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sexta-feira, 15 de abril de 2011

Jerónimo Tarrinca no prefácio do romance «Avieiros»​, de Alves Redol

(...)
Com o esquadro da sua inteligência minuciosa, revelou-me aquela gente que vivia em barcos, pescando ou vendendo melões e melancias, segundo as épocas. Nómadas do rio, como os ciganos na terra, tinham vindo da Praia da Vieira e faziam vida à parte: chamavam-lhes avieiros.
Nunca ouvira falar de semelhante gente.
A minha curiosidade alongou-se e soube então que o Tarrinca os encontrava durante a safra do sável, que lhes transportava o pescado até à Ribeira de Lisboa e que não me seria fácil merecer-lhes a convivência.
Este romance nasceu, portanto, numa manhã soalheira no cais de Vila Franca. Já lá vai uma trintena.
Durante quatro anos persegui-os como pude, sempre com a ajuda do impetuoso Jerónimo Tarrinca, que me levou à Toureira, uma das poucas aldeias de avieiros, criadas à margem do Tejo e do mundo, e onde semeei, pouco a pouco, amizades e até devoções. Mas tão escassas horas de convivio não bastavam para saber quanto precisava acerca deles. Até que um dia consegui a promessa de viver numa barraca da Palhota, lá mais acima, perto de Valada do Ribatejo, em casa de Manuel Lobo.
(...)
Nesta variação sobre um tema de 1940 estabeleci um compromisso. Mantenho o tom da primeira edição, mas sirvo-o com outra ferramenta afeiçoada à gesta popular. Gostaria de a ler aos mesmos que ouviram da minha boca a primeira versão, para que me dissessem se errei. Mas é tarde. A vida separou alguns; a morte levou outros tantos. Neste momento recordo Joaquim Soeiro Pereira Gomes e Carlos de Oliveira.
E tenho de acrescentar Jerónimo Tarrinca, a quem ainda e também dedico o livro. A sua morte pertence à história deste romance e de todos nós. Incapaz de fazer frente à concorrência da camionagem que lhe tomava os fretes ao barco, o meu amigo resolveu adquirir um motor para o tornar mais rápido. Empenhou-se ao comprá-lo, nasceu-lhe uma esperança, mas a máquina era débil para o peso da lancha e as exigências das viagens. Sem dinheiro para a substituição, Jerónimo Tarrinca começou a empreender no seu novo falhanço. E um dia, mesmo à vista do Tejo, onde o bote balouçava sem préstimo, saltou para a frente de um comboio rápido. Cara a cara, sem baixar os olhos.
Ver também:
Avieiros
Os passeios no Tejo numa biografia literária de Soeiro Pereira Gomes (onde se pode ver quem era Jerónimo Tarrinca)
Passeio no Tejo


quarta-feira, 11 de maio de 2011

Passeios no Tejo: identifica​ção das fotografia​s

Recebi do Eng. António Mota Redol a identificação de alguns participantes dos «passeios no Tejo», feita a meu pedido, o que muito lhe agradeço. O Eng. António Abreu já me tinha participado a confusão (erro meu) entre Fernando Lopes Graça e Rui Grácio, o que também lhe agradeço. Todas estas fotografias são provenientes dos arquivos de Pilar e Hugo Ribeiro.
Em seguida, transcrevo as partes significativas da identificação feita pelo Eng. António Mota Redol.


...
Talvez se consiga distinguir as fotografias dos passeios de 41 e de 42.
...
O de 40 parece não ter fotografias.
...

Este passeio com 2 barcos terá sido em 1942.
Na parte de trás do barco que está em primeiro plano, sentados, estão Manuel da Fonseca (de chapéu), Sidónio Muralha e Maria Lucília Estanco Louro. Em pé está um dos tripulantes.
Ao lado da Maria Lucília está o Carlos Alberto Lança e a seguir pode ser o Francisco Pulido Valente.
O de óculos, em primeiro plano, não identifico (mas pode ser o Ferreira Marques). Bem como os outros, todos de costas.
Na quilha deste barco, de chapéu, parece ser Caraça. O que está com a cara tapada com a mão, deve ser o economista, fundador do PS, Francisco Ramos da Costa.
No outro barco, em pé, junto ao mastro, é Arquimedes da Silva Santos. Os outros, embora de frente, não identifico.

Alves Redol, Fernando Lopes Graça e outros num passeio no Tejo
Vêm-se, também, Sidónio Muralha, Manuel Campos Lima (director de "O Diabo"), Maria Lucília.
O de "pullover" junto a Redol deve ser Alfredo Pereira Gomes, irmão de Soeiro. Por detrás de Redol, em pé, de camisa branca, a minha mãe, Virgínia Redol.
Junto a Lopes Graça será Maria Helena Correia Guedes e, atrás, talvez Francisco Pulido Valente.
O de óculos escuros, segundo Piteira Santos, será um operário da Imprensa Nacional.

Não consigo identificar. O "Liberdade" tinha uma bandeira com esta palavra, a qual se vê em uma das fotografias dos passeios.
Tinha mesmo este nome, por vontade do dono.

