da entrega da edição da Portugaliae Mathematica à Sociedade Gazeta de Matemática, Limitada (21 de Outubro de 1946)
-
Armando Gibert
(Fotografia do ficha da SOCIEDADE CORTICEIRA ROBINSON)
(Digitalização amavelmente cedida por Manuela Mendes)
-
No blogue RUY LUÍS GOMES: Armando Gibert
Neste blogue: Armando Gibert
===
Mais uma vez, a letra desta minuta parece ser a de Avelino Cunhal. Ver:
Minuta da entrega da edição da Portugaliae Mathematica à Sociedade Gazeta de Matemática, Limitada (21 de Outubro de 1946)
-
Armando Gibert
(Fotografia do ficha da SOCIEDADE CORTICEIRA ROBINSON)
(Digitalização amavelmente cedida por Manuela Mendes)
-
No blogue RUY LUÍS GOMES: Armando Gibert
Neste blogue: Armando Gibert
quarta-feira, 12 de dezembro de 2012
Certidão da entrega da edição da Portugaliae Mathematica à Sociedade Gazeta de Matemática, Limitada (21 de Outubro de 1946 e 22 de Janeiro de 1947)
© Família de António Aniceto Monteiro
===
Foram testemunhas:
Vergílio Simões Barroso (era matemático, irmão de Maria Barroso; ver: Entrevista - Jornal O Mirante, Para a História da Sociedade Portuguesa de Matemática, José Morgado: Os Anos 40 e a Resistência Matemática).
Jayme Xavier de Brito (era físico; ver, por exemplo, Brito, Jaime Xavier de, 1893-1960 - Biblioteca Nacional de Portugal).
O notário foi António Cardoso de Sampaio e Pinho.
Outros intervenientes já conhecidos: Avelino Cunhal, Manuel Augusto Zaluar Nunes, José Duarte da Silva Paulo.
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