Estes barcos são dos avieiros, que pescavam (e ainda pescam) no Tejo. Nas fotos vêm-se as redes.
A mulher acompanha sempre o homem (dia e noite) e trabalha tanto como ele, além de fazer a comida. Ela rema, enquanto o homem lança e recolhe a rede.

Soeiro Pereira Gomes num passeio no Tejo em 1941 ou 1942
Nestes passeios Soeiro lia poesia e contava histórias divertidas. Alves Redol falava de assuntos políticos.

Hugo Ribeiro e Fernando Piteira Santos, em primeiro plano, num passeio no Tejo em 1941 ou 1942
De boné, Jerónimo Tarrinca, o dono do barco "Liberdade". Dobrado, está António Vitorino, que tinha uma taberna no cais de Vila Franca e fazia o almoço. É a ele e a Jerónimo Tarrinca que Alves Redol dedica o romance "Avieiros". Muitos investigadores escrevem que era Manuel da Barraquinha quem fazia a comida, mas trata-se de confusão. E alguns até dizem que era ele quem organizava os passeios.
Já esclareci isso numa mensagem anterior.
Quanto aos fotógrafos: nas diferentes fotografias vêm-se duas pessoas com máquina, Inácio Fiadeiro e Antero Serrão de Moura.

A outra que ri é Maria Olívia.

Passeio no Tejo: vêm-se Pilar Ribeiro, Lídia Monteiro, Soeiro Pereira Gomes (em baixo à direita), Virgínia Redol e Fernando Lopes Graça (à direita)
O Fernando Lopes Graça não é, de certeza. O de óculos será o Rui Grácio.
O deitado, de branco, é o Francisco Ramos da Costa. Ao lado da Lídia é a Stella Fiadeiro, mais tarde Stella Pirteira Santos. Por detrás, junto ao mastro deve ser o Inácio Fiadeiro.

Passeio no Tejo
Primeira fotografia
Lá atrás está o Arquimedes da Silva Santos.
Junto da Pilar e da Lídia confirmo o Inácio Fiadeiro, que na foto anterior tem a cara um pouco escondida, e a Stella.
Eles estão todos encolhidos e encostados uns aos outros porque num dos passeios, na versão de um participante, estava muito frio. Deve ser este.
Ou como saíam muito de manhã, estava frio em todos os passeios.

António Aniceto Monteiro na Costa de Caparica
Não é o Aniceto Monteiro. É o Álvaro Cunhal, que só foi no passeio de 41, porque em 40 estaria preso e em final de 41 passou à clandestinidade.
O outro é o António Vitorino.
A fotografia não é na Costa de Caparica (onde parte deles estiveram num destes Verões; talvez no de 41; aliás, o pai de Álvaro Cunhal, o advogado dr. Avelino Cunhal, tinha uma casa de Verão na Costa, onde pintou vários quadros com pescadores). É no Passeio do Tejo de 41.

En las márgenes del Napostá...
Esta fotografia deve ser num local chamado de "Obras", junto ao Tejo, perto de Azambuja, de que todos os participantes e pessoas de Vila Franca que sabiam dos passeios falam. Os "passeantes" falavam de vários assuntos, políticos e culturais, e aqui almoçavam e descansavam.
Na foto vêm-se, além de vários já identificados, António Dias Lourenço (um dos organizadores destes passeios), o poeta Francisco José Tenreiro, de S. Tomé e Príncipe.

sábado, 16 de abril de 2011

terça-feira, 5 de abril de 2011

Hugo Ribeiro e Fernando Piteira Santos, em primeiro plano, num passeio no Tejo em 1941 ou 1942

© Família de Pilar e Hugo Ribeiro
Agradecimentos: Mário Ribeiro, Ilda Perez
Digitalização de Jorge Rezende

Nota: Estas fotografias, que retratam os passeios no Tejo, e as outras, as da visita de Maurice Fréchet, têm sido tornadas públicas por diversas formas, sem que se faça referência à sua origem, o que se lamenta. Muitas delas pertenciam ao espólio de Pilar e Hugo Ribeiro, a quem se deve terem chegado até nós. Talvez que uma boa parte tenha sido tirada pela câmara de Bento de Jesus Caraça, uma Voigtländer. Ao fundo, de chapéu, talvez seja Jerónimo Tarrinca. Estas fotografias, assinaladas como sendo de 1942, talvez sejam, de facto, de 1941.

sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

Os passeios no Tejo numa biografia literária de Soeiro Pereira Gomes

(...)
Encontro-me na casa do Arquimedes [da Silva Santos], na Póvoa; depois de ter lido, em cópia, o discurso, peço e obtenho esclarecimentos: os passeios pelos montes atrás de Vila Franca a ler o Manifesto Comunista deram-se em 1941, depois de se ter constituído um Comité Regional das Juventudes Comunistas; o primeiro passeio de barco foi no Verão de 1941; antes de Junho de 1941 com Soeiro falavam mais em coisas literárias. O poeta continua a falar daqueles tempos e mostra-me fotografias antigas e, entre outras, uma do passeio de barco em que aparecem, além dele próprio, Pereira Gomes, Manuel Campos Lima, Rui Grácio, Cândida Ventura, Álvaro Cunhal, Dias Lourenço, Aniceto Monteiro, Piteira Santos, Guilherme Morgado...
A esses passeios refere-se Joaquim em duas cartas ao irmão Alfredo. Na de 3 de Junho de 1940 conta com entusiasmo:

Há tempos fui dar um belo passeio e lembrei-me de ti e do Jaime. Passeio de barco à vela. Vela vermelha e gente vermelha: malta do Diabo. Fomos almoçar às obras uma caldeirada à fragateiro. Cantou-se (que cantos!...) e conversou-se à vontadinha. Lembrança do Redol de quem sou agora muito amigo. Vou com ele até para férias em meados de Julho.

Noutra, de 9 de Abril de 1941, anuncia mais um «passeio de barco, Tejo acima, com a malta do “Diabo”» a realizar-se no dia 27 do mês.
Os passeios no barco Liberdade de Jerónimo Tarrinca no Verão de 1941, de Alhandra e Vila Franca até ao local das Obras perto de Azambuja, um lugar aprazível e com praia fluvial para tomar banho e fazer piqueniques, ou apenas indo Tejo abaixo Tejo acima, com caldeiradas a bordo, eram, na realidade, momentos de alta escola política e partidária, como as excursões e visitas a museus e locais históricos, como as actividades culturais e desportivas nas colectividades, onde se processava aquela que António Dias Lourenço chama «uma mútua dádiva entre trabalhadores manuais do Baixo Ribatejo e a intelectualidade portuguesa mais avançada e progressista» (*). No Liberdade passearam o dr. Fernando Piteira Santos e o prof. Alfredo Pereira Gomes, o dr. Francisco Eduardo Pulido Valente e o eng. Correia Guedes, o dr. João Ferreira Marques e o prof. Bento de Jesus Caraça, Manuel da Fonseca Barraquinha, vilafranquense e responsável pelas caldeiradas, Cândida Ventura e o advogado Inácio Fiadeiro, o dr. Augusto Sá da Costa, o poeta e crítico Mário Dionísio, que lembra Soeiro a ler versos, e tantos outros.
Num desses passeios participa, convidado por Redol, Pedro Neto. No dia e na hora marcados, o jovem vai ao cais da Cimento Tejo e lá encontra Soeiro Pereira Gomes com uma pessoa desconhecida, que depois virá a saber ser Álvaro Cunhal. Com o barquito de um trabalhador da Fábrica, João Corneta, os três foram ao encontro do Liberdade, onde encontraram, entre outros, António Dias Lourenço, António Ramos de Almeida, Lopes-Graça e Bento de Jesus Caraça, que o chamou de lado para lhe perguntar sobre a organização das Juventudes Comunistas em Vila Franca. Pedro Neto responde que na sua opinião «o grupo dos jovens devia estar integrado diretamente na organização do partido».
Os jovens e a Federação das Juventudes Comunistas eram objectivos prioritários dos reorganizadores. Em Vila Franca, porém, já existia um grupo de moços ligados ao Alves Redol e ao António Dias Lourenço, que se interessavam por política e literatura. Eram eles, já o vimos há pouco, além de Pedro Neto e Arquimedes, Octávio Pato, António Tavares, António Lopes e Jorge Reis, que em 1941 publicavam um jornalzinho, escrito à mão, chamado Querer É Poder. Todos esses jovens, como já lembrou Arquimedes e como me repete Jorge Reis, que encontro em Cascais no mês de Abril de 1996, depois da invasão nazi da União Soviética de 22 de Junho de 1941, entram nas Juventudes Comunistas e começam a trabalhar a sério na militância partidária.
Para Pedro Neto, então, esses e os outros jovens deviam-se integrar no Partido para unir as forças, pois não tinha sentido haver, por exemplo, na fábrica Cimento Tejo, onde ele trabalhava, duas organizações comunistas: o partido, que certamente existia, e os jovens.
Até ao passeio no Liberdade, à excepção do episódio do pequeno manifesto de 1938, o relacionamento entre Soeiro e Pedro Neto tinha sido rigorosamente isento de interesse partidário e até político. «Só no Inverno de 1940 é que ele me fala levemente no Partido», lembra Pedro. «Então, o senhor sabe quando Joaquim ingressou no Partido?», pergunto. «Certeza só tenho depois do nosso encontro lá no Sobralinho, quando Soeiro já era responsável do Comité Local em Alhandra.» Aconteceu que a sugestão de Pedro Neto a Bento de Jesus Caraça tinha sido aceite. (...)
(...)

(*) Lourenço, António Dias, Vila Franca de Xira. Um Concelho no País, Edição da Câmara Municipal de Vila Franca de Xira, 1995, p. 160.


(Soeiro Pereira Gomes, Uma Biografia Literária, páginas 121-123)